Por Coelho Neto (1890)
Ah! O dono dos sapatos era ele e ali estava só, com duas velhíssimas chinelas nos pés, entre livros, diante de uma mesa carregada de papéis onde reluzia a pasta do escritor, bojuda e larga. Que havia de fazer para não sentir as horas lentas e caladas que iam passar? Tirou o casaco e o colete e, senhor da casa, sentiu uma pontinha de despeito, mas recompôs o espírito alvoroçado com um argumento fino e justo: "Sim, se lhe emprestei os sapatos ele confiou-me a casa que, se não vale pelos móveis, duma deplorável banalidade, muito merece pelo que há ali naquela pasta atochada, preciosa como um tesouro e por aquela soberba Barricada que, se agora as aranhas profanam, mais tarde há de ser disputada com o mesmo furor artístico com que hoje os milionários se batem a moedas por um palmo de tela da Renascença." Sentou-se à mesa, tomou um volume, abriu-o ao acaso, e leu:
Une nuit que j'étais prês d'une affreuse Juive,
Comme ou long d'un cadavre, un cadavre étendu, Je me pris à songer...
Eram versos de Baudelaire. Apesar de os conhecer, deixou-se levar por eles, embalado no ritmo das estrofes, seduzido pela sonoridade das rimas, mas, de quando em quando, desviava-se-lhe o espírito: a transcendente Psicologia das botas perseguia-o e os seus sapatos como que lhe passavam por diante dos olhos animados, fugindo numa névoa para a câmara cheirosa de uma mulher loura, que surgia dentre sedas e linhos, esplêndida de graça e nua como a Vênus quando nasceu do mar, enrolada em rendas de espumas, à luz do sol da Hélade divina.
Levantou-se bocejando e, mole, sob o influxo dormente do silêncio e do sol que espalhava um suave narcótico no ar, atirou-se à cama com o Baudelaire e leu até que o livro aberto lhe caiu sobre o peito e os olhos se lhe fecharam languidamente.
Que horas seriam quando despertou? Vinha perto a noite. A brisa era fresca, a luz era branda. Sons de flauta passavam no ar. Seria o rouxinol? Não, não era o rouxinol nem era a cotovia, mas um vizinho melómano que soprava o tubo. Ergueuse, foi lavar o rosto e, revendo-se ao espelho, lançou à própria imagem esta interrogação preocupada: "Por onde andarão os meus sapatos?" Escurecia. Começava a entediar-se quando bateram à porta discretamente.
— Quem é?
— Sou eu, disse alguém com preguiçoso vagar. Foi à porta, entreabriu-a e distinguiu um vulto imenso de mulher. Como lera a Géante, de Baudelaire, atribuiu a aparição daquela monstruosidade à sugestão da leitura. Mas a aparição movia-se, coçava o queixo e falou:
— Sinhá mandô sabê vosmicê cum passô e si vai lá...
— Sinhá! Quem seria a solícita criatura?! Alguma formosa mulher, sem dúvida; talvez a musa reinante do romancista. E que lhe havia de mandar dizer?
— Olha, dize-lhe que estou passando mal. Torci um pé justamente quando me vestia para ir jantar. Como vai ela?
— Ela tá boa. Então vosmicê não vai?
— Não posso. Dize-lhe que estou impossibilitado de sair.
— Sim, sinhô. E a imensa mulher moveu-se na sombra pesadamente e foise. Quem será?! — pensou de novo Anselmo olhando tristemente para os pés, como um pavão. Sinhá!?..
Mas... por onde andarão os meus sapatos!? E, conjeturando, debruçou-se à janela, já aflito, vendo chegar a treva sem que, ao menos, tivesse à mão, para alumiar o aposento, uma reles candeia. Como, porém, o almanaque anunciava para a noite seguinte lua cheia contava com a presença clara do astro.
Efetivamente uma luz pálida foi-se desdobrando e branqueando os muros, entrou pela janela, foi até ao fundo do quarto pondo uma fronha alvíssima no travesseiro do leito e uma piedosa mortalha sobre os mortos de A Barricada. O corredor cimentado ficou mais branco que o mármore e os grilos, enlevados, cantaram nas frinchas dos muros enquanto os morcegos, trissando, passavam no ar sossegado que os jasmins abertos perfumavam.
Anselmo começava a sentir as exigências do estômago, o ventre tirânico mandava-lhe recados ao cérebro.
— Acordou a jibóia! disse, como se falasse à lua. Efetivamente a jibóia acordara e a tempo, valha a verdade, visto como o primeiro repasto fora às onze da manhã e, como era verão, dos dias longos, era justo que, a horas tão adiantadas da tarde, tendo digerido, ela reclamasse nova ração. Mas como havia ele de acudir à fome se não se podia mobilizar preso, como estava, pelos pés?
Entrou em cólera surda invectivando o romancista e ia já transpondo o terreno vil da injúria quando ouviu passos arrastados e reconheceu a alentada mulher, que vinha, de novo, pelo corredor, anunciada por alegre retinir de louças, precedida de suave aroma de guisados, mais grato que o dos jasmins abertos.
Era ela, a desconforme criatura, e trazia uma bandeja coberta por uma toalha alva como o luar. Deu com ele à janela e, sem falar, sorrindo, passou a porta e depôs sobre a bojuda pasta a abastecida bandeja.
— Sinhá mandô dizê qui vosmicê não arrepare... Mas cumu vosmicê disse qui não podia sahi móde o seu pé...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.