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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

O bruto, com o alfanje já erguido, dirigiu-se vagaroso para Branca, e sua pequena companheira. Parou um pouco, contemplou-as com ar de mofa e avançou definitivamente.

O arvoredo copado estremeceu no alto, de indignação talvez, no momento em que o agressor suspendia a arma assassina.

O facão desceu, mas antes de tocar o alvo novo tremor abalou os ramos e uma lâmina, cintilando aos raios matutinos do sol, desprendeu-se das folhas, vindo se encravar no crânio do perverso negro e estirou-o de bruços.

Branca e Rosalina estavam salvas!

Apenas viram cair o negro a moça e a menina, sem pensar na procura do seu salvador, fugiram para casa voando que não correndo.

Já alto estava o sol e um dia esplêndido iluminava as matas do Amazonas.

— Que houve?! exclamou Eustáquio, avistando sua mulher e Rosalina, que corriam para ele, pálidas e exprimindo terror nos semblantes alterados.

— Que tem você, Branca? — E tu Rosalina?

A jovem profundamente impressionada, não pôde responder e caiu em uma cadeira, meio desmaiada, mas a orfãzinha, ao mesmo tempo que acudia as necessidades da sua protetora, abatida pelo susto, narrou circunstanciadamente a Eustáquio o seu perigo e a imprevista salvação.

— Realmente é ameaçador o aspecto que tomam de novo as cousas, disse ele.

"Vejo agora que a tranqüilidade dos nossos últimos tempos foi uma aparência enganadora e um laço que nos armaram que se desvela hoje.

"Venham os miseráveis que não nos encontrarão de braços cruzados!

"Somos perseguidos porém o que é notável é que possuímos um defensor."

— Quem, tão a propósito, estaria colocado nos ramos para vos salvar, a ti e a Branca? E...

— Rosalina, não percebeste cousa alguma nos galhos?

— Não, senhor, nada vi senão reluzir a faca que prostou o malvado, cujo cadáver deve jazer na estrada.

— Houve um salvador intencionado, é certo, acrescentou o ex-subdelegado, mas não consigo adivinhar quem seja o amigo que vela sobre nós.

Ditas estas palavras, Eustáquio calou-se, fixou a vista sobre um ponto do soalho e levou um momento como que inquirindo a memória.

— Que homem, dizia ele, terá interesse em defender-me com sacrifício próprio? Será o padre Jorge? Isto é tolice... um pobre velho.

"É verdade que não deixo de ser estimado na povoação porém não vejo quem, a não ser o meu excelente padre, leve essa estima até a dedicação..."

Na cozinha trabalhava Ruperto, esfregando umas facas, e de sobre o fogão subiam filetes de odorífero fumo deixado escapar pelas janelas mal fechadas, onde fervia ruidosamente o almoço.

O escravo, ao chegar o senhor, levantou a cabeça, continuando diligentemente o trabalho.

— Vem daí, disse-lhe Eustáquio, e segue para S. João do Príncipe. Lá dirás ao padre Jorge que me envie os paraenses que já aqui estiveram, há talvez dois anos. Convém que tomes o cavalo para maior segurança e presteza.

Logo em seguida um robusto animal relinchou no roseiral e, montado pelo escravo, internou-se pela picada em trote rápido.

Depois de sepultado o cadáver do que sucumbira ao golpe de um anjo tutelar, os engajados reentraram em casa do protetor de Rosalina, e este, observando que os atentados iam tendo já lugar em pleno dia deu começo à construção de uma sólida muralha de madeira que devia limitar as suas terras, não só do lado do campo e da montanha como do da mata e do Iapurá.

Dentro de três dias os valentes filhos do Pará, de machado em punho, abateram troncos, fincaram-nos circularmente, levantando em volta da casa uma trincheira de seis pés de altura eriçada de pontas agudas, previamente aparadas nos postes, que podia desafiar um bando de malfeitores.

— Creio, disse o seu esposo a Branca, que, metidos neste baluarte, estamos perfeitamente a salvo.

— Não o creio eu, replicou com ar incrédulo a moça, e só me acharei segura quando longe daqui. Tanto, que sinto muito não estar neste momento em Manaus ou em Belém.

— Se é do seu desejo, Branca, falou tristemente Eustáquio, como quem está contrariado na sua vontade, podemos desde hoje nos preparar para a retirada, mas ou me engano inteiramente, ou não corremos mais risco algum.

— Enfim..., disse Branca, cortando o diálogo. Esse "enfim" exprimia muita cousa. Era a resignação passiva da jovem à persistência do marido e ao mesmo tempo a passagem da responsabilidade de qualquer desgraça para cima de Eustáquio.

CAPÍTULO VIII

POMBA E SERPENTE

Estava-se a 14 de setembro de 186...

Reinava imensa alegria em casa de Eustáquio.

Branca dera à luz oito dias antes, isto é na véspera da maior festa nacional do Brasil, o aniversário da sua independência do jugo português, uma criancinha bela como um cupido que, passando de mão em mão, recebia afagos de toda a sorte da família inteira, sem excetuar uma mocinha de S. João do Príncipe, dedicada e constante veladora da esposa do ex-subdelegado, durante os incômodos que precederam o parto.

Por todos esses dias a família se entregara exclusivamente ao prazer e também no povoado todos estavam contentes.

(continua...)

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