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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

— Disse-me o senhor que conta absolutamente com o auxílio de um criado que reside no palácio... o duque vai ao baile, dorme, como costuma, no palacete do marquês, vai depois, sem voltar ao palácio, para a quinta de verão de Anatópolis. A duquesa acompanha-o, sem levar, necessariamente, as jóias com que se apresentará no baile... ficam as condecorações do duque, etc... Toda essa riqueza vai provisoriamente para um armário antes de ser guardada definitivamente na burra... muito bem... sabe que o particular do duque pretende aproveitar a ausência deste para estar algum tempo com a família, que não mora na quinta... não é assim?...

— Sim, senhor.

— E o senhor aproveita-se da ausência dele... Acha fácil a coisa... Mas ainda não refletiu nas averiguações que há de fazer a polícia...

— Já pensei, já pensei...

— Olhe que o negócio não é o mesmo daquelas jóias que filaste à Milica, quando ela perdeu as graças do duque e foi para a rua...

— Isso sei eu melhor do que o senhor — interrompeu Pavia, movendo o queixo num gesto nervoso e impaciente. — Por isso, o senhor há de dar desta vez mais alguma coisa pelas pedras do que deu pelas de Milica...

— Não seja esta a dúvida... a coisa é a polícia... a polícia.

— Não morra de temores da polícia. Asseguro-lhe que ela não fará coisa alguma... Se aparecer, perderá seu tempo. Ficará nas interrogativas. Terá suspeitas apenas... Suspeitará de mim como suspeitará de vários outros... mas suspeita nunca foi base para uma condenação...

— Mas a casa que o senhor alugou na Tijuca é um indício...

— Como?... Se eu não me retiro da quinta?! Conservo-me nas mãos da polícia até que ela se convença da minha inocência?!... Quem será capaz de imaginar que as jóias roubadas estão em casa de tal ourives... aqui em sua casa... Se alguém tivesse reparado na minha entrada hoje aqui, e alguém notar a minha saída, se as minhas barbas tivessem a mesma cor das que eu trago, se estes óculos azuis fossem de meu uso... seriam indicações possíveis à polícia, caso ela desconfiasse deste estabelecimento... o que fora loucura!... Mas felizmente...

— Certamente tudo é favorável. Todavia, que lhe garante que não haverá testemunhas no jardim do palácio?

— Isto é um caso possível, mas não é provável... Quando o duque está fora... a quinta é pouco freqüentada... Os que lá moram, recolhem-se todos e abandonam o parque... não é provável... E se não houver testemunhas, se não se encontrarem vestígios dos objetos subtraídos, o que se há de fazer?

— É fato...

— Demais, eu estou convencido de que, se, apesar de todas as minhas precauções, a coisa transparecer, terei por mim o duque, que não quer perder-me e aprecia-me... A tal duquesa vota-me um ódio de morte... Talvez se lembre de acusar-me, mas é uma velhinha que não tem voz ativa na casa... Tem-me ódio, por ter ciúmes do marido.

O guarda-livros aplaudiu com a sua risadinha habitual e observou:

— Na verdade, se o senhor conta com a proteção infalível da sua própria vítima, eu sou o primeiro a responder pelos resultados da empresa...

— Deixe a coisa andar..

— Até desejo muito a sua felicidade, porque não sei se lembra de umas jóias que nos levou daqui, há dias, para uma nova menina que andava em vésperas...

— Lembro-me. Ainda não as paguei, mas pago. Aí está... Do dinheiro que o senhor me der, eu desconto...

— É exatamente o que queremos... é o que nos convém...

— Deixe a coisa andar... — brejeirou Pavia.

— E há de andar como um patim, estou certo...

— Mande, pois, uma pessoa de confiança, ou vá pessoalmente, na noite de 13 para 14, esperar pelo resultado da minha campanha e pelas jóias...

— Hei de ir eu mesmo...

— Acho melhor assim... Não devemos envolver muita gente... nem todos são discretos, e... não há também... tanta riqueza que chegue para muitos... nada!... Se fosse possível irmos só, os dois... dispensando auxílio de criados...

— Se são imprescindíveis...

— ... não há remédio... — concluiu Pavia, estremecendo o queixo, segundo o seu frenético costume.

Na loja, ressoavam ainda as exclamações dos conversadores.

— Estamos convencionados — disse Aleixo, como para encerrar os tratos. — Depois d’amanhã vou postar-me onde... Ainda não me disse o lugar, creio...

— É verdade... É preciso determinar um ponto.

— Mas, qualquer... — No matadouro...

— Bem... Coloco-me junto de um dos pilares do portão... espero pela sua chegada até o romper do dia... Vê que tenho boa vontade... Avalio o tesouro com a honradez que sabe... e, conforme os valores, arranjo um negócio muito ao sabor dos nossos interesses...

— É rigorosamente o que eu desejo.

Depois desta frase de Manuel de Pavia, seguiu-se um silêncio profundo. Pavia, com os olhos cravados no chão, absorvia-se em meditações.

(continua...)

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