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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

— Não, não é bom. Há muita gente conhecida... Vamos à ilha do Governador.

Leda estava já completamente vestida e não esqueceu os pandeloques que chocalhavam na cintura. A barca viajava semivazia e os viajantes habituais viram com espanto a nossa entrada. A elegância extra-rural de Leda fez escândalo. Ela parecia não notar, mexia-se por toda a barca naturalmente, dando pequenos gritos de admiração à paisagem que se desenrolava. Não cessava de olhar, de aspirar com força toda a exalação de poesia e de grandeza da baia incomparável. O sol, para o poente, ainda domava tudo e as águas estavam azuis. Um passageiro informou-nos da demora da barca nos pontos. Iria primeiro ao Zumbi, depois a outras localidades da ilha e voltaria ao primeiro ponto no espaço de uma hora. Saltamos. O arraial tinha um ar risonho e estendia-se pela praia alva, cuja curva marcava obedientemente. As canoas dormiam nas praias e as redes secavam ao sol, estendidas sobre varas. A italiana propôs um passeio. Havia tempo, podíamos fazê-lo. Começamos a andar. Das casas espiavam-nos. Já ficavam para trás, tomamos um atalho, depois um outro e quando voltamos ao caminho largo, tínhamos tomado outro. Não percebemos logo, só viemos a dar com o rumo depois de ter andado um quarto de hora sem encontrar a praia. Leda percebeu particularmente a situação. Quando teve notícia, soltou uma gargalhada:

— Que belo!

Andávamos por um caminho deserto no momento, mas que parecia trilhado. Dois regos paralelos de carros marcavam os seus limites com a floresta. A uma hora do Rio de Janeiro, estávamos no deserto. Andamos e quase não falávamos. A italiana era a única que parecia contente.

Às vezes era um areal; em outras, era um capoeirão quase floresta. E tudo triste, desolado e abatido. Leda observou:

— Quando não há muita árvore e muita água a terra de vocês é feia! É preciso que haja muita, muita, para que ela seja bonita!

Houve um momento que nos supusemos sem saída. As árvores cruzavam-se sobre a estrada; os cipós atravessavam de um lado e de outro, os arranha-gatos perseguiam as nossas vestes, agarravam-se a elas tenazmente como se nos quisessem despir. Um sabiá pôs-se a cantar e toda a dor daquela terra calcinada, exausta e pobre, vibrou nos ares. Chegamos a uma campina. Havia bandos de coleiros trinando nas espigas de capim e os anus enodoavam os leques das ubás.

Depois da primeira marcha, pusemo-nos a conversar. O doutor estava apreensivo; eu resignado e Leda contente, recordando talvez a sua infância de campônia.

— Onde iremos dar? indagava o diretor.

— Ao mar naturalmente. Isto não é uma ilha? É; portanto não há meio de se ir ter a São Paulo.

Sentamo-nos cansados. A débil organização de Loberant resistia fracamente à fadiga.

A italiana perguntava-me o nome das plantas. Era o monjolo cheio de apófises escamosas; era a embaúba como um adorno egípcio; a tinguacita, a pindaíba, as taquaras, os cipós... Depois interessou-se pelas pequenas plantas, pelo gravata, pelo melão-de-são-caetano, pelo carrapicho e guaxima...

Era eu quem informava; o diretor, no meio daquelas vidas todas, não lhes sabia o nome, nem serventia, nem a importância.

Um bando de tiés esvoaçou por nós e a italiana perguntou:

— Mas os há mesmo assim?

E ficou um instante surpreendida que houvesse ainda daqueles pássaros nas proximidades de tantas modistas. A noite chegara-nos cheia de opressões e desejos. O doutor marchara na frente, calado, preocupado; e eu, ao lado da italiana, escolhia-lhe o melhor caminho e aspirava-lhe o perfume.

Chegamos afinal a uma casa. Lembrei-me da minha casa paterna. Era o mesmo aspecto, baixa, caiada, uma parte de tijolos, outra de pau-a-pique; em redor, uma plantação de aipins e batata-doce. Deram-nos água, ofereceram-nos café e continuamos para o Galeão que estava próximo. Quando chegamos à praia, o dia tinha agonizado de todo. Fomos a uma venda, pedimos algumas latas de sardinha, pão e vinho. Fomos servidos em velhos pratos azuis com uns desenhos chineses e as facas tinham ainda aquele cabo de chifre de outros tempos. À vista deles, dos pratos velhos e daquelas facas, lembrei-me muito da minha casa, e da minha infância. Que tinha eu feito? Que emprego dera à minha inteligência e à minha atividade? Essas perguntas angustiavam-me.

Voltamos de bote para a ponta do Caju. Durante a viagem a angústia avolumou-se-me. As pás dos remos, caindo nas águas escuras, abriam largos sulcos luminosos de minúsculas estrelas agrupadas e todo o barco vogava envolvido naquele estrelejamento, deixando uma larga esteira fosforescente.

Lembrava-me da vida de minha mãe, da sua miséria, da sua pobreza, naquela casa tosca; e parecia-me também condenado a acabar assim e todos nós condenados a nunca a ultrapassar.

A italiana conversava com o remeiro sobre a pesca. Ela conhecia a vida e fazia perguntas nítidas

Saltamos do bonde, no Campo de Sant'Ana, eu e Leda tomamos um carro; o diretor continuou para o jornal.

(continua...)

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