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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Ao fim de alguns anos de trabalhar e refletir, eu estava convencido de que, a não ser que a vida do Brasil se baseasse em certas tuberosas e solanáceas, há de ser por força de expedientes e resolvi-me por esse fato a viver também de expedientes.

Corri muitas aventuras, tive que dar muitos planos para viver, e se não conto umas e outras na ordem em que se verificaram, é porque resolvi contá-los à proporção que me fosse lembrando.

Uma da mais interessantes, porém, foi aquela pela qual me fiz Diretor da Pecuária Nacional.

Eu me dava com um mulato conhecido por Lucrécio, o “Barba-de-Bode”, uma bela pessoas que exercia o rendoso ofício de “capanga” político.

Não era bem o “espadachim” de César Bórgia, mas os seus patrões não tinham nada de semelhante ao famoso filho do Papa Alexandre VI.

Travei relações com ele em ocasião muito interessante e hei de lhes contar a maneira por que fizemos amizade.

Certo dia vim a encontrar-me com ele e Lucrécio me disse com toda a jovialidade de sua raça:

— Doutor, você precisa sair disso. por que não arranja um emprego?

— Sou estrangeiro, e, demais, não sei fazer nada.

— Qual! Um doutor sabe fazer tudo? Você não sabe pintar?

Eu tinha algumas noções de desenho, muito vagas e elementares, mas como me havia disposto a viver de expedientes, disse-lhe evasivamente:

— Alguma coisa.

— Bem — disse-me Lucrécio. — Vai haver uma reforma nas Belas-Artes e eu vou apresentar você ao senador Sofônias.

Sofônias era nesse tempo o Diretor da política nacional e fiquei admirado que um humilde “capanga” tivesse préstimo para tanto. Ele ainda insistiu:

— Veja lá, hein? Não faça feio.

Dentro em breve, fui apresentado por Lucrécio ao senador. Ele falava com um longínquo sotaque espanhol, e tinha um olhar vidrado de agonizante. Recebeume prazenteiro, como todo brasileiro a quem se solicita qualquer coisa!

— Então, menino, você é pintor?

Ele dizia menino com o “e” muito aberto; e “pentor” como se o “i” fosse “e”.

Respondi-lhe que sim e, para provar-lhe, fiz ali mesmo um “croquis” de seu retrato. Achou-o muito parecido e guardou-o. Ao jeito de lisonja, disse-lhe eu:

— V. Exa. parece-me com Suivaroff.

— Quem? — indagou.

— Suvaroff... Um grande general russo, vencedor dos turcos. — Ah! Gosto desses homens de energia.

Estivemos conversando sobre a Rússia que ele conhecia tanto como eu o México ou a Nova Zelândia. Aludiu à guerra russo-japonesa:

— Vocês perderam porque não são uma república. Lá há muitos revolucionários. O despotismo é grande lá.

Quis objetar-lhe que o Japão era também um Império e ganhara, e a França, por ser um país teoricamente liberal, tinha uma corrente revolucionária tão forte como a Rússia. Não lhe disse nada e concordei. Não se discute nunca com os protetores. Sobre a minha pretensão, ele me falou da seguinte maneira:

— Menino, você quer um lugar nas Belas-Artes, não é?

— É, senador.

— Lá não é possível. Já fiz muitos pedidos. Você não entende nada de agricultura?

Lembrei-me de meus dias de colono e respondi com toda a firmeza:

— Entendo alguma coisa. Até em pecuária tenho certas idéias e, caso o governo queira, posso experimentá-las. — Quais são?

Acudiu-me então dizer:

— Posso criar porcos que cheguem ao tamanho de bois e bois da altura de elefantes.

— É maravilhoso! Como você procede?

— É uma questão de alimentação. Processos bioquímicos, já experimentados em outras partes, que aperfeiçoei.

— Bem, menino. Vou mandar você ao Xandu e lá você expõe as suas idéias.

Esse Xandu era ministro da Agricultura, para quem o senador Sofônias me deu uma carta eloqüente e persuasiva.

Procurei o ministro que me recebeu com certa frieza, mas, desde que leu a carta do senador, fez-se prazenteiro e amável.

— Ora, Doutor! Desculpe-me! Desculpe-me! Não sabe como ando atarefado. Hoje já assinei 1597 decretos... Sobre tudo! Sobre tudo! Neste país tudo está por fazer! Tudo! Em três meses tenho feito mais que todos os governos deste país. Já assinei 2.725.832 decretos, 78.345 regulamentos... 1.725.384.671 avisos... Um trabalho insano! Fala inglês?

— Não, Excelência.

— Eu falo. Desde que o falei com desembaraço, as minhas faculdades mudaram. Penso em inglês, daí me veio uma salutar reação mental que me interessou todo inteiro. Gosto muito do inglês, com o sotaque americano. Experimente... Brederodes (gritou ele para o secretário) já temos aquele regulamento sobre a “postura” de galinhas?

Respondeu-lhe o secretário e voltou-se para mim, febril:

— O que nos falta é o frio. Ah! A sua Rússia! Eu, se quero ser sempre ativo, tomo todo o dia um banho de frio. Sabe como? Tenho em casa uma câmara frigorífica, 8 graus abaixo de zero, onde me meto todas as manhãs. Precisamos atividade e só o frio pode nos dar. Penso em instalar grandes câmaras frigoríficas nas escolas, para dar atividade aos nossos rapazes. O frio é o elemento essencial às civilizações... Mas, — emendou a alta sumidade — ainda não lhe falei sobre os seus planos. O Sofônias fala-me aqui das suas idéias sobre pecuária. Quais são?

(continua...)

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