Por Coelho Neto (1890)
— Aos pingos: não é um gerente, é um conta-gotas.
— E que vais fazer?
— Vou tomar conta do Diário Ilustrado. O Henrique Steel vai deixar a redação e os proprietários convidaram-me.
— Aquilo dá alguma coisa?
— Sei lá.
— E quando começas?
— Talvez amanhã.
— Já disseste ao Patrocínio que ias deixar a Gazeta?
— Já.
— E ele?
— Pôs-se a rir.
— Homem, queres um conselho? Fica na Gazeta e não vás atrás de promessas enganadoras. Esse Diário Ilustrado não vive um mês.
— Como não vive!?
— Não vive. Qual é o teu programa político?
— Eu sou oportunista.
— Qual oportunista! Tu não és nada.
— Ou isso.
— Ou isso.
— E é com tais idéias que vais escrever artigos de fundo?
— Qual artigo de fundo! Isso é chapa. O jornal vive muito bem sem artigo de fundo. Tenha ele noticiário variado, uma parte literária, esporte e charadas e vai longe. Hás de ver.
— Pois sim.
— E tu, Fortúnio?
— Eu? Eu vivo perfeitamente. Tenho a cidade por menagem, que mais quero? Isso de comer e dormir só me preocupa quando tenho fome ou sono. Faço os meus versos e escrevo-os em qualquer mesa de café, tenho como alampadários as estrelas do céu, amo todas as mulheres belas, a rua do Ouvidor é a minha sala de visitas; o meu quarto só Deus conhece! Vivo muito bem. — E se adoeceres?
Fortúnio encolheu os ombros e atirou uma baforada.
— Que diabo! Vocês não pensam...
— Felizmente! Que seria de nós se pensássemos? — Pois eu acho que devias procurar alguma coisa.
— Queres que me empregue no Pascoal? Queres que me faça condutor de bonde ou que vá rolar fardos na Alfândega?
— Não digo isso, mas podias arranjar lugar num jornal.
— Ora, Luiz, eu sou brasileiro e tu sabes que os nossos jornais sãos empresas estrangeiras criadas com o intuito prático de explorar comercialmente o sentimento público, com discrição ou às escâncaras. Um jornal é um escritório de comissões... de idéias. Quando leio um estirado artigo tratando das glórias da pátria, invocando a alma da nação, com muita retórica e muita hipocrisia, tenho vontade de rir porque penso imediatamente nesses prestidigitadores que algaraviam para iludir o público enquanto preparam as sortes, enquanto fazem os passes. Qual imprensa brasileira, qual história! Meu amigo, Portugal está com o grito do Ipiranga atravessado na garganta, ele não nos perdoa a independência e, como não se pode assenhorear da terra, apodera-se do espírito do povo. A escravidão é muito pior. Agora não é o território que pertence à Lusitânia, é o povo que se sente oprimido pelo reinol, dono da imprensa, e por isso mesmo, senhor da opinião pública. Ele faz a política como faz o câmbio e, para que vejas o cúmulo, basta que eu te diga que há empresários que mandam contratar jornalistas em Portugal para virem dirigir a opinião brasileira. Vivemos sob a tutela de feitores. Aqui só há um jornal brasileiro: é a Gazeta da Tarde...
— Estás exagerando.
— Estou exagerando...? Mostra o exagero. Eu sei por que falo. Não, deixemme com a minha liberdade. Prefiro dormir debaixo da ramaria de uma árvore da minha terra a ouvir increpações de um sapateiro qualquer que, por haver enriquecido, na tripeça, entendeu fazer-se proprietário de folha. Deixem-me cá com as minhas idéias, podem parecer ridículas, mas são sinceras.
— Que diabo! Vocês estão hoje azedos.
— Eu não, disse Anselmo.
— Nem eu, ajuntou Fortúnio.
— Olha, o Anselmo vai dirigir um jornal e não consta que ele tenha nascido na outra banda.
— Sim, vai dirigir... Mas quais são os proprietários do jornal? Dois comissários de café, portugueses.
— Mas que ódio é esse a Portugal, homem de Deus?
— Perdão, eu não tenho ódio algum, estimo e admiro Portugal, mas como brasileiro não devo deixar sem protesto a intervenção do estrangeiro na vida nacional. Você não vê um francês intrometer-se conosco, nem um inglês, nem um alemão — é só o português.
— Mas há as afinidades de origem, a língua, os costumes.
— História, homem! É que quem foi senhor entende que há de sempre dominar, esta é a verdade.
— Estás bilioso.
— Não estou tal.
— Estás. Vamos sair. A tarde está linda.
— Não, eu despeço-me. Vou ver um patrício. Até amanhã.
— Não queres jantar comigo?
— Não.
— Olha que lá em casa só o vinho é português, mas excelente.
— Perdão, pensas que sou inimigo dos portugueses? Não há tal, já expliquei a minha opinião. Que farias tu se um hóspede começasse a dar leis em tua casa? — Quebrava-lhe a cara.
Riram-se todos e, sem mais explicações, apartaram-se.
CAPÍTULO XIX
Anselmo estava in albis e, como pretendia passar a noite trabalhando, porque tencionava dar começo a um romance para o rodapé do Diário Ilustrado, deteve-se na esquina da rua Uruguaiana farejando um jantar. Mas os jantares não passeiam na rua do Ouvidor e, certo disso, o futuro redator-chefe foi subindo vagarosamente, desacorçoado, quando, no largo de S. Francisco, ao dar com a estátua do patriarca, que o sol crepuscular polvilhava de ouro, teve uma inspiração feliz:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.