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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Por um acaso da distribuição acústica dos compartimentos da casa, ouvia-se bem, agradavelmente amaciado, o som do piano do salão. A amável senhora, para mandar-me da sua ausência alguma coisa ainda, que acariciasse, que me fosse agradável, traduzia no teclado com a mesma brandura sentida as musicas que sabia cantar. Nenhuma violência de execução. Sentimento, apenas, sentimento, sucessão melódica de sons profundos, destacados como o dobre, em novembro, dos bronzes; depois, uma enfiada brilhante de lágrimas, colhidas num lago de repouso, final, sereno, consolado... efeitos comoventes da música de Schopenhaeur; forma sem matéria, turba de espíritos aéreos.

A primeira vez que me levantei, trêmulo da fraqueza, Ema amparou-me até à janela. Dez horas. Havia ainda a frescura matinal na terra. Diante de nós o jardim virente, constelado de margaridas; depois, um muro de hera, bambus à direita; uma zona do capinzal fronteiro; depois, casas, torres, mais casas adiante, telhados ainda a distancia, a cidade. Tudo me parecia desconhecido, renovado. Curioso esplendor revestia aquele espetáculo. Era a primeira vez que me encantavam assim aquelas gradações de verde, o verde-negro, de faiança, luzente da hera, o verde flutuante mais claro dos bambus, o verde claríssimo do campo ao longe sobre o muro, em todo o fulgor da manhã. Tetos de casas, que novidade! que novidade o perfil de uma chaminé riscando o espaço! Ema entregava-se, como eu, ao prazer dos olhos. Sustinha-me em leve enlace; tocava-me com o quadril em descanso.

Absorvendo-me na contemplação da manhã, penetrado de ternura, inclinei a cabeça para o ombro de Ema, como um filho, entrecerrando os cílios, vendo o campo, os tetos vermelhos como coisas sonhadas em afastamento infinito, através de um tecido vibrante de luz e ouro.

Desde essa ocasião, fez-se-me desesperada necessidade a companhia da boa senhora. Não! eu não amara nunca assim a minha mãe. Ela andava agora em viagem por países remotos, como se não vivesse mais para mim. Eu não sentia a falta. Não pensava nela... Escureceu-me as recordações aquele olhar negro, belo, poderoso, como se perdem as linhas, as formas, os perfis, as tintas, de noite, no aniquilamento uniforme da sombra... Bem pouco, um resto desfeito de saudades para aquela inércia intensa, avassalando.

Apavorava-me apenas um susto, alarma eterno dos felizes, azedume insanável dos melhores dias: não fosse subitamente destruir-se a situação. A convalescença progredia; era um desgosto.

No pequeno aposento da enfermaria, encerrava-se o mundo para mim. O meu passado eram as lembranças do dia anterior, um especial afago de Ema, uma atitude sedutora que se me firmava na memória como um painel presente, as duas covinhas que eu beijava, que ela deixava dos cotovelos no colchão premido, ao partir, depois da última visita à noite, em que ficava como a esperar que eu dormisse, apoiando o rosto nas mãos, os braços na cama, impondo-me a letargia magnética do vasto olhar.

O meu futuro era o despertar precoce, a ansiada esperança da primeira visita. Saltava da cama, abria imprudentemente a vidraça, a veneziana. Ainda escuro. Uma luz em frente, longínqua, irradiava solitária, reforçando pelo contraste a obscuridade. Por toda a parte firmamento limpo. O mais completo silêncio. Dir-se-ia ouvir no silêncio azul das alturas a crepitação das estrelas ardendo.

Eu tornava ao leito. Esperava. Não dormia mais. Ao fim de muito tempo, entrava na enfermaria, vinha ter aos lençóis, de mansinho, como uma insinuação derramada de leite, a primeira manifestação da alvorada. O arvoredo movia-se fora com um bulício progressivo de folhagem que acorda. A luz meiga, receosa, desenvolvia-se docemente pelo soalho, pelas paredes.

Havia no aposento um grande cromo de paisagem, montanhas de neve no fundo, mais à vista, uma vivenda desmantelada, uma cachoeira de anil e pinheiros espectrais, trabalhados, encanecidos por um século de tormentas. A madrugada subia ao quadro, como se amanhecesse também na região dos pinheiros. Eu esperando. A madrugada progredia.

Toucava-se a vegetação de cores diurnas. Dialogava o primeiro trilar da passarada. Eu esperando ainda. E ela vinha... com a aurora.

Trouxe-me uma vez uma carta, de Paris, de meu pai.

“... Salvar o momento presente. A regra moral é a mesma da atividade Nada para amanhã, do que pode ser hoje; salvar o presente Nada mais preocupe. O futuro é corruptor, o passado é dissolvente, só a atualidade é forte. Saudade, uma covardia, apreensão outra covardia. O dia de amanhã transige; o passado entristece e a tristeza afrouxa.

Saudade, apreensão, esperança, vãos fantasmas, projeções inanes de miragem; vive apenas o instante atual e transitório. É salvá-lo! salvar o náufrago do tempo.

Quanto a linha de conduta: para diante. É a honesta lógica das ações.

Para diante, na linha do dever, é o mesmo que para cima. Em geral, a despesa de heroísmo é nenhuma. Pensa nisto. Para que a mentira prevaleça, é mister um sistema completo de mentiras harmônicas. Não mentir é simples.

(continua...)

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