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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Os ranchos, os blocos, os grupos e os cordões saem de suas furnas e vêm para o centro da cidade estertorar coisas infames a que chamam “marchas”. Os jornais estão a postos e até põem redatores de sobressalente, para registrar nomes dos diretores e outros dados importantes do bloco, do rancho, do grupo e do cordão que possam interessar os seus leitores. Um nome sair no jornal que é, em geral, coisa difícil, nesses dias é fácil.

Basta que o seja do “caboclo” do cordão Flor de Jurumbeba.

A versalhada é publicada; e que versalhada, santo Deus!

Pior que a dos loucos dos hospícios.

Vejam esta só:

ESTRELA DE OURO

Estrela, hô, minha estrela!

Estrela minha guia!

Azul, encarnado e amarelo

Que aqui na terra brilha.

Fresca estrela que brilha na terra e é azul, “encarnado” e “amarelo”!

O Aldo carnavalesco vai nos explicar a história. Ei-la:

Eu vi estas três cores

Num paraíso de flores

Por elas meu bem

Eu vivo tão cheio de amôres

Vem.. . Dolores.

Esta versalhada é de Niterói; e, se na minha cidade se canta isso em público, tudo leva crer que lá não há polícia de costumes. Só o final...

Mas outros carnavalescos entusiastas formaram um “bloco”, denominam-no do “Nó” e vêm mostrar aos jornais o seu saber poético. Logo na primeira estrofe do seu hino, que chamam “marcha”, denunciam que são candidatos ao primeiro prêmio de reclusão mental que em geral todos eles disputam. Leiam com cuidado esta belezinha:

Seu Fulgêncio coronel

Eis aí o Bloco do Nó

Sempre firme no papel

De trazer alegria e só

Mas a granel.

É longa a tal marcha, por isso a não transcrevo toda aqui. Quando acabei de lêla, tive vontade de correr à casa do autor dela e perguntar-lhe, como aquela leitura a que Mark Twain alude, no Como me fiz redator de um jornal de agricultura; tive vontade de correr à casa do autor da marcha, como ia dizendo, e perguntar-lhe uma, duas, três, quatro, dez, cem vezes: foi o senhor mesmo quem escreveu isto?

Não o faço, porém, porque temo que o sujeito fique indignado, imaginando que o tenho por plagiário e até me sove à vontade.

Julgo-o capaz disso, porque, além de carnavalesco, é do football também.

Enfim, a leitura dessa pasmosa literatura carnavalesca, só nos pode levar a uma conclusão; é que a mentalidade nacional enfraquece e o próprio gosto popular se oblitera, em querer perder a sua espontaneidade e simplicidade.

Seja tudo pelo amor de Deus!

Careta, Rio, 14-1-1922.

CARNAVAL E A ELEIÇÃO DO “BAMBÔ

Este ano houve singulares acontecimentos no calendário republicano que coincidiram extremamente com um acontecimento do calendário eclesiástico: o aniversário da promulgação da atual Constituição quase foi no sábado de carnaval e a este se seguiu a data marcada para a eleição do presidente desta nossa venturosa república, cuja única prova de existência tem sido aumentar impostos, enriquecer mais os ricos e empobrecer ainda mais os pobres. De forma que, pelos signos dos tempos, a Magna Carta, como se diz em artigo de fundo, é prefácio do carnaval; e o “bambã” é escolhido em quarta-feira de cinzas, dia de grande amolecimento de corpo, dores de cabeça, vômitos, etc.

O caso não tem nada que ver com o fundo dos fatos políticos que se vão passando, porque nem que ele não se desse a observação diz que é geral, mesmo quando não esteja no decreto republicano e nos cálculos dos astrônomos das festas móveis da

Igreja.

A Constituição, pela sua gravidade, pela sua austeridade, é a figura sisuda da honestidade burguesa com grandes palavrões de moralidade política e administrativa, com sábios constitucionalistas, tribunais, quase divinos, ao lado.

Depois, o que é, quando se trata de eleger num país de paz? Um “carnaval” com todos esses senhores austeros de tribunais e juizes, de constitucionalistas e jornalistas eminentes, pondo a máscara da Constituição abaixo e colocando aquela que lhes vai bem, de difamar, de infamar, de espionar e de falsificar.

Levam um tempo enorme representando o que não lhes é natural, para depois, durante a farra da campanha eleitoral, pôr nas faces as suas verdadeiras máscaras de almas sem sinceridade, sem pudor, que não trepidam em empregar os mais torpes processos de compressão, corrupção, ameaça, para arranjar um lugar de guarda de armazém, de embaixador ou de camareiro com o vencedor ou os seus prepostos.

Durante as momices eleitorais, trocam os tratos mais sórdidos, batalham-se com seringas de líquidos imundos, embriagam-se de injúrias: e as suas próprias mulheres, amantes, filhas e irmãs correm seminuas pelas reuniões públicas, com a pele mosqueada aos ombros, a gritar: “Evoé, Baco!

Que é que elas querem? Que os seus maridos, amantes, pais e irmãos arranjem alguma “coisa boa” com o que for eleito.

Chega a quarta-feira de cinzas, dia de eleição, lá vão os homens, e, bem cedo, as mulheres, para o “colégio”.

Vão contritos, compungidos, a pensar se aquele sacrifício todo de pudor, de honestidade e de dignidade valeu a pena.

Memento homo...

Sai o resultado; é uma decepção para muitos: o seu candidato foi completamente derrotado.

(continua...)

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