Por Coelho Neto (1890)
— Meus amigos, se não temos aqui a tríplice Hecate com as suas sacerdotisas truculentas, temos a ignorância que é um pouco pior. Comecemos a campanha, tenhamos a audácia de Orfeu, que o Ideal seja a nossa Eurídice. O artista é um iniciado, deve ter a coragem da sua crença e, se for preciso, façamos como o grande hierofanta que, de lira em punho, atravessou o campo dos trácios chegando corajosamente à presença temerosa de Aglaonice para dizer-lhe em face todas as verdades, embora lhe custasse a morte, como lhe custou, mas, sucumbindo, não deixou de ser a representação espiritual da primitiva Grécia.
Nós somos os precursores — alhanemos o caminho para os que vêm. Eu não descorçôo, tenho como certa a vitória. Que diabo! Pois então este povo há de viver eternamente chafurdado na ignorância? Não, senhores! Abram escolas, eduquem a infância, ponham a criança em contato com os heróis da pátria, apontem-lhe os episódios gloriosos da nossa história, dêem-lhe os poetas vernáculos e o homem do futuro não será francelho como esses que por aí andam algaraviando "Bonjour, comment ça va?" e dizendo disfarçadamente, apesar dos diplomas e dos anéis inúteis: "Me dê isso, me dê aquilo... quero que faça-lhe" e outras sandices idênticas. Nem vendedores há neste país...! Encontrei um negro apregoando A Vida Moderna com uma vozinha tão fraca, tão tênue, que o diabo parecia estar nas últimas. Dei-lhe tamanho safanão que ele foi parar no meio da rua e berrando como uma locomotiva. Energia! — é o que eu digo. Sem energia nada se faz.
Fortúnio, passando os dedos pela penugem do buço, sempre cético, disse displicente:
— Isto há de ser sempre o que é. O povo não tem tradições e, sobretudo, é a gente mais melancólica do mundo. Você vê um grupo de brasileiros é fúnebre, parece que estão sempre discutindo Um enterro.
— Ou segredando pornografia, acrescentou Ruy Vaz.
— Ou falando mal da vida alheia, ajuntou o Neiva.
— Nem tanto, corrigiu Patrocínio. Nem tanto. Há brasileiros de espírito.
— Ora, brasileiros de espírito... Quais são? Aponte-os!
— Nós, por exemplo...
— Ah! Sim... Mas nós não entramos em conta.
— Perdão, interveio o Moraes. Já vocês começam com as discussões fúteis, tratemos de coisas sérias.
O Neiva inclinou-se sobre a mesa:
— Eu tenho uma comunicação a fazer.
— Se é pilhéria.
— Não é pilhéria, homem.
— Que é? — perguntaram todos.
— Vocês, em tempos, pensaram em fundar um clube literário.
— Aí vem a mania.
— Perdão, não é mania; ouçam primeiro. Eu estou organizando as bases de uma sociedade artística e literária. Não temos um centro de reunião, não temos uma sala onde possamos conversar um minuto em intimidade. Vem um estrangeiro aqui, é uma vergonha: temos de recebê-lo em um botequim ou em um hotel, se há dinheiro. Somos tantos, reunamo-nos e, contribuindo cada um com uma quota mensal, podemos ter perfeitamente uma sala para discussão de teses, palestra, recepção de confrades, etc. Tenho em vista o primeiro andar de um prédio magnífico na rua do Hospício. Aluga-se aquilo, instalamo-nos e, à proporção que for entrando dinheiro, iremos dando expansão ao clube até que, com o tempo, possamos editar as obras dos sócios. Conto com uns vinte e tantos membros, tenho os nomes aqui na minha lista. Que dizem?
Patrocínio achou a idéia excelente e todos aplaudiram, ficando imediatamente convocada a primeira reunião para a quinta-feira próxima. O título "Grêmio de Letras e Artes" proposto pelo Neiva foi aceito sem discussão.
Patrocínio e o Neiva despediram-se: o primeiro tinha reunião na
Confederação Abolicionista, o segundo ia mandar arranjar a casa, encarregando o Teixeira de entender-se com o senhorio. Ruy Vaz pouco se demorou tendo um negócio com o Garnier. Ficaram os três: Fortúnio, Moraes e Anselmo.
Anselmo estava macambúzio, de cenho carregado, silencioso e, recaído sobre a bengala, que metera debaixo do braço, balançava a perna com desalento. Fortúnio atirava baforadas para o teto e o Moraes, preocupado, tamborilava no mármore da mesa.
— Que diabo! Vocês estão tristes, disse por fim o poeta da Tarântula. Que tens, Anselmo? Já brigaste com o Patrocínio, aposto! Anselmo resmungou. Homem, também não fazes outra coisa. Quantas vezes tens saído da Gazeta? Mais de vinte. O José já sabe — quando lhe apareces enfarruscado, anunciando que vais deixar a folha, ele pergunta logo quanto queres, e está a questão liquidada. Se precisavas de dinheiro por que não falaste enquanto ele aqui estava?
— Não se trata de dinheiro.
— Então que há?
— Divergência política, aventurou Fortúnio.
— Qual política! Bem me importa a mim a política. Aquele gerente da Gazeta julga-me, ao que parece, um menino de doze anos. Se lhe peço dinheiro vem sempre com cinco mil réis, dez, quando muito. Estou com os sapatos neste estado, já não têm sola, o casaco é uma nódoa, o chapéu é isto; não tenho meias, não tenho camisas, devo dois meses de casa. Que diabo! Assim não há talento, não há estilo, não há nada que resista.
— É o que eu digo, rosnou Fortúnio.
— Mas não te pagam? — perguntou Moraes.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.