Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

A porta da enfermaria descerrava-se devagarinho e na matinée de musselina elegante e frouxa aparecia a amável senhora. Vinha verificar se eu dormia, saber como passava agora.

Bastava a sua presença para reanimar-me no leito. Tão boa, tão boa no seu carinho de enfermeira, de mãe.

Junto da cama, um velador modesto e uma cadeira. Ema sentava-se. Pousava os cotovelos à beira do colchão, o olhar nos meus olhos — aquele olhar inolvidável, negro, profundo como um abismo, bordado pelas seduções todas da vertigem. Eu não podia resistir, fechava as pálpebras; sentia ainda na pálpebra com o hálito de velado a carícia daquela atenção.

Ao fim de algum tempo, a senhora, a ver se eu tinha febre, demorava-me a pequenina mão sobre a testa, finíssima, fresca, deliciosa como um diadema de felicidade.

Eu me perdia numa sonolência sem nome que jamais lograram produzir os mais suaves vapores do narcotismo oriental.

Com o regime fortificante desta terapêutica, voltava-me rapidamente a saúde. Logo depois da festa de educação física, que foi alguns dias depois da grande solenidade dos prêmios, eu adoecera. Sarampos, sem mais nem menos. Por motivo dos seus padecimentos, meu pai seguira para a Europa, levando a família. Eu ficara no Ateneu, confiado ao diretor, como a um correspondente.

Meia dúzia de rapazes eram meus companheiros. Que terrível soledade o Ateneu deserto. No pátio, o silêncio dormia ao sol, como um lagarto. Vagávamos, bocejando pelas salas desmontadas, despidas; as carteiras amontoadas num canto, na caliça os pregos somente das cartas com alguns quadros restantes de máximas, por maior insipidez, os mais teimosos conselhos morais. Nos dormitórios, as camas desfeitas mostravam o esqueleto de ferro pintado, o xadrez das chapas cruzadas. Principiava um serviço vasto de lavagem, envernizagem, caiação; vieram pintores reformar os aspectos do edifício que se renovavam todos os anos.

Os tristes reclusos das férias, ficávamos, no meio daquela restauração geral, como coisas antigas, do outro ano, com o deplorável inconveniente de se não poder caiar de novo e pintar.

Nesta situação, como do excesso de brilho das paredes em sol, que debatiam fulgores na melancolia morna de circunvizinhança dos morros, começaram a doer-me os olhos até à lágrima, forrou-me a língua um sabor desagradável de castanhas cruas. Seria isso o gosto do aborrecimento? Pesava-me a cabeça, o corpo todo, como se eu me cobrisse de chumbo.

Assim passei alguns dias, sem me queixar. Certa manhã, descubro no corpo um formigueiro de pintinhas rubras. Aristarco fez-me recolher na enfermaria, um prolongamento de sua residência para os lados da natação. Veio o médico, o mesmo do Franco; não me matou. D. Ema foi para mim o verdadeiro socorro. Sabia tanto zelar, animar, acariciar, que a própria agonia aos cuidados do seu trato fora uma ressurreição.

A enfermaria era um simples lance da casa, espécie de pavilhão lateral, com entrada independente pela chácara e comunicando por dentro com as outras peças.

A senhora não deixava a enfermaria. Vigiava-me o sono, as crises de delírio, como uma irmã de caridade.

Aristarco surgia às vezes solenemente, sem demorar. Ângela nunca. Fora-lhe proibida a entrada

Junto da cama, D. Ema comovia-se, mirando a prostração pálida, ao reabrir os olhos de um desses períodos de sono dos enfermos, que tão bem fingem de morte. Tirava-me a mão, prendia nas dela tempo esquecido; luzia-lhe no olhar um brilho de pranto. A alimentação da dieta era ela quem trazia, quem servia. Às vezes por gracejo carinhoso queria levar-me ela mesma o alimento à boca, a colherinha de sagu, que primeiro provava com um adorável amuo de beijo. Se precisava andar no aposento para mudar um frasco, entreabrir a janela, caminhava como uma sombra por um chão de paina.

Eu me sentia pequeno deliciosamente naquele circulo de conchego como em um ninho.

Quando entrei em convalescença, a graciosa enfermeira tornou-se alegre. Às escondidas do médico, embriagava-me, com aquela medicina de risos, gargarejo inimitável de pérolas a todo pretexto. Tagarelava, agitava-se como um pássaro preso. Cantava, às vezes, para adormecer-me, músicas desconhecidas, tão finamente, tão sutilmente, que os sons morriam-lhe quase nos lábios, brandos como o adejo brando da borboleta que expira. Quando me julgava adormecido, arranjava-me ao ombro a colcha, alisando-a sobre o corpo; uma vez beijou-me na têmpora. E retirava-se, insensivelmente, evaporava-se.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7677787980...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →