Por Lima Barreto (1911)
Tocamos no Recife, na Bahia, e, afinal, chegamos ao Rio de Janeiro. Aqui, positivamente é que começam as minhas aventuras, mas eu lhes quis fornecer algumas notas anteriores a elas, para que meus leitores me julguem melhor e sintam bem o motivo ou os motivos que me levaram a abandonar os propósitos do trabalho honesto e lançar-me com decisão na vida de expedientes e de planos.
Não era essa a minha tenção, mas o sentimento que se me apossou da injustiça da vida, da fraqueza das bases em que se alicerça a sociedade e o espetáculo da comédia que é a administração do Brasil, levaram-me a procurar viver de modo menos afanoso e com emprego de menos esforço.
Chegamos afinal ao Rio e, após as visitas regulamentares, já começavam a desembarcar os passageiros de todas as classes, quando um empregado de bordo veio chamar-me. Prontamente fui e achei-me em presença de um homem agaloado. Ele me perguntou:
— Como se chama?
O intérprete que estava a seu lado, traduziu para uma língua que ele julgava ser russo, mas que eu sem a entender bem, senti que era lituano. Respondi então em francês, que não entendia. O intérprete — um tipo alto, muito magro, com uma pequena barbicha alourada — zangou-se e gritou em português:
— Mas, você não é russo, como é que não compreende russo?
Respondi, ainda em francês, que não entendia e o intérprete quis ainda empregar o seu lituano. Eu continuava no meu francês e parecíamos querer não sair disso, quando um dos circunstantes que falava francês, prestou-se a auxiliar o policial marítimo que me interrogava. Respondi desse feita que me chamava:
— Gregory Petrovich Bogoloff
O homem da polícia marítima pediu-me que eu escrevesse o nome num papel que me apresentou. Esteve olhando um instante o papel com as letras e, por fim, indagou de repente:
— Qual é a sua profissão?
O intérprete traduziu em francês e eu o atendi:
— Sou professor.
O homem pareceu não se conformar, olhou-me muito e disse à queimaroupa:
— Você não é “cáften”?
Logo percebi o sentido da palavra, fiquei indignado, mas me contive e por minha vez indaguei:
— Por quê?
O homem da polícia explicou muito ingenuamente:
— Estes nomes em “itch”, em “off”, em “sky”, quase todos são de “cáftens”. Não falha!
Disse-lhe então que não era, nem nunca tinha sido, mas o homem não acreditou nas minhas palavras, e insistiu:
— Se não é “cáften”, é anarquista.
Ainda protestei, ainda desfiz-me em explicações, mas o sujeito teimava na singular idéia:
— Esses nomes em “itch”, em “off”, em “sky”, polacos e russos, quando não são de “cáftens”, são de anarquistas.
Eu tive um grande espanto com tão curiosas generalizações da polícia do Brasil e, como me parecia que o homem não me queria deixar desembarcar, apelei para os meus documentos. Trouxe os meus papéis: o passaporte, a carta do agente de imigração, e a minha de bacharel em línguas orientais.
O homem do lituano esteve a olhá-las e o intérprete oficioso também. O policial tomou por sua conta a carta da Universidade de Kazan. Esteve a examiná-la com respeito que merecia um pergaminho, e perguntou:
— Que língua é esta em que está escrita?
Adivinhando-lhe a pergunta, acudi logo:
— Latim.
Foi preciso que o intérprete oficioso dissesse porque ele não entendeu bem o meu — latin — francês e fiquei admirado que um funcionário neolatino não conhecesse nem uma palavra da língua de que se originara a sua. O policial continuava com as suas desconfianças e ainda objetou:
— É uma língua estrangeira. Devia estar traduzida para a nossa, por um tradutor público juramentado.
Quando soube da sua objeção, quase me desmanchei numa gargalhada.
Onde é que este homem ia encontrar um tradutor público juramentado para o latim? pensei eu.
O homem esteve a olhar-me durante alguns minutos; considerou-me bem a fisionomia, a roupa e ainda fez:
— Então o senhor não é “cáften” nem anarquista?
Tendo conhecimento de sua pergunta pelo intérprete, protestei que não, e creio que ele ficou certo da sinceridade das minhas palavras, pois me deixou desembarcar.
Fui para a Hospedaria dos Imigrantes, e dentro de uma semana estava colocado num núcleo colonial de um Estado do Sul.
Eu tinha os melhores propósitos de trabalho honesto e logo me pus a trabalhar com afinco. Deram-me ferramentas, sementes e um lote de terras duras e compactas.
Comecei a derrubar o mato, construi antes uma palhoça e, aos poucos, ergui uma casa de madeira, feita ao jeito das “isbas” russas.
A colônia era ocupada por famílias russas e polacas e, enquanto os meus trabalhos de instalação não se acabaram, não travei relações com ninguém.
Ao fim de dois meses, tinha já onde dormir sem temer os temporais; mas, as minhas mãos estavam em mísero estado, se bem que o meu corpo tivesse ganhado mais saúde e mais força.
Aos administradores da colônia via pouco e evitava mesmo vê-los, porque eram arrogantes e intratáveis; mas travei relações com o intérprete que muito me orientou na vida brasileira.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.