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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Cabeças apareciam longe e gente saía gotejante, gente entrava a correr e todo o mar fervilhava de banhistas. Ao longo da praia e no terraço do Passeio apinhavam-se curiosos. Um bote negro, remado lentamente, bordejava. Tresandava a maresia. De repente Anselmo gritou:

— Olha, Fortúnio! Era o sol, o grande, o magnífico, o esbraseado sol americano que subia. O céu estava encandecido, era de ouro líquido, e, quando o disco do astro, imenso e translúcido, fulgindo como uma patena polida que girasse vertiginosamente, apareceu acima dos montes longínquos de Niterói, houve uma chuva mirífica e dourada, todas as eminências foram polvilhadas, o espaço e as águas ficaram como Dane na hora amorosa do lentejo do ouro; mesmo para o fundo a serra, acidentada de Teresópolis que, de tão azul, quase se confundia com o céu, teve a áurea bruma da manhã triunfal. E o sol subia, a luz alastrava. A água voluptuosa tornou-se mais lânguida. Gaivotas cruzavam-se contentes e o Pão de Açúcar e os fortes ficaram sobre um mar de ouro.

A luz chegou às árvores do Passeio e as folhas, galvanizadas, rebrilharam, o mesmo bote fúnebre, negro, que ia e vinha com a lentidão de um esquife, teve a sua orla de luz e refletiu-se na água espelhenta e mansa.

Os que se banhavam pareciam incrustados na superfície serena e rútila das águas vastas e longe, enorme e escuro, fumegando, com uma bandeira trêmula solta às brisas, um paquete saía sereno, sem oscilação, fechado, em direitura à barra por onde vinha entrando, rebocado, um brigue, de velas ferradas, os mastros secos, vagaroso e pesado.

A alegria do céu comunicou-se aos que nadavam e gritos alegres vinham do mar, e sempre a sair gente ansiosa para a onda: velhos, senhoras, crianças. Uma menina aleijada desceu ao colo de um banhista, esperneando, aos gritos, e, diante desse rumor de vida, nessa azáfama jucunda, Fortúnio, com os olhos no paquete, suspirou:

— Ah! Pudesse eu ir ali!

— Ora qual! Deixa-te disso, homem! Olha para aquele sol, admira aquela beleza e dize se é possível que Deus estrague tão formosa auréola numa terra destinada à miséria e ao abandono. Uma pátria que tem este sol há de ser grande por força. Viva a nossa terra, deixa lá, homem! A nossa manhã há de vir, descansa. E os dois, extasiados, ficaram a olhar o astro deslumbrante que remontava majestosamente.

CAPÍTULO XVIII

O primeiro número de A Vida Moderna, apesar das esperanças de Luiz Moraes, não conseguiu abalar a alma do povo. O poeta contava com um êxito ruidoso porque os jornais, anunciando o aparecimento da publicação, haviam mencionado, como garantia do seu valor literário, os nomes laureados dos redatores, mas debalde os garotos rouquejavam apregoando o hebdomadário, debalde faziam ver a gravura terrífica da primeira página, o povo passava indiferente, discutindo valentia de potros de raça, discursos altiloqüentes de deputados ou escândalos, sem dar ouvidos à atroada dos pequenos que iam e vinham, com os jornais, desanimados.

À tarde desapareceu da circulação a notável revista, sendo substituída pela Gazeta de extração mais fácil. Moraes, cofiando os espessos bigodes, desceu a rua do Ouvidor, contando não encontrar um só número da folha na qual havia dado prodigamente todos os sonoros versos de um poemeto e achou um negro triste, à esquina da rua dos Ouvires, já em voz, quase derreado, murmurando, com desfalecido esforço: "A Vida Moderna..." Assomou-se e, sacudindo o tíbio pregoeiro pelos ombros, disse-lhe furente:

— Grita, homem! Berra! Estás aí com uma voz de recém-nascido que ninguém ouve! Não comes? O negro abriu muito os olhos, e balbuciou surpreso: Que ninguém queria...

— Qual ninguém quer! Estás mais morto do que vivo. Grita! Com tal intimação o negro resolveu fazer um escarcéu atroador e, escancelando a boca, soltou tamanho berro que o próprio poeta, atordoado, apressou o andar para não ensurdecer.

Encontraram-se todos na Maison Rouge: Ruy Vaz, Fortúnio, Anselmo, Patrocínio. E Moraes recebeu os aplausos entusiásticos pela sua vitória, principalmente depois que recitou o poemeto estampado na revista. Patrocínio, com os olhos em alvo, confessou que nunca ouvira versos de tal quilate: "Era a imaginação de Hugo trabalhada pelo cinzel de Leconte." E, no fundo lôbrego da casa, que era o cenáculo da boêmia, o poeta da Tarântula declarou solenemente, como um áugure que, dentro em pouco, o Brasil, analfabeto e ignaro, seria um país de grandes luzes porque as liras, vibradas como a de Orfeu na Trácia agreste, haviam de agitar as almas, conclamando-as para a vida intelectual.

(continua...)

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