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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Música estranha, na hora cálida. Devia ser Gottschalk. Aquele esforço agonizante dos sons, lentos, pungidos, angústia deliciosa de extremo gozo em que pode ficar a vida porque fora uma conclusão triunfal. Notas graves, uma, uma; pausas de silêncio e treva em que o instrumento sucumbe e logo um dia claro de renascença, que ilumina o mundo como o momento fantástico do relâmpago, que a escuridão novamente abate...

Há reminiscências sonoras que ficam perpetuas, como um eco do passado.

Recorda-me, às vezes, o piano, ressurge-me aquela data.

Do fundo repouso caído de convalescente, serenidade extenuada em que nos deixa a febre, infantilizados no enfraquecimento como a recomeçar a vida, inermes contra a sensação por um requinte mórbido da sensibilidade — eu aspirava a música como a embriaguez dulcíssima de um perfume funesto; a música envolvia-me num contágio de vibração, como se houvesse nervos no ar. As notas distantes cresciam-me n’alma em ressonância enorme de cisterna; eu sofria, como das palpitações fortes do coração quando o sentimento exacerba-se — a sensualidade dissolvente dos sons.

Lasso, sobre os lençóis, em conforto ideal de túmulo, que a vontade morrera, eu deixava martirizar-me o encanto. A imaginação de asas crescidas, fugia solta.

E reconhecia visões antigas, no teto da enfermaria, no papel das paredes rosa desmaiado, cor própria, enferma e palejante... Aquele rosto branco, cabelos de ondina, abertos ao meio, desatados, negríssimos, desatados para os ombros, a adorada dos sete anos que me tivera uma estrofe, paródia de um almanaque, valha a verdade, e que lhe fora entregue, sangrento escárnio! pelo próprio noivo; outra igualmente clara, a pequenina, a morta, que eu prezara tanto, cuja existência fora no mundo como o revoar das roupas que os sonhos levam, como a frase fugitiva de um hino de anjos que o azul embebe... Outras lembranças confusas, precipitadas, mutações macias, incansáveis de nuvens, enlevando com a tonteira da elevação; lisas escapadas por um plano oblíquo de vôo, oscilação de prodigioso aeróstato, serena, em plena atmosfera...

Panoramas completos, uma partida, abraços, lágrimas, o steamer preto, sobre a água esmeralda, inquieta e sem fundo, a gradezinha de cordas brancas cercando a popa, os salva-vidas como grandes colares achatados, cabos que se perdiam para cima, correntes que se dissolviam na espessura vítrea do mar; a câmara dourada, baixa, sufocante, o torvelinho dos que se acomodam para ficar, dos que se apressam para descer aos escaleres...

Uma janela. Embaixo, o coradouro, espaçoso; para diante mangueiras arredondando a copa sombria na tela nítida do céu; além das mangueiras, conglobações de cúmulos crescendo a olhos vistos, floresta colossal de prata; de outro lado, montanhas arborizadas, expondo num ponto e noutro, saliências peitorais de ferrugem como armaduras velhas. No coradouro estendidas, peças de roupa, iriadas de sabão, meias compridas de ourela vermelha, desenroladas na relva, saudosas da perna ausente, grandes lençóis, vestidos rugosos de molhados; acima do coradouro, cordas, às cordas camisas transparentes, decotadas, rendadas, sem manga, lacrimejando espaçadamente a lavagem como se suassem ao sol a transpiração de muitas fadigas; saias brancas que dançavam na brisa a lembrança coreográfica da soirée mais recente.

Quando o vento era mais forte, enfunava as roupas estendidas, inflando ventres de mulher nas saias, nas camisas. Ângela aparecia. Sempre no seu raio de sol, como as fadas no raio de lua. Saudava-me à janela com uma das exclamações vivas de menino surpreso. Sem paletó, às mãos, empilhados, dois montes de roupa enxaguada. Ajudava a lavadeira para distrair-se. Falava olhando para cima, afrontando o dia sem cobrir os olhos.

Estava aborrecida, uma preguiça! uma preguiça! uma vontade de deitar no colo! começava as infinitas histórias, narradas devagar, como derretidas no lábio quente, muito repisadas, de quando era pequena, aventuras da imigração, as casas onde trabalhara; contava as origens do drama do outro ano... tratara de acomodar os dois para ver se as coisas chegavam a bom termo; a desgraça não quis. Agora, para falar a verdade, gostava mais do que morreu. O assassino era muito mau, exigia coisas dela como se fosse uma escrava; era bruto, bruto. Mas era de Espanha, companheiros de viagem, e um homem bonito! sacudido, eu bem tinha conhecido; mas judiava dela; batia, empurrava: olhe, ainda tinha sinais, e levantava candidamente o vestido para mostrar, no joelho, na coxa, cicatrizes, manchas antigas que eu não via absolutamente, nem ela.

Cessava a música...

As venezianas abertas davam entrada à claridade do tempo. Entrava simultaneamente um burburinho imperceptível de árvores, falando longe, gorjeios ciciados de pássaros, gritos humanos indistintamente, atenuados pela imensa distancia, marteladas miúdas de canteiro, tremor de carros nas ruas, miniatura extrema de trovão, parcelas ínfimas da vida pulverizadas na luz...

(continua...)

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