Por Coelho Neto (1890)
Todas as casas fechadas, apenas um botequim, com uma luz triste e baça como de vigília, tinha as portas abertas e um negro, de calças arregaçadas, despejava baldes de água pelo soalho, enquanto um caixeiro sonolento ia empilhando cadeiras sobre as mesinhas de mármore.
Uma carroça pesada, rangendo, passou vagarosamente tirada por um touro robusto, cheia de capim que se levantava nos ângulos em pontas e, sobre os molhos, deitado, ia um homem cantando. Os dois seguiam calados, embebidos em pensamentos diversos, quando ouviram uma alegre cantilena, à maneira singela do campo nortista.
— Ai! Ai! — suspirou Fortúnio. Quem me dera a minha terra!
— Ora! A tua terra...! Por que vieste?
— Sei lá!
— Vieste atraído pela vida. Que diabo querias fazer em Maceió? Nós temos muita saudade da terra em que nascemos, por chic: a prova é que nenhum de nós pensa em tornar aos penates natais. A vida é aqui, meu amigo. Também eu tenho saudade do meu sertão, mas que poderia eu fazer se lá vivesse? Estava em plena natureza, nos campos gordos, vendo o gado e vendo as culturas, trabalhando como um campônio. A esta hora, junto do alpendre da casa, o cavalo de sela escarvando a terra e eu, com uma malga de café no bucho, o rebenque enfiado no punho, pronto para partir a galope, pelos campos, ouvindo o mugir dos touros, aspirando o aroma das silvas e ao sol violento idas e vindas do algodoal à malhada, da malhada ao algodoal, até à hora da tarde, para recolher-me estafado à minha rede e procriar bestamente como os rebanhos, como a terra, dando filhos com a mesma regularidade com que o algodoeiro dá o algodão, o arroz dá a sua espiga e a ovelha põe em terra o anho. É hediondo! Aqui não.
— Ora, aqui não! E que diabo fazemos nós aqui?
— Trabalhamos.
— Morremos de fome e de fadiga porque nem cama temos.
— Mas havemos de ter.
— Na Santa Casa de Misericórdia.
— Qual Santa Casa! Então não esperas vencer?
— Eu, não. Que público temos nós? Pensas que se prepara um povo em dez ou vinte anos? Qual! Havemos de viver sempre como vivemos. Quando vierem os cabelos brancos, se a morte não tomar a frente ao tempo, aquela estrela que lá está no céu há de ver-nos como agora nos vê: caminhando sem destino e rimando sonhos.
— Não há de ser tanto assim.
— O Brasil nem daqui a cem anos compreenderá a obra de Arte.
— Ora!
— Ora?! Queres fazer uma aposta?
— Para daqui a cem anos? Não. Espero não viver tanto.
— Dizem que a população do Brasil é de treze milhões.
— Mais ou menos.
— Pois bem: doze milhões e oitocentos mil não sabem ler. Dos duzentos mil restantes, cento e cinqüenta lêem apenas jornais, cinqüenta lêem livros franceses, trinta lêem traduções, quinze mil lêem a cartilha e livros espíritas, dois mil estudam Augusto Comte e mil procuram livros brasileiros.
— E os estrangeiros?
— Não lêem livros nacionais.
— Ora, não lêem.
— Não lêem! Isto é um país perdido.
Chegaram ao Largo da Carioca. Em torno de um quiosque iluminado homens apinhavam-se e discutiam alegremente chuchurreando café. Uma negra, sentada nos degraus do chafariz, apregoava, em voz lamentosa, prolongando muito as palavras: "Miiingau de ta... pioca... tá... quentinho, freguês." Homens dormiam estirados na pedra, de papo para o ar. Dois cães corriam polo largo perseguindo-se. Longe, em tons finos, vibrantes, uma corneta soava.
O dia raiava. Uma luz tênue vinha caindo do céu largo e puro e, como se um véu se fosse afastando da terra, descobrindo as casas e as montanhas, tudo ia aparecendo indistintamente, vagamente a princípio.
Chilros vibravam no ar. Passavam, chalrando, os banhistas que se dirigiam à praia, aos casais, famílias completas, com cestas, os olhos ainda empapuçados de sono. Os bondes desciam cheios, transbordavam no largo; subiam quase vazios.
Na esquina da rua de S. José um pequeno, ajoelhado na calçada diante de uma pilha de jornais, dobrava folhas, às pressas, amontoando-as, e a casa da Ordem, alta, enorme, como uma imensa e formidável muralha, tinha ainda uma luz, a claridade passava por entre as frinchas da persiana de uma das janelas: alguém que morria, talvez.
E no alto, muito branco, como um castelo antigo no seu rochedo, o mosteiro dormia.
Seguiram e, quando chegaram ao Boqueirão o céu, ao longe, estriado sangüineamente, estava cor de bronze. Na praia branca, o mar liso, metálico, rutilava.
Uma multidão chapinhava na areia úmida que guardava a pegada funda até que a onda, subindo preguiçosamente, a desmanchava. Havia barracas de lona como brancas pirâmides, mas a maioria dos que mergulhavam vinha já pronta nas roupas de flanela dos estabelecimentos balneários.
As senhoras, sorrindo, esfregando as mãos, iam timidamente para o mar que mandava à praia as suas ondas como para buscá-las, curvavam-se, tomavam nos dedos um pouco de água, como se se benzessem naquela imensa pia verde e, friorentas, dando-se as mãos, entravam, aos saltinhos, quando a onda rolava cheia, espumosa, desdobrando-se na praia com suave marulho.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.