Por Raul Pompéia (1888)
Depois de uma parte de concerto, que foi como descanso reparador, seguiu-se a oferta do basto. Teve a palavra o Professor Venâncio.
Aristarco, na grande mesa, sofreu o segundo abalo de terror daquela solenidade. Fez um esforço, preparou-se. É preciso às vezes tanta bravura para arrostar o encômio face a face, como as agressões. A própria vaidade acovarda-se. Venâncio ia falar: coragem! A oscilação do turíbulo pode fazer enjôo. Ele receava uma coisa que talvez seja a enxaqueca dos deuses: tonturas do muito incenso. Gostava do elogio, imensamente. Mas o Venâncio. era demais. E ali, diante daquele mundo! Não importa! Viva o heroísmo.
Era conveniente postar-se em atitude severa bastante e olímpica, para corresponder à glorificação de Venâncio. Pronto.
O orador acumulou paciente todos os epítetos de engrandecimento, desde o raro metal da sinceridade até o cobre dútil, cantante das adulações. Fundiu a mistura numa fogueira de calorosas ênfases, e sobre a massa bateu como um ciclope, longamente, até acentuar a imagem monumental do diretor.
Aristarco depois do primeiro receio esquecia-se na delícia de uma metamorfose. Venâncio era o seu escultor.
A estátua não era mais uma aspiração: batiam-na ali. Ele sentia metalizar-se a carne à medida que o Venâncio. falava. Compreendia inversamente o prazer de transmutação da matéria bruta que a alma artística penetra e anima: congelava-lhe os membros uma frialdade de ferro; à epiderme, nas mãos, na face, via, adivinhava reflexos desconhecidos de polimento. Consolidavam-se as dobras das roupas em modelagem resistente e fixa. Sentia-se estranhamente maciço por dentro, como se houvera bebido gesso.
Parava-lhe o sangue nas artérias comprimidas. Perdia a sensação da roupa; empedernia-se, mineralizava-se todo. Não era um ser humano: era um corpo inorgânico, rochedo inerte, bloco metálico, escória de fundição, forma de bronze, vivendo a vida exterior das esculturas, sem consciência, sem individualidade, morto sobre a cadeira, oh, glória! mas feito estátua.
“Coroemo-lo!” bradou de súbito Venâncio.
Neste momento, o Clímaco estrategicamente postado, puxou com força um cordão. Da capa verde dilacerada, emergiu a surpresa: o busto da oferta. Um pouco de sol rasteiro, passando a lona, vinha de encomenda estilhaçar-se contra o metal novo.
— Coroemo-lo! repetia Venâncio. num vendaval de aclamações. E sacando da tribuna esplêndida coroa de louros, que ninguém vira, colocou-a sobre a figura.
Aristarco caiu em si. Referia-se ao basto toda a oração encomiástica de Venâncio. Nada para ele das belas apóstrofes! Teve ciúmes. O gozo da metamorfose fora uma alucinação. O aclamado, o endeusado era o busto: ele continuava a ser o pobre Aristarco, mortal, de carne e osso. O próprio Venâncio. o fiel Venâncio. abandonava-o. E por causa daquilo, daquela coisa mesquinha sobre a peanha, aquele pedaço de Aristarco, que nem ao menos era gente!
Mal acabou de falar o professor, viu-se Aristarco levantar-se, atravessar freneticamente o espaço atapetado, arrancar a coroa de louros ao busto.
Louvaram todos a magnanimidade da modéstia.
Mas o dia acabou insípido para o diretor. Ruminava confusamente a tristeza daquela rivalidade nova — o bronze invencível.
Por que não usam os grandes homens, em vez de poltronas, pedestais?
Que vale a estátua, se não somos nós? A adoção do pedestal nas mobílias teria ao menos a vantagem de facilitar a provação da glória, de vez em quando, da glória efetiva, glória atual, glória prática.
Tinha-se ali a um canto a coluna. Era vir a necessidade, nada mais fácil:
galgava-se a elevação, ensaiava-se a postura, esperava-se imóvel que cedesse o espasmo. Mas... não! força era aceitar a verdade amarga.
O monumento prescinde do herói, não o conhece, demite-o por substituição, sopeia-o, anula-o.
Com os diabos! Por que há de ser isto afinal a imortalidade: um pedaço de mármore sobre um defunto?!
À noitinha retiravam-se os convidados, as famílias multidão confusa de alegrias e despeitos. As mães acariciando muito o filho sem prêmio, os pais odiando o diretor, olhando como vencidos para os que passavam satisfeitos, os outros pais, os colegas do filho, menos enfatuados da própria vitória que da humilhação alheia.
Humilde, a um canto, à beira da corrente dos que iam, pouco além da entrada do anfiteatro, mostraram-me uma família de luto — a família do Franco. O desembargador, de chapéu na mão, esquecendo de cobrir-se: homem baixo, fisionomia acabrunhada, longas barbas grisalhas, calvo, olhos miúdos, pálpebras em bolsa.
Tinha vindo de Mato Grosso um ano mais tarde do que pretendia. O correspondente dera a noticia.
Andava agora mostrando à família o Rio de Janeiro. Viera a festa colegial, ao colégio do filho, para distrair a filha, a raptada, que ali estava com a mãe e duas irmãs menores, muito pálida, delgada, num idiotismo sombrio, insanável de melancolia e mudez, pestanas caídas, olhar na terra, como quem pensa encontrar alguma coisa.
CAPÍTULO XII
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.