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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

— Não, absolutamente não. Primeiro porque é preciso que haja um campo prático à mão do Estado para os nossos engenheiros navais e, segundo, que ele pode prestar serviços, desde que tenha a emulação do trabalho particular.

— Se Vossa Excelência, disse eu, indo ao encontro dos seus desejos, se Vossa Excelência me quisesse fornecer algumas notas, eu poderia dar uma notícia bem interessante...

E Sua Excelência, com a sua voz quase providencial, auxiliado pela memória do vice-almirante-inspetor, começou a ditar-me as notas, para que todo o Brasil tivesse notícia da sua capacidade de administrador, e de um dos resultados mais fecundos da sua fecunda administração.

Ofereceu-me um havano e, logo que o inspetor saiu, começamos a conversar sobre os encantos da nova chanteuse que se estreara no Moulin-Rouge.

Assim fazia a minha reportagem no Ministério da Marinha. Desde os ministros até aos contínuos, todos me enchiam de mimos e de festas. Era raro o oficial que não me pedia uma notícia, um elogio, um gabo ao relatório da sua última comissão. Os chefes viviam abraçados comigo e forneciam-me notas para o meu noticiário. Assombrava-me que a morgue militar de toda aquela gente fosse desfeita assim naturalmente em presença de um repórter É verdade que já vira muitos, de mar e terra, subirem à redação e insinuarem alusões elogiosas; mas supunha exceções e agora verificava ser geral a inclinação.

Quando se apresentavam, reclamavam a omissão da notícia...

Nos meus primeiros meses de reportagem foi quando amei mais ativamente a vida. Não porque me visse adulado pelos almirantes e capitães-de-mar-e-guerra, mas porque senti bem a variedade onímoda da existência, a fraqueza dos grandes, a instabilidade das coisas e o seu fácil deslizar para os extremos mais opostos. Dois meses antes era simples continuo, limpava mesas, ia a recados de todos; agora, poderosas autoridades queriam as minhas relações e a minha boa vontade.

E toda essa modificação tão imprevista no meu viver, viera-me do suicídio do Floc. Tendo surpreendido na casa da Rosalina, em plena orgia, o terrível diretor, vexei-o. Nos primeiros dias, ele nada me falou; mas já me olhava mais, considerava-me, preocupava-o no seu pensamento. Breve me fez perguntas de boa amizade: donde era eu, que idade tinha, se era casado, etc. As respostas eram dadas conforme as perguntas; bem cedo, porém, graças à bondade com que me tratava, as ampliei até à confidência.

Percebi que o espantava muito o dizer-lhe que tivera mãe, que nascera num ambiente familiar e que me educara. Isso, para ele, era extraordinário. O que me parecia extraordinário nas minhas aventuras, ele achava natural; mas ter eu mãe que me ensinasse a comer com o garfo, isso era excepcional. Só atinei com esse seu intimo pensamento mais tarde. Para ele, como para toda a gente mais ou menos letrada do Brasil, os homens e as mulheres do meu nascimento são todos iguais, mais iguais ainda que os cães de suas chácaras. Os homens são uns malandros, pianistas, parlapatões quando aprendem alguma coisa, fósforos dos politicões; as mulheres (a noção aí é mais simples) são naturalmente fêmeas.

A indolência mental leva-os a isso e assim também pensava o doutor Loberant. Não tive grande trabalho em o fazer modificar o juízo na parte que me tocava. Mas não me dei por satisfeito. Percebi que me viam como exceção; e, tendo sentido que a minha instrução era mais sólida e mais cuidada do que a da maioria deles, apesar de todos os seus diplomas e títulos, fiquei animado, como ainda estou, a contradizer tão malignas e infames opiniões, seja em que terreno for, com obras sentidas e pensadas, que imagino ter força para realizá-las, não pelo talento, que julgo não ser muito grande em mim, mas pela sinceridade da minha revolta que vem bem do Amor e não do Ódio, como podem supor.

Cinco capítulos da minha Clara estão na gaveta; o livro há de sair...

Penso, agora, dessa maneira; mas, durante o resto do tempo em que estive no O Globo, quase me conformei, tanto mais que o interesse que o diretor mostrou por mim não foi platônico.

Certo dia o gerente, espantado e cobiçoso, notificou-me que eu ia servir na expedição e o meu ordenado estava aumentado de cinqüenta mil réis.

Duas semanas depois, ao encontrar-me na escada, Loberant disse-me:

— Caminha, você é capaz de tomar notas numa repartição e redigi-las?

Não esperava essa proposta. Fiquei deslumbrado: ser repórter como o Oliveira!... Oh! Era assombroso!... Respondi, porém, modestamente:

— Pode ser, doutor. Experimente; se for bem, o senhor me dirá...

— Pois então vais fazer “Marinha e Alfândega”.

(continua...)

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