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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

— Olha, vamos fazer uma coisa. Eu vou agora para casa, digo a mamãe que tu, a companheira de Mamede, te ofereceste para fazer-lhe companhia. Ela aceita, estou certa, porque a rapariga que nos servia ficou maluca e temos de despedi-la; eu venho buscar-te ou tu vais, à noite, e, depois de lá estares, o mais arranja-se.

Ela ouvia, escabichando as unhas.

— Mas então eu vou como criada?

— Não, filha; vais como pessoa de amizade, fazer um favor. Amanhã mesmo eu tomo uma criada e ficas como dona da casa, porque mamãe está de cama e creio que, infelizmente, não se levanta mais.

— Está assim?

— Perdida!

— De quê!

— Coração.

Houve um silêncio. Paulo fitava-a, acariciando-lhe a mão.

— A questão é sair daqui.

— Por causa dos trastes?

— Os trastes são dele; mas a minha roupa, o que é meu. O senhorio, com certeza, não me deixa tirar. Mamede está devendo tanto!

— Isso é simples: vais ao senhorio, dizes que retiras apenas o que é teu, dás-lhe algum dinheiro, se ele exigir.

— Era bom que eu tivesse!...

— Tenho eu. Quanto queres?

— Sei lá!

— Chegam cem mil-réis?

— Acho que sim. — Pois toma.

Deu-lhe o dinheiro escolhendo vagarosamente no maço, entre as notas grandes, duas de cinqüenta.

— E agora é tratar de arrumar as coisas e sair. Já devias ter feito isto. Mamede é um bom rapaz, mas não te serve. Levantou-se.

— Bem, vou para casa; deixei mamãe só. E olha que fico à tua espera. Vê lá. Não vás fazer alguma.

Ela respondeu, sem levantar os olhos:

— Já disse que vou.

— A que horas?

— À noitinha.

— Pois bem. Então até logo. E se precisas de mais alguma coisa...? — Não.

Frente a frente encararam-se; ela sorriu e, num movimento repentino, atiroulhe os braços ao pescoço, ofereceu-lhe a boca, cerrando as olhos lânguidos.

Entrando em casa, Paulo foi direito ao quarto da mãe, bateu de leve na vidraça da porta.

— Quem é?

— Eu, mamãe. — Entra.

O ar morno, denso, cheirava a alfazema. A lamparina ardia tristemente diante das imagens. Ele sentou-se à beira da cama:

— Então? Como vai?

— Assim...

— Pus a anúncio. Felícia não veio cá?

— Andou aí pela sala mexendo, resmungando.

— E a senhora comeu alguma coisa?

— Não tenho fome.

— Mas precisa comer.

Depois duma pausa anunciou:

— A companheira de Mamede vem ficar aqui, com a senhora.

— Quem é?

— A rapariga que vive com ele.

— Não quero. — Por quê?

— Não quero.

— Mas se a lembrança partiu dele! Encontrei-o na rua, disse-lhe como a senhora está, falei de Felícia e ele imediatamente ofereceu a sua companheira para vir ficar aqui uns dias. Vamos que eu não arranje uma criada, quem há de cuidar da senhora, tratar da casa? Eu não posso, não havemos de pedir aos vizinhos. Felícia está como a senhora vê. Aceitei o oferecimento e a moça ficou de vir à noitinha. E agora que hei de eu dizer?

— Que tipo é?

— É uma pardinha. Vive com ele como se fosse casada. A senhora há de gostar dela.

— E cômodo? Onde vai dormir essa moça? Tem o quarto de Violante, mas cama, o mais?

— Eu cedo-lhe o meu quarto, é por dias. Armo a rede no quarto de Violante e está pronto. O que eu não quero é que a senhora fique aqui assim, com uma doida que nem para lhe trazer um copo d'água serve. Tudo se há de arranjar. Hoje, por exemplo, a senhora não imagina como andei na cidade, com um ror de coisas a fazer. Deixei tudo e vim para casa, a correr, com medo.

— Medo de quê?

— De quê? de Felícia. Assim, estando aqui uma pessoa de confiança, não me incomodo.

— E conheces bem essa moça?

— Conheço.

— E séria?

— Então, mamãe!

— Sim, porque eu quero respeito aqui em casa. Lá fora, tudo quanto quiseres; aqui não.

Paulo não achou uma palavra para responder, ficou como atordoado, olhando a enferma que continuava em resmungo, defendendo a seu lar como se houvesse adivinhado a intenção do filho.

— Bem sabes como sou. Se é uma pessoa honesta, muito bem; mas troças aqui, isso não!

— Que troças, mamãe. Então eu havia de meter em casa uma vagabunda?

— Não sei... Conheço Mamede: bom rapaz, bom rapaz, mas lá fora. Vem a mulher, amanhã é ele que se mete aqui. Não quero. Prefiro morrer sozinha. Deus me acompanhará.

— Ele não vem.

— Pois sim, faze lá o que quiseres, contanto que haja respeito aqui.

E ele, procurando desviar a palestra do assunto escabroso, perguntou:

— E Felícia? posso despedi-la?

— Sim, mas não a maltrates, tem pena dela. Enquanto teve juízo foi muita boa para todos nós, agora, coitada...! — Descanse, mamãe.

Foi à cozinha. A negra não estava, procurou-a no quarto, chamando-a. Saiu ao quintal, lá a encontrou acocorada, cavando a terra. Chamou-a. A negra voltou-se de ímpeto e fitou nele as olhos que ardiam.

— Felícia, nós vamos sair. Mamãe está mal, precisa mudar de ares. Vamos para longe, não podemos levar-te. Tens aqui o teu dinheiro. Arranja o que é teu e procura casa onde fiques. Quando voltarmos irei buscar-te.

(continua...)

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