Por Coelho Neto (1890)
"Meu caro Furtado. A pilhéria de um mês tem hoje o seu remate. Assiduamente, quer jorrassem aguaceiros, quer a inclemência da canícula entrasse atrevida e indebitamente pelas horas da lua fria, muitas vezes enfermo, todas as noites eu aqui estava, de chapéu na mão, recolhendo os cupons que o generoso público, com raríssimas e indignas exceções, me entregava. Reuni dois mil e tantos, não sei bem o número porque a paciência foi curta para tamanha soma, e sou agora o possuidor do adereço que foi pelos peritos avaliado em oitocentos mil réis. Não o quero para mim: não tenho colo para colares, nem punhos para pulseiras e, se me quisessem furar a orelha para ornamentá-la com pingentes, eu bradaria pela polícia. Enquanto nos divertimos há os solitários que não tiveram o afago maternal, há os anônimos do berço que não conhecem os prazeres do mundo e vivem, como penitentes, guardados pela caridade, no limbo que se chama o orfanato. A jóia que conquistei, a rir, destino-a à órfã que mais se distinguir pela virtude e pela aplicação até ao fim do corrente ano. Que o prazer de muitos, proporcionado pelo teu talento, meu velho Furtado, concorra para a alegria de uma criança infeliz. E tu mesmo Podes encarregar-te de dar o devido destino ao prêmio que conquistei com o suor do meu rosto e com muita zumbaia e algumas descomposturas. Tenho dito."
Furtado Coelho, comovido, estreitou o boêmio ao peito e todo o povo, de pé, saudou com uma prolongada salva de palmas, tão generoso quão inesperado procedimento. Fora, porém, quando o abraçaram, o Neiva irrompeu:
— Eu conheço a cabilda em que vivo! Estava tudo de orelha em pé e rosnava-se que eu, mal recebesse a jóia, correria direitinho para o Leitão ou para o Cahen. Estão enganados! — bramiu com a bengala erguida. Eu não seria capaz de perder as trinta noites de um mês ouvindo declamações enfáticas, humilhando-me diante da imbecilidade para pagar-me uma ceia. Fiz esse grande sacrifício à estética e ao meu orgulho para dar uma lição a esta horda. Pensava que eu ia beber, não é? Pois sim... Garçom, um grogue a crédito. E sentou-se a uma das mesas, esbravejando, furioso, assomado, a brandir a bengala. Anselmo apartou-se do grupo e, chegando ao fundo, junto ao balcão, deu de face com Fortúnio, sempre triste, mordendo os lábios. Duas grossas lágrimas rolavam-lhe pela face morena.
— Ai! Ai!
— Que é isso! Pois ainda estás assim?
— Como queres que eu esteja firme se sou tão desgraçado! — e desatou a chorar. Só então Anselmo percebeu que a dor abalava tanto o poeta que ele mal se podia ter de pé.
— Ó Fortúnio, tu não estás firme.
— Como queres que eu esteja firme se perdi o esteio do coração!
— Só o conde de Matozinhos poderá salvar-te, dando-te uma passagem para o Norte.
— É verdade... Ai! Ai!
Mas terminara o espetáculo, o povo saía atropeladamente e Anselmo convidou o poeta:
— Vamos, anda daí. Onde estás morando?
— Não sei, não me perguntes. Não sei nada. Sou um desgraçado!
— Mas onde dormes?
— Eu não durmo: meu coração está tão agitado que me não deixa dormir.
Valha-me Deus! Uma menina que se criou comigo, tão falsa!
— Deixa, homem; não te preocupes: há um Deus no céu...
— Qual Deus...! O que há é um grande patife em Maceió, mas palavra de honra! — eu ainda parto-lhe a cara. Ele casa, casa porque, enfim, já estão correndo os proclamas, mas o casamento há de custar-lhe caro.
Saíram. Anselmo queria, à viva força, levar o poeta para o Ravot; ele, porém, resistia:
— Não, tem paciência, preciso de ar; se entro num quarto de hotel sufoco. Ah! Como eu compreendo o Otelo...! E não haver um Shakespeare para mim!... Vou tomar uma canja, depois atiro-me por essas ruas até cair estafado. Quero que ela saiba que morri nas ruas, como um cão! Há de ter remorsos, e, no dia do casamento, quando estiver nos braços daquele grandíssimo sem-vergonha, há de ver-me lívido, abrindo o cortinado para dizer-lhe quatro coisas bem duras e com uma voz...!
Entraram na Maison. O poeta, apesar do sofrimento moral, engoliu, com apetite, uma canja, um espesso churrasco, dois ovos quentes, uma talhada de queijo, vinho, café e conhaque; depois convidou Anselmo para uma partida de bilhar que se prolongou até às quatro da manhã. Foram os últimos a sair da casa, e na rua, ao luar, Anselmo, que sentia os olhos ardidos, propôs de novo que fossem para o Ravot.
— Qual! Eu agora hei de ver o sol: vou para o Boqueirão. Vou confiar as minhas mágoas ao mar. Quero que as brisas levem um dos meus suspiros àquela ingrata.
— Enfim, já agora... É quase dia. Pois vamos!
No grande silêncio soavam fortes os passos lentos dos dois. Ao longe os combustores apagavam-se como se a treva viesse devorando, uma a uma, todas aquelas gotas de ouro. Turmas de italianos desciam a caminho do mercado com os cestos pendentes dós paus e oscilando como duas conchas de balanças; alguns cantavam, outros riam ao ar fresco da manhã nascente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.