Por Raul Pompéia (1888)
Podia concluir voltando à vaca-fria do louvor em boca própria; preferiu uma simples bomba qualquer de retórica, porque o mestrículo Venâncio ia também falar, e, na qualidade de pajem por dedicação, disputava-lhe sempre uma ponta para carregar do manto de glórias.
Seguiram-se algumas peças da banda do Ateneu e os hinos escolares.
Na parte concertante diziam que Aristarco mandara encartar um solo de zabumba para exibir o genro. Caçoadas.
A premiação foi, como devia ser, exuberante. Aristarco leu um relatório do movimento literário nos dois últimos anos. Lembrou o nome dos alunos de medalhas de ouro e prata, desde a fundação da casa, e convidou o secretário a evocar, por ordem de merecimento, os novos premiados. Extensa lista. A cada nome descia um aluno, branco de emoção, atrapalhando os passos; e transpunha a arena.
À esquerda do trono estava uma longa mesa, a que sentavam-se o Exmo. ministro do império e vários figurões da Instrução Pública.
Diante deles, a cavaleiro, encobrindo-os, erguia-se uma pirâmide verde de coroas de carvalho, papel e arame, e outra de coroas de ouro, idem, idem. Ouro para os de medalha; carvalho para o resto, em quantidade.
No estrado, a pouca distancia, ramas de livros luxuosamente encadernados. O premiado recebia três, dois, um daqueles volumes, a medalha, a menção honrosa, um sermãozinho amável do ministro, e saia com tudo, zonzo.
Em caminho, pelas costas, à traição, um inspetor enfiava-lhe um dos diademas de papel; até os olhos, quando era grande demais; e pior ainda quando era pequeno, porque o mísero laureado tinha de o agüentar em equilíbrio até à bancada.
O público batia palmas, talvez ao prêmio, talvez à sorte.
Ribas, o Mata Corcundinha, Nearco, o Saulo das distinções e mais outro, alcançaram medalha de ouro. Rômulo, Malheiro, Clímaco Sanches, Maurílio, Barreto, mais uns quinze, medalha de prata. Eu, o Egbert, o Cruz da doutrina, o açafroado Barbalho, o Almeidinha, o Negrão e numerosíssimos outros, a singela menção honrosa. Aos não contemplados, ficava a compensação de desfazer raso na justiça distribuída.
Na massa dos convidados, diversas centenas de representantes da boa sociedade, havia pessoas verdadeiramente notáveis: titulares de sólida grandeza, argentários de mais sólidos títulos, vultos políticos de bela estampa e tradições sonoras, uns exibindo à fronte as neves pensativas do hibernal senado, outros a energia moça da câmara temporária, médicos celebrizados por façanhas cirúrgicas, ou simplesmente pela vivissecção recíproca de mazelas em pleno logradouro público dos “a pedidos”.
Havia jornalistas, literatos, pintores, compositores; entre as senhoras, acumuladas principalmente nas bancadas especiais, distinguiam-se perfis soberbos de rainha em toda a eflorescência da formosura, que a claridade branda do lugar vaporizava idealmente; havia ostentações de pedraria e vestuários que impressionavam; havia juventudes de lábios e de olhar enervantes ou arrebatadores, morenas, forçando magicamente o torpor da sesta sensual sob a carícia opressora de um pequenino pé vitorioso, louras convidando a um enlace de transporte a nuvem, mais alto! ao retiro etéreo onde vivem amor as estrelas duplas... Nada disso era o grande atrativo, nada conseguia altear-se para nós um palmo na perspectiva geral da multidão; o nosso grande cuidado era o poeta, “o poeta!” murmurava o colégio, uns à procura, outros indicando. Era aquele de pé, mão ao quadril, vistosamente, no palanque do professorado, entornando para as duas bandas, sobre as pessoas mais próximas, uma profusão assombrosa de suíças.
Dentre as suíças, como um gorjeio do bosque, saia um belo nariz alexandrino de dois hemistíquios, artisticamente longo, disfarçando o cavalete da cesura, tal qual os da última moda no Parnaso. À raiz do poético apêndice brilhavam dois olhos vivíssimos, redondos, de coruja, como os de Minerva. Tão vivos ao fundo das órbitas cavas, que bem se percebia ali como deve brilhar o fundo na fisionomia da estrofe. O grande Dr. Ícaro de Nascimento! Vinha ao Ateneu exclusivamente para declamar uma poesia famosa, que havia algum tempo era o sucesso obrigado das festas escolares do Rio: O Mestre. Logo depois dos prêmios, teve a palavra.
Durante meia hora houve uma coisa estranha: uma convulsão angustiosa de barbas no espaço. Crescente. Desapareceu o poeta, desapareceu o palanque, encheu-se o anfiteatro, foi-se o trono com a Alteza Regente, a longa mesa com Aristarco e o Exmo. do império, enovelaram-se as arquibancadas, desapareceu tudo numa expansão incalculável de suíças, jubileu de queixos. Ninguém mais se via, nada mais, no caos tormentoso de pêlos, onde uma voz passava atroadora, carga tremenda de esquadrões pela noite espessa, calcando versos como patadas, esmagando, rompendo avante.
Até que tornamos a ver o nariz. Acalmaram pouco a pouco as barbas.
Recolheram-se como uma inundação que se retira. Estava acabada a poesia. Ninguém percebeu palavra do berreiro, porém a impressão foi formidável.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.