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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Penetrei com tristeza naquela casa famosa entre os rapazes ricos da cidade, pelas suas orgias e pelas mulheres que a habitavam. Ali moravam as cantoras de cafés-concertos, húngaras, espanholas, francesas, inglesas, turcas, cubanas; ali moravam também as Laís da cidade, as devoradoras de patrimônios e dos grandes desfalques. Subi a grande escada do palácio e tomei por um corredor. Dos quartos, vinha um ruído abafado do ranger de camas, um cicio de beijos, mas o Pecado pairava nela com o seu silêncio constrangido no recato que simulava ter.

Ao fundo do corredor, quase ao tomar uma pequena escada para o segundo andar, dei com uma velha prostituta em camisa, polaca pelo sotaque, de seios moles e quase sem pintura; àquela hora, a sua velhice surgia hedionda, e escaveirada, com um hálito de túmulo. Assustou-se. O porteiro sossegou-a. Subimos eu e ela. Quando nos sentiu só, ela lixou-me com a sua pele, encostando-se muito a mim, passando o seu braço sobre os meus ombros. Já no corredor, sob a luz de um bico de gás meio aberto, considerou bem a minha fisionomia, a minha mocidade, a falta de mulher que ela farejou logo; pegou-me carinhosamente o rosto com as duas mãos e quis beijar-me...

E ela tinha razão. Sempre foi do meu temperamento fugir daquilo que a Bíblia denomina tão rigorosamente para os nossos ouvidos modernos, pois não podia compreender que homens de gosto, de coração e inteligência, vivessem escravizados ao que S. Paulo, na I Epístola aos Coríntios, classificou tão duramente, para aconselhar o casamento.

Além de desejar que existisse entre mim e a mulher alguma coisa de mais delicado, de mais espiritual, uma comunhão que não se tem com a primeira vinda, tinha em mim não sei que pensamento evangélico a proibir-me de proceder como todos, pois, fazendo-o, concorria para manter uma desgraça e fazer desgraçadas.

Recordo-me muito bem que, certa vez, não sei que tontura me deu, que me deixei arrastar pelos sentidos.

A entrada foi fácil; mas, depois, acanhei-me, a ponto de ter delicadezas, escrúpulos, certamente de noivo.

Quando pus o pé na rua, as orelhas ardiam, as faces queimavam-me e parecia que os transeuntes apontavam-me como um irremissível pecador. Tive a visão do inferno... Foi naquele tempo... Adiante.

Larguei a megera com medo da sua velhice e corri à sala onde estava o doutor Loberant. Estava semi-aberta. Aproximei-me da porta. A um canto havia um piano; ao centro uma mesa cheia de garrafas e copos. Pelos divãs, fumando, três pares; as mulheres em camisa e os homens também, mas mais descompostos. Em torno da mesa, uma mulher cavalgava uma espécie de tapir ou de anta. Era Aires d'Ávila, cujas peles do vasto ventre caiam como úbere de vaca. A mulher montava-o com o garbo de uma écuyère e ele rodava em torno da mesa como se fosse um animal de circo. Os ditos choviam, mas não os pude ouvir. Uma das mulheres deu comigo e perguntou, sem espanto, com sotaque estrangeiro:

— Que é que você quer?

Loberant voltou-se e conheceu-me logo:

— Que há Isaías?

— “Seu” Floc matou-se na redação.

Aires d'Ávila voltou à humanidade e, em plena orgia, por entre aqueles homens e aquelas mulheres despreocupadas, passou a augusta sombra da Morte, misteriosa e severa...  

XIV

No gabinete do ministro, estavam poucas pessoas. Em frente, em uma mesa nova, o secretário, um capitão de fragata, pálido e alto, com um lindo cavaignac, Napoleão III, que lhe dava um ar de veterano de 70, apesar dos seus cinqüenta anos. Pela janela, descortinava-se uma nesga da baia e da cidade. Era a ilha Fiscal com o seu edifício alicerçado nas ondas; a Boa Viagem cismática e lá, num fundo de infinito, de ilimitado, as muralhas altas de Santa Cruz. Um grande navio entrava lentamente... Embaixo, havia o brouhaha das carroças; juras de cocheiros, estalidos de chicote e o rolar pesado dos caminhões. A Alfândega ficava perto.

Além do secretário, no gabinete, sentado ao lado direito do ministro, estava também o vice-almirante inspetor das construções navais; do lado esquerdo, eu.

O ministro vestia dólmã branco e a sua grande cabeça autoritária e cheia de uns belos cabelos brancos ia de mim para o inspetor, falando sempre e explicando as questões dos consertos:

— Com estas providências, o Governo fez uma economia de perto de seiscentos contos. Você sabe: a indústria oficial é muito cara. O “República” (está aqui o orçamento) tinha os consertos avaliados em quatrocentos e oitenta contos — não era, almirante?

— Quatrocentos e oitenta e sete, respondeu o inspetor.

— Quatrocentos e oitenta e sete contos, repetiu o ministro. Sabe você por quanto ficou nas oficinas das "Forjas"?

— ?

— Trezentos e noventa e sete. Só aí houve uma economia de noventa contos. Agora imagine com o “Sete de Setembro”, a “Parnaíba”, três torpedeiros, rebocadores... Enfim: seiscentos contos de economia.

— Mas Vossa Excelência acha desnecessário o Arsenal de Marinha?

(continua...)

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