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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

— Que foi que eu fiz, sinhá? Que foi que eu fiz? Eu não estou quieta no meu serviço? Por que é que vão mexer comigo? Eu não faço mal a ninguém... Coitada de mim!

— Mas ninguém mexeu contigo. Tu é que andas a fazer criançadas, não tens pena de mim que sou tão tua amiga.

— Então eu não quero bem a vosmecê?

— Não parece.

— Eu já abandonei vosmecê?

— Não; mas agora não pareces a mesma Felícia.

— É, vosmecê fala assim... Quem ouvir há de pensar que eu sou exigente, que peço mundos e fundos. Que é que eu peço? Porque falo com meu filho? Então não sou mãe?

Levantou-se de salto, escancarou a porta do quarto, mostrou a cozinha:

— Ele vai para lá, fica comigo, eu converso com ele. Que é que tem? faz mal? Vosmecê não fica até tarde esperando nhonhô? Nhá Violante não esteve ontem aqui? Então eu não vejo? Eu estou calada, estou quieta, mas vejo tudo. Vosmecê é mãe, eu também sou. A dor que vosmecê sentiu eu também senti. O leite é da mesma cor: por ser preta não sinto menos, sinhá.

Ficou a encará-la, com uma expressão dolorosa no rosto escaveirada; e concluiu:

— Mãe é uma só. Eu vou fazer o meu serviço, mas não bulam comigo que eu não bulo com ninguém.

Deu alguns passos e retrocedeu:

— Vosmecê olhe e há de ver; eu vou para o meu serviço, daqui a pouco a cozinha está cheia. Não me deixam fazer nada. Vosmecê fique olhando.

E, arrepanhando as molambos, foi-se. Depois dum silêncio Dona Júlia murmurou:

— É tudo, meu Deus! Uma rapariga tão boa...! Eu é que sou a infeliz. Chego, às vezes, a pensar que espalho desgraças. É o meu caiporismo. Até parece coisa feita. Enfim, há de ser o que Deus quiser.

Vendo o filho encostado à cômoda, pensativo, disse-lhe:

— Vai, tens que fazer. Não te prendas por minha causa.

— E a senhora?

— Não te incomodes comigo.

Ele ainda hesitou. Ela insistiu:

— Vai.

— Então eu vou, porque tenho mesmo que fazer e volto cedo.

— Pois sim. Fecha a porta e leva a chave.

— E se vier alguém?

— Quem vem aqui?

— Quer alguma coisa lá de baixo?

— Não.

— Então até já.

Sentia necessidade de ar, de movimento. A casa, cada vez mais triste, sempre a ecoar esconjuros e lamentações da louca, tornava-se-lhe insuportável. A mãe, por outro lado, a suspirar, a chorar no quarto alumiado dia e noite pela lamparina devota. Vestiu-se e saiu, fechando a porta e levando a chave.

Ia à aventura, sem destino. Foi caminhando vagarosamente, preocupado com o estado da velha.

"Achava-a mal... e só, com a louca... Enfim, como contava voltar cedo... Onde poderia encontrar uma criada?" Seguia pensando, sem dar pelo caminho. De repente lembrou-se de Ritinha. Súbito calor aqueceu-lhe o sangue reavivando desejos. Se fosse vê-la? Talvez que ela lhe pudesse inculcar alguém, conhecia tantas raparigas. Era uma idéia. Estugou o passo e no Largo da Lapa tomou um tílburi, mandando tocar para a estalagem.

Ao chegar à casinha de Mamede ficou surpreendido vendo a porta e a janela fechadas e já se decidia a voltar, quando, da cerca da casa contígua, uma mulheraça, em mangas de camisa, com grandes peitos derramados sobre o ventre cheio, disse-lhe chuchando os dentes:

— Bata. Tem gente.

Ele agradeceu, atravessou o jardinete e bateu à porta. Falaram dentro, ele reconheceu a voz da mulata.

— Sou eu, Paulo.

— Responderam? perguntou a mulher. — Sim, senhora. Obrigado.

A parta entreabriu-se e Ritinha, reconhecendo-o, não teve sequer um sorriso. Ele entrou e, na meia escuridão da sala, exclamou espantado:

— Que é isto? Tudo fechado. Por quê?

Ela deu d'ombros, amuada.

— Que é dele?

— Quem?

— Mamede.

— Sei lá!

Sentou-se aborrecida.

— Houve alguma coisa entre vocês?

— Sei lá!

— Brigas, ciumadas; aposto.

— Ciumadas. Eu é que vou procurar a minha vida. Estou farta de aturar grosserias e de passar vergonhas. Quem não pode com o tempo não inventa modas. Aquilo é lá homem?! Não se importa com a casa — se tem dinheiro é pro jogo, se não tem, mete-se aqui bebendo, resmungando desaforos e eu que me vire em comida. O senhorio não sai aí da porta e, volta e meia, são cobradores batendo, com atrevimento. E ele? Há três dias que não aparece. Estão dizendo que foi preso numa casa de jogo. Não sei.

— E você agora?

— Eu vou por aí. De fome é que não hei de morrer.

Depois dum silêncio Paulo aproximou a sua cadeira e, tomando a mão da mulata, voltou à proposta antiga.

— Bem podias estar livre de tudo isto. Não queres...

— O quê?

— Sair comigo.

Ela baixou a cabeça, calada.

— Não queres viver em cômodos. Pois vem morar comigo.

— Com o senhor? Que é isso?! E sua mãe?

— Que tem? Mamãe é uma criatura excelente, estou certa de que te hás de dar muito bem com ela. Só depende de ti.

— Mas então sua mãe vai recebendo assim uma pessoa que não conhece? que nunca viu?

— Que tem isso? Eu saí mesma para procurar alguém que a acompanhe. Ela está de cama, muito mal. Tu aqui trabalhas como uma moura, para quê? Vais lá para casa, eu tomo uma criada, só tens que dirigir o serviço.

— Mas... para viver com o senhor?

— Então?

A mulata ficou pensativa. Ele insistiu:

— Decide.

— Não sei. Isso assim de repente... Sei lá!

Ele acentuou:

(continua...)

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