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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Sinto não ter asas. Ah! Se eu pudesse ir a Maceió amanhã, bem cedo. Que escândalo...! Primeiro ia ter com ela, e atirava-lhe em rosto as suas palavras hipócritas, dizia-lhe horrores, humilhava-a, depois então ia ajustar contas com o patife. Dava-lhe tal tunda, Anselmo, tal tunda! Que ele nunca mais se havia de lembrar de pedir moças comprometidas. Mas não tenho asas, nem vintém. Juntou as mãos e, com os olhos altos, suspirou: Mas Deus é grande!

— E que pretendes fazer?

— Vou andar, andar por aí até não poder mais.

— Queres que te acompanhe?

— Não, vou só. Preciso estar só com minha alma. Adeus! És feliz: não amas. Ai!

Levantou-se, acendeu um cigarro e encaminhou-se para a porta. Lá estava o Neiva, num grupo, rugindo, e, mal avistou os rapazes, levantou a bengala:

— Hoje, no Lucinda, a postos!

Eu não vou, disse Fortúnio.

— Por quê? Estás incomodado? — perguntou o Neiva com interesse e meiguice.

— Sou um desgraçado! — e foi-se lentamente rua abaixo, fumando.

— Que tem ele? — perguntou o Neiva a Anselmo.

— Paixão.

— Ah! Também dá para isso? Está arranjado. Logo, porém, mudando de tom: À noite, no Lucinda. Conto contigo.

— É hoje a entrega da jóia?

— Sim, é hoje. E não tenho concorrente. Ah! Todas as noites eu lá estava pedindo a um e a outro. Dei excelência a muito sevandija, mas tenho dois mil e tantos cupons. Não faltes. — Não falto.

Tratava-se da entrega de um adereço, avaliado em oitocentos mil réis, ao freqüentador do teatro que mais cupons de entrada apresentasse. O Neiva, desde a primeira noite, mal jantava, corria para o Lucinda e, postando-se junto à tábua de anúncio, pedia a todos os espectadores que entravam o cupão que o porteiro havia destacado. Aos conhecidos dizia intimamente: "Dá cá o bilhete para a minha coleção." Aos desconhecidos dirigia-se com cortesia senhoril, de chapéu na mão: "Boa noite cavalheiro... Se V. Exa. não faz grande empenho em guardar esse papelucho ceda-mo." "Pois não..." diziam quase todos, muitos porque ignoravam a utilidade do destacado, outros porque não contavam com a prometida jóia. Raros resmungavam, negando. O Neiva, então, empertigava-se e fulminava o avaro com uma sátira.

Dias antes da contagem dos cupons já era certa a vitória do Neiva, "único campeão que se apresentara para disputar o adereço".

O teatro regurgitava quando Anselmo entrou. Estava toda a "boêmia" a postos. De um lado e de outro da platéia, nas alas da feira que ali fora exposta em barracas onde havia a jóia, o brinquedo, a perfumaria, o charuto, a seda, verdadeiros mostradores que anunciavam grandes casas das ruas comerciais do Rio, o povo apertava-se com um zunzum incessante.

Noite quente, de luar. No jardim, a palmeira solitária tinha a folhagem triste prateada e, em torno do seu tronco enfezado, sob as estrelas vivas, ao ar tépido, bebia-se avidamente, com algazarra. As cocottes batiam com os leques nas mesas de ferro, tiniam copos, estouravam rolhas e da platéia apinhada vinha um hausto quente de fornalha.

A uma das mesas o grupo, unido para aquela prova suprema da tenacidade do companheiro, bebia. Mas o pano subiu. O espetáculo correu sem interesse, porque todos esperavam o momento da "jóia".

Foi no intervalo do segundo para o terceiro ato que Furtado Coelho, em cena aberta, anunciou que ia fazer entrega do adereço a quem maior número de cupons apresentasse. Houve um silêncio largo e, de repente, o Neiva saiu dentre os bastidores sobraçando um grosso embrulho. Desatou o barbante que o apertava e, estendendo a mão com solenidade, disse:

— Eis aqui o fruto das minhas economias. Depois, voltando-se para a platéia, acrescentou: Creio que não há concorrentes?! Houve uma estrepitosa gargalhada e o artista, tomando o escrínio, abriu-o para que fosse vista a jóia e, abraçando o boêmio, fez a entrega prometida. Nova gargalhada irrompeu. O Neiva, porém, muito grave, dirigiu-se a Furtado Coelho e, logo às primeiras palavras que pronunciou, todo o público entrou a agitar-se, surpreso.

(continua...)

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