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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Ao redor de Aristarco, ajudantes-de-ordens, apressavam-se os membros de uma comissão de recepção, composta de professores de bela presença, e alunos em condições semelhantes. Realizavam com o diretor um cerimonial interessante de hospitalidade. Na entrada do anfiteatro comprimia-se a multidão, dos convidados. Aristarco e os ajudantes espiavam, farejavam, descobriam os pais, as famílias dos de mais elevada posição social, que pescavam para o ingresso preterindo os mais próximos. Os escolhidos eram levados para as arquibancadas de cadeiras. Se encontravam nos lugares especiais quem para li não houvessem conduzido, convidavam delicadamente a levantar-se; que a família do Visconde de Três Estrelas não podia ir para as tábuas nuas. Este rigor de etiqueta fazia suar a comissão, embaraçada na massa da concorrência. Aristarco aproveitava também para desforrar-se dos pagadores morosos da escrituração. Afinal deu na vista a pescaria dos seletos. Houve murmúrios, estremecimento de surda revolta; os convites eram todos iguais! e a pretexto de haver crescido a multidão, foram-se muitos esgueirando sem mais ver diretor nem comissionados de cortesia.

O anfiteatro encheu-se tumultuariamente.

A Princesa Sereníssima, com o augusto esposo, chegou pontual às duas horas, acedendo ao convite que recebera primeiro que ninguém.

As duas e três minutos, subia à tribuna Aristarco. Não preciso dizer que a caranguejola sofrera mais uma das grandes comoções da malfadada existência. Ali estava, paciente e quadrada, no exercício efetivo de porta-retórica. Ficava à direita do sólio da princesa e diante do Orfeão.

Aristarco inclinou-se ligeiramente para a Graciosa Senhora. Passeou um olhar sobre o anfiteatro. Não pôde dizer palavra. Pela primeira vez na vida sentiu-se mal diante de um auditório. A massa de ouvintes apertava-se curiosa na linha das bancadas, em curva de ferradura. A cor preta das casacas e paletós generalizava-se no espaço como uma escuridão desnorteadora; amedrontava-o o semicírculo negro, enorme. A impressão simultânea do público impedia-lhe reconhecer uma fisionomia amiga que o animasse. Mas urgia improvisar alguma coisa antes da eloquência rabiscada que trazia em tiras de papel... Quando o olhar foi ter a um objeto que o chamou à consciência de si mesmo. Diante da tribuna erigia-se uma peanha de madeira lustrosa; sobre a peanha uma forma indeterminada, misteriosamente envolta numa capa de lã verde. A surpresa! Era ele, que ali estava encapado na expectativa da oportunidade; ele bronze impertérrito, sua efígie, seu estimulo, seu exemplo: mais ele ate do que ele próprio, a tremer; porque bronze era a verdade do seu caráter, que um momento absurdo de fraqueza desfigurava e subtraía. Lembrou-se de que o vasto barracão, as alças de flores, o vigamento, a belbutina, a arquitetura dos palanques, os galões alfinetados, todas as sanefas de paninho, o olhar dos discípulos, a presença da população, o busto na capa verde, tudo era o seu triunfo por seu triunfo, e o embaraço desvaneceu-se. A inspiração ferveu-lhe de engulho à goela, vibrou-lhe elétrica na língua, e ele falou. Falou como nunca, esqueceu o calhamaço sobressalente que trouxera, improvisou como Demóstenes, inundou a arena, os degraus do trono, as ordens todas da arquibancada até à oitava, com o mais espantoso chorrilho de facúndia que se tem feito correr na terra.

O assunto conjetura-se. Agradecimentos, o elogio de seus penares de apóstolo. Abria a casaca e mostrava. Debaixo das comendas tinha as cicatrizes. As setas que lhe varavam a alma não se podiam ver bem por causa do colete. Avaliava-se pela descrição: devia ser horrível. Depois dos sofrimentos, os serviços.

O educador é como a música do futuro, que se conhece em um dia para se compreender no outro: a posteridade é que havia de julgar. Quanto ao seu passado, nem falemos! não olhava para trás por modéstia, para não virar monumento, como a mulher de Ló. Com o Ateneu estava satisfeito: uma sementeira razoável; não se fazia rogar para florescer. Corações de terra roxa, onde as lições do bem pegavam vivo. Era cair a semente e a virtude instantânea espipocava. Uma maravilha, aquela horta fecunda! Antes de maldizerem do hortelão, caluniadores e invejosos julgassem-lhe os repolhos, pesassem-lhe os nabos, as tronchudas couves, crespas, modestas, serviçais, as cândidas alfaces, as sensíveis cebolas de lágrima tão fácil quanto sincera, as instruídas batatas, as delicadas abóboras, que todos vão plantar e ninguém planta; os alhos, tipos eternos, às vezes porros, da vivacidade bem aproveitada; sem contar os arrepiados maxixes, nem as congestas berinjelas, nem os mastruços inomináveis, nem os agriões amargos, nem os espinafres insignificantes, nem o caruru, a bertalha, a trapoeraba dos banhos, que tem uma flor galante, mas que afinal é mato. Horta paradisíaca que ufanava-se de cultivar! A distribuição dos prêmios mostraria.

(continua...)

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