Por Raul Pompéia (1881)
Raciocinava, em satisfação à consciência, que era bien triste o marido. E tinha melancolias. Alguns amigos do tirano, compadecidos até à lágrima, dispensavam à vítima a mais terna e desinteressada proteção...
Extenuado de excesso e sofrimentos, o infeliz Álvaro enfermou gravemente. Foi bater a um hospital.
- Tem família? perguntaram-lhe.
- Não tenho família!
Numa triste enfermaria, povoada de gemidos e emanações infectas, esteve o doente algum tempo. Tinha delírios, de quando em quando, durante os quais relampeava por momentos um ou outro clarão do seu espírito, mortiço reflexo,. apenas, de sol posto.
E lá morreu.
Antes de morrer, ergueu-se; quis abandonar o leito. Contiveram-no. Estava mais branco que os lençóis, crescido os cabelos, a barba abundante. Barba e cabelo cercavam-lhe o rosto d'uma moldura negra, contrastando fortemente com o alvor da cútis e acentuando mais aquela palidez espantosa.
Olhou em roda do leito, movendo a cabeça, mas com os olhos parados.
Os enfermeiros em grupo observavam com assombro a atitude do extraordinário doente.
Álvaro sem articular um som, fez grande gesto com a mão, imperioso e solene, mandando embora os enfermeiros.
Os empregados do hospital afastaram-se dous passos e continuaram a ver.
O enfermo levantou a fronte, baixou-a depois lentamente, cravando um olhar, de través, terrível, num ponto do espaço; encolheu os ombros, contraiu os braços, crispando medonhamente os dedos. E descarregou toda essa violenta retração muscular num gesto único e supremo...
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Ficou assim longamente, o braço direito, estendido para a frente, hirto, rijo e inexorável, apontando com o indicador nodoso e descarnado aquele objeto invisível que o seu olhar magnetizava e fulminava!...
Corte, 1884.
Raul Pompéia
VIOLETA
Romance original brasileiro
... Étre maitre du bien et du mal, régler la vie, régler la societé, resoudre à la longue tous los problèmes du socialisme, apporter surtout des bases solides à la justice, en résolvant par l'expérience les questions de criminalité, n'est ce pas là étre les ouvriers les plus utiles et les pias moraux du travail humain?
E. ZOLA (Le Roman Experimental)
I
Um dia, sumiu-se a pequena Eva.
O pobre marceneiro, seu pai, buscou-a.
Tempo perdido, esforço baldado.
Na pequena povoação de ***, em Minas, não houve um recanto aonde não chegassem as investigações do marceneiro em busca da filha.
Depois que se espalhou a noticia do desaparecimento da menina, ninguém se encontrava com outra pessoa que não lhe perguntasse:
- Sabe da Vevinha?...
- Já ia perguntar isso mesmo...
E não se colhia uma informação que desse luz ao negócio.
Uma senhora velha, reumática, de olhos vivos, mas bons, baixinha e regularmente gorda, que vivia, a alguma distância da povoação, roendo o dinheirinho que lhe deixara o defunto marido, muito camarada da pequena Eva, à tia do marceneiro enfim, abalara-se de casa, contra os seus hábitos, e se arrastara a ver o sobrinho na cidade. Soubera da desgraça e, o que mais é, ouvira do seu moleque uma cousa que... devia contar ao sobrinho.
Foi achá-lo na oficina, sentado sobre um banco de carpinteiro, triste, na imobilidade estúpida de uma prostração miserável. As pernas caíam-lhe a prumo, pendentes acima do tapete de fragmentos de madeira raspada pelo cepilho. Um sol desapiedado, das três horas, caía ardente sobre ele e o cercava de uma poeira dourada de faíscas microscópicas, que flutuavam à toa no ar.
O marceneiro não se apercebia disso.
O suor caía-lhe, escorrendo sobre o nariz, e aljofarava-lhe a barba espessa e negra; toda a pele requeimada do rosto parecia desfazer-se em líquido.
Os cabelos escuros e desgrenhados grudavam-se-lhe à testa; a camisa abria-se e mostrava um peito cabeludo e largo, onde sorriam as ondulações da respiração que lhe fazia arfar o ventre. Estava abatido.
Desde as seis horas da manhã até depois do meio-dia não se sentara um instante; não se alimentara. Sofria. Ao levantar-se, vira vazio o leitozinho de Eva. Que fim levara a filha? Nada, nada: era o fruto de todas as pesquisas.
Quando a tia entrou, o marceneiro não o sentiu.
A velha chegou-se para ele e pousou-lhe a mão no ombro.
- Então não me vês? disse. Não me vês, Eduardo!
Eduardo ergueu a face e respondeu-lhe com um olhar dolorido.
A velha teve pena. As lágrimas chegaram às pálpebras. De mais a desgraça a ferira também.
Como não? Era tão boa e tão linda a Vevinha, gostava tanto dela... chamava-a vovó... Que graça nos seus beicinhos vermelhos, alongando-se como em muchocho, para soltar aquelas duas silabas!... A última doçura da vida é o amor da netinha, os seus estouvamentos de passarinho... Faltava-lhe a netinha. A árvore secular sorri, quando nela chilreia uma avezinha; voa a avezinha e a ramaria toda parece uma carranca... Ela gostava de ter sobre os joelhos a Vevinha, tagarelando. Perdera isso; era tudo.
Entretanto a dor de Eduardo era maior.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.