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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Lançou um rápido olhar ao relógio e franziu a fronte contrariada. O médico fez um ligeiro exame, receitou um calmante, recomendou repouso. Paulo segredou:

— Ela é cardíaca, doutor. Não há perigo?

— Sim, é preciso cuidado. Se houver alguma coisa mande-me um recado.

Despediu-se. Dona Júlia sentia-se alquebrada, faltavam-lhe as pernas, todo o corpo doía-lhe. Ampararam-na até a cama. Deitando-se, olhou para Violante enternecidamente, dizendo:

— Nem conversamos, minha filha. Isto está por pouco. Quando vocês mal pensarem estou morta. Também, que faz um trambolho como eu no mundo? — Deixe-se disso, mamãe.

Violante ia e vinha, arranjava os travesseiros, estendia, alisava a colcha, aparentando cuidados que não encobriam a sua impaciência; animava-a, prometia ser muito assídua.

— Estarei aqui sempre, há de ver. Quando estiver triste venho para cá passar o dia ou a senhora vai lá para casa fazer-me companhia. Havemos de viver como dantes.

Sentou-se estabanadamente na cama, abraçou a velha que se conservava de olhos baixos, em atitude de humildade e de resignação.

De repente ergueu-se e, assustada, procurando o relógio entre as rendas soltas, exclamou:

— Dez e meia! Nossa Senhora!...

— Vai, minha filha. Deus te abençoe.

— A senhora não precisa de mim, felizmente. Até amanhã.

Beijou-a nas faces, beijou-lhe a mão. Saindo à sala, ouviu um estrupido surdo e uma voz soturna que resmoneava.

— Que é isso, Paulo?

— Que há de ser? É Felícia com as maluquices. — Que agouro! Credo!

Ainda falou para o quarto: Até amanhã, mamãe.

— Vai com Deus.

— Adeus, Paulo. A que horas vou eu chegar a casa.

Seguiu ligeiramente pela corredor, com um rascante esfrolar de sedas, deixando um rasto de perfume. Paulo saiu à rua acompanhando-a ao coupé.

— Até amanhã.

— Até amanhã.

CAPÍTULO XVIII

Dona Júlia não se pôde levantar na manhã seguinte.

Quando Paulo entrou no quarto para vê-la, achou-a a chorar.

— Que tem, mamãe?

— Nada. Deixa-me. Também não possa chorar?

— Mas isso faz-lhe mal. O médico recomendou a maior calma.

— Ora, o médico... O médico sabe lá o que eu tenho. Não hei de chorar. Ver minha filha assim... Eu mesma não sei que é que você pensa, rapaz. Ninguém era mais severo, agora só porque ela anda de carro, coberta de jóias, já você não se importa. Pois eu não. Preferia... — calou-se recalcando a frase que lhe subira do coração e ficou um momento de olhos perdidos, arfando.

— Que hei de eu fazer? Só se a senhora quer que eu lhe feche a porta. Se quer...

Ela não respondeu.

— Fiz o que fiz porque a senhora vivia chorando por ela. Eu devia ter ficado quieto. É assim: nunca o que faço agrada. Eu é que sou tolo.

— Paulo, pelo amor de Deus! deixa-me. Não me amofines mais. Se soubesses como tenho este pobre coração não vivias a torturar-me. Hás de sentir mais tarde, deixa estar. Velha assim mesmo e doente, como estou, sempre sirvo para alguma coisa. Deixe estar.

Felícia pôs-se a vociferar na cozinha, atirando panelas.

— Olha, vai lá ver aquela rapariga.

Paulo saiu a conter a negra. Quando ela deu com ele aprumou-se hostilmente, com os olhos muito brilhantes, parados. Ele receou repreendê-la. Chamou-a com mansidão procurando acalmá-la:

— Então, velha? que barulho é este?

A negra avançou e curvando-se, com o braço hirto, como a mostrar alguma coisa ao longe, rouquejou:

— Está ouvindo? Então não é assim? Vosmecê pensa que o mar não conta?

vá lá na praia escutar. Eu estou aqui, estou ouvindo. Que é que ele fez? Mode quê?

Uma voltou, outro não volta. Mode quê? Ela é melhor? não é. Eu também sou mãe. Quem manda está lá em cima.

Saiu precipitadamente ao quintal, o braço erguido para o céu luminoso.

— Ele há de vir também.

— Pois sim, mas é preciso que fiques quieta, que cuides do serviço como dantes. Deus não gosta de gente má. — Má... Quem é que é má?

Resmungou uma obscenidade e foi encostar-se ao fogão, ainda apagado.

— Má. Eu sou mãe como sua mãe! — gritou com fúria frenética fitando nele os olhos lampejantes.

— Sim senhor. Mãe como sua mãe.

Paulo deixou-a e a negra ficou a bradar esmurrando as paredes. Dona Júlia chamou-o:

— Olha, meu filho, o melhor é despedires essa rapariga. Vê se arranjas alguém que fique comigo porque eu até tenho medo que ela me faça alguma coisa, no estado em que está.

— Mas como hei de sair? Quem ficará com a senhora? — Vai e leva a chave. Eu fico só. Não te demores.

Ele hesitou:

— Para fazê-la sair só se eu chamar uma praça.

— Prendê-la? Isso não, coitada! Olha, manda-a cá. — Soergueu-se e chamou: Felícia!

A negra respondeu do fundo da cozinha:

— Nhora!

— Vem cá.

Ela apareceu à porta do quarto com as roupas em frangalhos, o colo seco descoberto, as magras pernas à mostra.

— Chega aqui.

A negra adiantou-se humilde, arrepanhando os andrajos.

— Eu estou doente, não me posso levantar. Se não queres tomar conta da serviço dize porque eu faço um sacrifício e vou assim mesmo para a cozinha.

Rapidamente a negra levou as mãos aos olhos e, atirando-se de joelhos junto à cama, rompeu a chorar.

(continua...)

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