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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Chegando à rua do Ouvidor encontrou Fortúnio macambúzio, a mascar um charuto, encostado à porta da Maison Rouge.

— Que é isso, homem? Estás fúnebre.

— Estou com a morte na alma; e suspirou profundamente: Ai!

— Mas que tens? Fala...

— Recebi uma carta do Norte... Sou um grande desgraçado! Arrancaram-me a alma! Atirou a ponta do charuto à sarjeta e, com os olhos úmidos, fitando, com desprezo, o resto do trabuco que fumegava: E ainda há quem defenda a indústria nacional... Está um homem com o coração alanceado, compra um charuto baiano para distrair-se e dão-lhe uma espiga daquela ordem. Coitado de mim!

— Mas que dizia a carta? Tens algum enfermo na família?

— Não. Eu te digo, vou contar-te a verdade, mesmo porque preciso desabafar senão estouro, estouro, palavra de honra. Estou até aqui! — e pôs um dedo na garganta. Tudo irrita-me — a alegria do céu, a alegria da terra. Eu digo como Job: maldito seja o dia... Que suplício! Um homem com o coração dolorido, com a alma despedaçada, obrigado a estar aqui contemplando a alegria dos felizes. Se eu pudesse agarrava toda essa gente e esganava. Ah! Não poder eu fazer com as minhas lágrimas um dilúvio... Ai!

— Mas conta-me a tua tristeza.

— Conto mesmo. Valha-me Deus!

— Tu não estás muito direito, Fortúnio!

— Como não estou direito?!

— Parece-me que o teu mal..

— É todo moral...

— ... e de espírito.

— Ah! Espírito... Pensas que andei pelas baiúcas. Seja tudo pelo amor de Deus! Pois vou contar-te. Vamos. Quero que me ouças religiosamente.

— Como se fosse o teu confessor.

— Não! — exclamou empertigado; não admito confessores, sou ateu. Meu confessor é o meu amigo. Entraram. Uma garrafa de Guiness...

— Vais tomar cerveja preta?

— Vou. Estou de luto: só como feijão e não bebo bebidas brancas. Já amaste, Anselmo?

— Já.

— E sofreste?

— Muito!

— Então podes compreender a minha dor. Ouve: quando saí de Alagoas deixei minha alma com uma linda moça. Ah! Não imaginas! A morena mais bela que Deus pôs no mundo. Antes de partir, chamei-a e disse-lhe: "Fulana, este meio é muito acanhado para as minhas aspirações, vou tentar a vida em outra parte, vou fazer fortuna para poder oferecer-te, com a mão de esposo, os gozos que só a riqueza dá. Somos ambos jovens. Tu, se me tens amor, como dizes, posto que venhas a sofrer saudade, não me esquecerás. Eu serei teu e, pensando em ti, redobrarei de esforços para abreviar o meu retorno. Se me prometes esperar, parto contente e, por aquela estrela clara, que nos olha do céu, juro que, em breve, estarei a teus pés depondo, não só minha alma como o fruto do meu trabalho." E ela, Anselmo, a pérfida, que é muito versada em romances de cavalaria, iludiu-me com palavras doces e com lágrimas falazes: "Por que não te hei de esperar? Não era maior que o meu o amor das damas de outrora que juravam fidelidade aos cavaleiros empenhados na guerra santa. Muitas, porque os seus noivos não tornavam, fiéis ao juramento feito, vestiam a estamenha e encerravam-se nos claustros. Queira o Senhor que eu não seja forçada a seguir esse destino, mas por aquela estrela juro, meu Fortúnio, que, se por mal do nosso amor, não tornares ou por morte ou porque me hajas esquecido, seguirei o caminho triste de um mosteiro e, na minha cela solitária, direi tanto o teu nome que os próprios muros hão de decorá-lo. Se entendes necessária a partida parte, e que o bom Deus te guie, o meu amor irá contigo. E vai! Certo de que, à tua volta, hás de encontrar-me fiel ao que prometo."

Foi isso no quintal de minha casa, perto da cerca. Selamos essa promessa com um beijo e parti. Não lhe podia escrever; ela, porém, lendo os meus versos, revia-se em todos eles porque, até hoje, outra não foi a inspiração de minha alma e, por um amigo fiel, mandava-lhe recados. Aqui, bem sabes que faço pela vida, procuro acumular fortuna — porque eu não desembarco em Maceió senão com muito dinheiro! — mas ainda não consegui ajuntar o pecúlio conveniente. Por enquanto nada tenho.

— Nem casa.

— Nem sapatos, só tenho busto porque, enfim, o meu casaco é quase novo:

mas hei de ter calças finíssimas e o resto e, quando tiver... então sim! Dirigiu-se ao caixeiro: Outra garrafa de Guiness. E continuou: Eu confiava nas palavras fementidas da ingrata e, muita noite, com os olhos no céu, contemplando os astros, pedi às estrelas mensageiras que lhe falassem em meu nome. Mas também não sei para que há estrelas no céu que nem para um recado servem. E confiava quando hoje me veio ter à mão esta carta de minha irmã anunciando-me o próximo casamento da ingrata. — Vai casar?!

— Vai casar e com um inimigo meu. Duas afrontas! Vê como sou desgraçado! Lastima-me!

— E agora?

(continua...)

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