Por Raul Pompéia (1888)
Um dos lados do tapete ondeava-se em quatro degraus para um longo estrado, fronteiro à entrada do anfiteatro, apoiado à parede da sala geral de estudo. Erguia-se ali um trono, sob um dossel, para a Princesa Regente. De vez em quando, Aristarco, cansado de tanto mover-se, subia ao trono, sentava-se. Fazia-lhe bem o dossel por cima. E dava regras aos armadores, de li, como um soberano precavido ditando o esplendor da coroação.
Os iniciadores da subscrição do busto haviam concluído a tarefa. Eram dois: o Clímaco, aluno gratuito, e o professor de desenho. Clímaco, moço de espírito prático, não levou muito a ruminar uma feliz idéia. E se oferecêssemos um basto ao nosso diretor? Lembrou-se a principio de congregar os gratuitos; mas repetiu imediatamente a lembrança por inexeqüível. A gratidão podia-se subscrever por todos; saía mais barato. Entrou em campo. Os primeiros assaltados pelo convite ficaram frios. Diabo! não estavam dispostos assim, a ser gratos de uma hora para outra. Consultasse os colegas, que, se a idéia pegasse, não teriam dúvida. Alguns mais acanhados assinaram logo; alguns, ainda, dos pequenos assinaram sem saber claramente o que significava a coisa. Em poucos minutos a existência da subscrição estava no domínio público. Começou a pressão irresistível de fato. Que miséria! hesitar por dez mil-réis! Quem teria coragem de furtar-se ao testemunho público de agradecimento que a oferta do busto significava? Era uma desfeita ao diretor! Os primeiros signatários encarniçavam-se com despeito em coagir os outros, como se não quisessem ser os únicos sangrados.
Já não era preciso esforço do iniciador. A idéia ganhava terreno por si; em dois dias inteirava-se a subscrição. Muitos pegavam à vista; os que não tinham dinheiro iam tirar ao escritório, e o guarda-livros em segredo debitava o valor, despesas diversas, na conta do trimestre.
Diante da facilidade de obter o dinheiro, Clímaco resolveu sensatamente dispensar do rateio os gratuitos; aderiam com a intenção sincera. Razoável. Quando principiaram os preparativos da solenidade, já o busto, obra de zeloso artista, estava fundido.
No dia 13 de novembro, às nove horas, começou a afluência. O anfiteatro do pátio estava fechado ainda. Os convidados que apareciam, depois de cumprimentar o diretor, espalhavam-se a passear em grupos pelo jardim, ou percorriam as salas do estabelecimento, examinando os aparelhos escolares, as cartas de parede, as máximas sábias, meditando a seriedade do ensino naquela casa. A afluência aumentou. Os convites tinham sido distribuídos largamente pela cidade. Às onze horas era difícil circular no Ateneu. A festa principiava às duas. Ao meio-dia franqueou-se o anfiteatro.
Foi como se houvera aberto o seio de Abraão. A última demão dos armadores fora digna do primeiro esforço. Cruzavam-se, fazendo volta às arquibancadas, no alto, em bambinela, em faixas entrelaçadas, balançantes, o cor-de-rosa dos sorrisos infantis com uma tira alaranjada do arrebol; imediatamente depois, uma zona de vivo escarlate, ferindo sangue às veias do mais subido júbilo; aprumavam-se as colunatas dos escudos; debaixo dos escudos, oito soberbos degraus da arquibancada, veludo e galões. Perto do trono, elevava-se um palanque para o corpo docente; ao lado oposto, simetricamente, outro palanque para a banda de música e para os cantores. Não se via mais o teto de lona: alças enormes de ramaria e flores enredavam-se ao alto em graciosa desordem, flácidas, pendentes, como um dilúvio de primavera a desprender-se. Entre o verdor carregado dos festões do teto e o tapete pardo, vagava a serenidade obscura das catedrais e das florestas, neblina penetrante de recolhimento. As pessoas que entravam guardavam silêncio. O pouco que se ouvia de vozes era baixinho, cochichos de missa, surdina aveludada, amortecida, como se estivesse falando o tapete. A cornija sanefas vibrava em desconcerto com a melancolia religiosa do recinto. Algumas nesgas da lona sobre a folhagem contrastavam ainda mais, abrindo-se à irrupção do dia.
Os alunos entravam fardados, subiam, abancavam-se à esquerda, fazendo tremer o edifício todo de carpintaria. Aristarco veio ficar à porta. Imenso reposteiro, rubro, de grandes borlas, desviava-se acima dele como para mostrá-lo. Calças pretas, casaca, peito blindado de condecorações, uma fita de dignitário ao pescoço, que o enforcava de nobreza. Mirando! A suprema correção, a envergadura imponente do talhe, a majestade dominadora da presença, fundia-se tudo numa mesma umbigada de empáfia.. Os rapazes olhavam com o prazer do soldado que se orgulha do comandante. O Mestre invejável, desempenado, brilhante para a festa, como se houvesse engolido um armador.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.