Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Via Floc fazer reputações literárias, e ele mesmo uma reputação; via Lospue, de braço dado com o medíocre Ricardo Loberant, erguer à Câmara e ao Senado quem bem queria; via Aires d'Ávila, com uns períodos de fazer sono e uma erudição de vitrine influir nas decisões do Parlamento; via médicos milagreiros e tidos como sábios pedirem elogios às suas pantafaçudas obras, a redatores ignorantes; e também via Dona Inês, a esposa do diretor, uma respeitável senhora, certamente, fazer-se juiz dos contos e das poesias dos concursos, com a sua rara competência de aluna laureada das irmãs de caridade.

À vista disso, à vista dessa incompetência geral para julgar, da ligeireza e dos extraordinários resultados que obtinham com tão fracos meios, impondo os seus protegidos, os seus favoritos, fiquei tendo um imenso desprezo, um grande nojo, por tudo quanto tocava às letras, à política e à ciência, acreditando que todas as nossas admirações e respeitos não são mais que sugestões, embustes e ilusões, fabricados por meia dúzia de incompetentes que se apóiam e se impuseram à credulidade pública e à insondável burrice da natureza humana.

Mas, se o meu desprezo e o meu aborrecimento por tudo isso se não fizeram totais, foi porque por vezes senti neles, naqueles redatores e repórteres que tinham o cofre das graças, grandes dúvidas, grandes desesperos e fortes vacilações de consciência sobre o seu próprio valor.

Houve um caso que, por trágico, me ficou eternamente gravado e foi como a demonstração de que ainda havia no fundo de alguns deles uma crença no Sério, no Verdadeiro, na Perfeição.

Voltava eu nessa tarde da casa de Veiga Filho, onde tinha ido levar umas provas. Voltava admirado de que os seus amigos, toda vez que a ele se referiam, lembrassem a grande miséria em que vivia. Não o tinha visto assim. Morava numa casa apalaçada, numa rua do bairro das Laranjeiras, com altos e baixos, dois andares. Esperei as provas na sala de visitas, transformada em gabinete de trabalho, mobiliada com relativa opulência. Havia bronzes, divãs, mesas com incrustações de laca e charão, vasos de porcelana, estantes com guarnições de bronze... Onde estava a miséria? O Artur sempre se referia a ela e o Bilac, no seu “Registro”, lastimava-a como indicando o atraso da nossa civilização.

Cheguei às oito horas à redação. Floc, de casaca, dava o último retoque na tradução do folhetim. Ia ao Lírico. Estava cercado de dicionários e exalava perfumes. Em breve saiu e a redação a pouco e pouco se esvaziou. Pela meia-noite estava só o redator de plantão; o repórter de serviço tinha adoecido e os outros, à mingua de novidades, tinham desaparecido pelos cafés e cervejarias. Pouco depois da meia-noite, Floc voltou. Vinha alegre. A sua fisionomia irradiava satisfação e no seu olhar bailavam coisas fugidias e doces. Adelermo, que fazia o plantão, perguntou-lhe pelo desempenho:

— Maravilhoso! Nunca vi um conjunto tão harmonioso... Que vozes! O quartetto foi excelente. Não há uma cantora de destaque, na verdade, mas todas afinam bem e o conjunto é extraordinário!

— E a valsa?

— Oh! Magnífica! Que orquestra! Que musetta! Imagina que foi bisada quatro vezes!

— Então foi um delírio?

— Um delírio... Nunca vi tanto entusiasmo... A sala toda vibrava.

— E as galenas? Vaias, hein?

— Não. Portaram-se bem... Felizmente estamos deixando esse hábito

— Muita gente?

— A cunha Que mulheres, Adelermo! que mulheres! A Lobo tinha um decote maravilhoso. Todo o colo, muito alvo, alvo de jaspe, ficava ora e o pescoço nascia do busto, muito longo e muito branco,, A Santos Carvalho lá estava também, com aqueles olhos de fome, olhos de insatisfação, e curiosidade, de vontade de provar todos os “frutos do jardim do mundo” ... A Carneiro de Sousa... Eu não sei que mal me faz essa mulher com o seu desenho de rosto a Botticelli! Tem não sei que mistura de candura e perversidade que me dá gana de gritar-lhe: fala demônio! O que és santa ou serpente? Pela sala, pairavam não sei quantas essências caras, não sei quantos perfumes de flores de quantos climas! Chegava-se a esquecer diante daquelas mulheres, daquelas luzes, daquela música, daquela olência, que se estava dentro dum barracão infamíssimo!

Floc falou com calor, gesticulando, procurando completar a frase com um gesto e um olhar. Sentia-se bem que aquelas coisas deliciosas se tinham impregnado nos seus sentidos e o envolviam todo.

Os seus olhos, ao falar nas mulheres, tinham reflexos de ouro e fumava nervosamente durante a conversa. Adelermo mantivera-se calmo sorrindo de quando em quando; às vezes, ouvindo uma frase ou outra, parecia perder-se no seu próprio pensamento, destacar-se de si e ir longe, longe...

— Dás a crônica hoje? perguntou Caxias.

— Naturalmente... O Raul dá também para o Diário ... Eu não queria; pretendia fazer uma coisa mais cuidada, mas noblesse oblige... Não achas?

— Então, enquanto escreves, eu vou sair, como alguma coisa e volto já.

— Não há dúvida, disse Floc tirando a casaca. Vai que eu espero.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7071727374...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →