Por Lima Barreto (1911)
Presidente — Atenção. Quem está com a palavra é o nobre deputado Júlio Barroso. Orador —... se isto é mesmo o parlamento brasileiro, parlamento de um país onde se fala o português. Acho-me por assim dizer coagido a suspender as ligeiras considerações que vinha fazendo sobre o espírito de classe. Eu queria mostrar como esse espírito é uma sobrevivência nefasta, como ele já nos envergonhou a civilização. Vejo-me obrigado porém, a suspendê-las, porquanto não tenho mais imunidades parlamentares, não podendo falar livremente como fazem aqui os parentes das influências poderosas que recitam... Numa — V. Exa. deve positivar as suas acusações.
Orador — Não estou acusando. Estou simplesmente tratando de um modo geral no que toca ao proceder da mesa... Numa — Não admito essas insinuações.
Orador — V. Exa. quando ora não tem dessas perturbações prejudiciais à memória ou ao fim...
Numa — Peço a palavra para uma explicação pessoal.
Júlio Barroso continuou a sua oração embora cortado de apartes constantes após a qual foi dada a Numa a palavra para uma explicação pessoal. Toda a Câmara esperou que Numa fizesse um veemente discurso, como faziam crer as suas orações anteriores; mas, ao contrário disso, pronunciou breves palavras, disse que era honrado, que a sua adesão ao general Bentes tinha sido espontânea e sincera.
A impressão geral foi péssima. Os seus amigos, quando deixou de falar, receberam-no friamente, não lhe deram os cumprimentos de hábito e houve suspensão em todos os espíritos. É verdade que pretextara incomodo, mas não podia ser ele tão grave que o impedisse de defender-se cabalmente e a sua defesa estava em falar com calor, com veemência e paixão. Piterzoon, entre colegas, dissera mesmo:
— Vocês admiram-se! Não é coisa do outro mundo. O Numa lá de Roma acertava, quando consultava a Ninfa; com este dá-se a mesma coisa.
O genro de Cogominho deixou a Câmara apreensivo. Ele mesmo tinha provocado aquele incidente, ele mesmo tinha levantado a luva e fora ele mesmo, portanto, quem criara aquele fiasco. Julgou em começo poder pronunciar a sua defesa; não havia estudo a fazer, não havia argumento a responder, entretanto, o hábito que adquirira de discursar depois de estudo apurado, tinha-o traído no momento crítico.
Era preciso apagar aquela impressão; no dia seguinte, fosse como fosse, tinha que fazer um discursos sólido, cheio, capaz, por conseqüência, de levantar a sua reputação. Foi logo para casa. Mal entrou, procurou a mulher. Edgarda lia na sua biblioteca. Numa entrou nervoso e ansioso. Olhou um momento com tristeza as estantes cheias de livros. A mulher notou-lhe a fisionomia alterada, a sua angústia quase a nu.
— Que tens, Numa?
O deputado sentiu-se combalido e pôs as mãos na cabeça. Edgarda apiedou-se com aquela atitude do marido.
— Que tens, Numa?
Ele tomou alento, sentiu-se um pouco aliviado, a opressão deixou-o um pouco. Disse:
— Fiz um fiasco.
— Onde?
— Na Câmara.
— Foste falar.
— Fui.
— Que imprudência! Durante muito tempo?
Numa quase chorava. Era a sua carreira, eram as suas ambições que se desfaziam. Pela primeira vez, sentiu alguma coisa profundamente. A mulher também teve a visão do desastre. Estremeceu.
— Falei cinco minutos... Gaguejei.
Contou-lhe Numa então toda a história e a necessidade que havia de fazer um discurso no dia seguinte. A mulher concordou e dispôs-se a compô-lo completo e perfeito. Numa descansaria, acalmar-se-ia; e, de madrugada, depois do repouso, estudá-lo-ia, e estaria resgatado. Jantaram; Numa mais calmo e a mulher mais esperançada. Os criados tiveram ordem de dizer que os patrões tinham saído. O deputado foi dormir e a mulher trancou-se na biblioteca trabalhando na oração do marido.
A noite se fez totalmente. Numa dormiu profundamente as primeiras horas. Tinha os nervos fatigados, todo ele era cansaço e pedia repouso. Dormiu; mas, pelo meio da noite, despertou. Procurou a mulher ao lado. Não a encontrou. Recostou-se. Lembrou-se, porém, da combinação que tinham feito. Teve amor pela mulher, sentiu-a boa e o seu sentimento por ela se separava agora de todo e qualquer interesse, de toda e qualquer ambição. Para que aquela teima? Devia deixar a política, viver simplesmente com a mulher até que a morte o levasse. Mais valia a vida assim do que ele estar a contrafazer-se a todo o instante. Mas para fazer isto? Que seria ele? Nada. Devia continuar, devia não recuar. Era preciso ter destaque, figurar; era preciso que o chamassem sempre de deputado, senador; tivesse sempre consideração especial. Então podia ser assim um qualquer? Subir! Subir! E ele viu o Catete, as suas salas oficiais, o piquete, os batedores, o lugar de S. M. I. o Sr. D.
Pedro II...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.