Por Coelho Neto (1906)
— Ora, hem? Não vês como estou inchada? Olha bem para mim.
— Não acho. A senhora não deixa as cismas.
— Cismas... Antes fossem. Mas que foi que te deu na cabeça, minha filha?
Deu d'ombros, fez um momo e dando à voz um tom infantil:
— Vamos falar de outra coisa. Assim eu fico triste... — E logo, fugindo ao assunto: E Felícia? É verdade que está maluca?
— Perdida duma vez. Não diz coisa com coisa, sempre resmungando, praguejando. Daqui para a Hospício. Ainda hoje, não imaginas o que fez.
— Por quê?
— Por causa do filho. Os filhos... vocês! acentuou.
— Eu não sabia que ela tinha filho.
— Tinha, era marinheiro; morreu na revolta.
— Coitada!
— E tu? como vives?
— Vivendo: ora alegre, ora triste. Mas nada me falta, graças a Deus. — E não ficas vexada?
Ela tornou-se séria, sacudindo as borlas da capa:
— Vexada, por quê? É uma vida como as outras. Vai, talvez, mais ligeira, mas é mais agradável. Tristezas, todos as têm. Eu podia ter casado, não quis.
— Por quê?
— Porque sim. — impôs a mão ao peito e afirmou: — Não tenho coração. — Isso sei eu.
Paulo, que se conservara calado, fumando, interveio.
— Se ela é feliz, que mais?
— Pois sim, mas eu penso em Deus.
— Deus... Bem se importa ele comigo.
Levantou-se.
Começava a sentir a melancolia daquele lar taciturno; aquele ambiente de tranqüilidade pesava-lhe, não era a seu elemento, sentia-se como sufocada. Fez menção de despedir-se, mas a mãe convidou-a a ver a casa. Cedeu submissa e seguiu-a olhando indiferente, sem curiosidade, com um sorriso artificial no rosto. Diante da quarto que lhe fora destinado houve maior demora: a velha levantou a vela, uma luz mais larga projetou-se.
— Este era o teu.
— Bem bom. A casa é pequena, mas muito cômoda. Muito melhor que a outra. E Felícia?
A negra preocupava-a. Queria ver a desgraça, sentir a miséria, contemplar a agonia.
— Deve estar na cozinha.
Paulo deu luz ao gás e avançou chamando a rapariga, aos berros. Não houve resposta.
— Ela, ás vezes, sai para a quintal, fica lá fora sentada, resmungando.
Paulo procurava. Uma senhora ergueu-se junto ao fogão e ficou imóvel. Violante adiantou-se e a negra esperou-a hostil.
— Ó Felícia! Como vai você? Então que é isso? Não me conhece mais?
A negra olhou-a muito, sem pestanejar; de repente, com uma rabanada, saiu da cozinha e sumiu-se no quintal, aos resmungos.
— Coitada! — lamentou Dona Júlia; — é melhor deixá-la.
Na sala de jantar Paulo insistiu com a irmã para que aceitasse alguma coisa; ela recusou: "Jantara tarde. Não tinha vontade." A velha procurava pretextos para ficar a sós com ela, Paulo, porém, rondava-as fazendo as honras da casa, muito solícito e franco. A mãe atreveu-se a pedir, carinhosa:
— Deixa-me ficar um instantinho com Violante, meu filha. — Pois não.
Retirou-se contrariado. Foi para a sala. As duas olharam-se, caladas. Dona Júlia tomou uma das mãos da filha, a tremer; pôs-se a beijá-la, sôfrega. Súbito, como se lhe faltasse a equilíbrio, oscilou e teria caído se Violante não a amparasse. Cerraram-se-lhe os olhos, todo o corpo amoleceu, inerte, tombando sobre uma cadeira. Violante gritou; Paulo acudiu a correr:
— Que é?
— Mamãe... Olha como está. Não vá ser do coração, meu Deus. — Eu já contava com isto.
Foi precipitadamente ao quarto, trouxe um vidro d'água sedativa. A velha não fazia o menor movimento; a respiração era estertorosa e cerrada.
— Nem há aqui uma pessoa para chamar um médico. Espera, eu mando o cocheiro. Aqui mesmo na Rua da Lapa há um.
Correu à sala, deu uma ordem. O carro partiu. Tornou para junto da irmão, atônita. Por fim, como se se habituasse, sentou-se calma.
— É o coração, — cochichou Paulo.
Violante fez um gesto de desânimo. O relógio bateu vagarosamente no silêncio.
— Nove e meia! — exclamou em voz surda, alarmada. — E eu que não preveni Lucília. O homem é capaz de pensar que ando por aí...
— Dize-lhe o que houve.
— E pensas que ele acredita? Pois sim. — Inclinou-se, pôs-se a chamar a mãe, não para aliviá-la, mas para libertar-se. — Não tens um pouco de éter?
— Não.
— A que horas vou eu sair daqui, meu Deus! E o médico? Ainda se ele chegasse...
— Se queres, vai. Eu fico com ela.
— Não! Isso não. Não quero que ela se zangue.
— Zangar-se, por quê?
— Se eu fosse livre, mas tu compreendes. — Ao rumor do carro Violante correu à sala, abriu a janela. Estava um homem parado à porta. — É o doutor? — Sim, minha senhora.
Era um homem de idade, alto, magro, feição austera. Entrou vagarosamente e perguntou, em voz pausada, pela doente.
— É minha mãe, doutor. Está lá dentro, teve uma síncope. Nem tivemos tempo de a levar para a cama. Foi de repente. Entre, doutor.
Falava com grande volubilidade, voltando-se para o médico, que a seguia, sempre vagaroso. Justamente chegavam à sala de jantar quando Paulo sussurrava palavras meigas à mãe que parecia haver recobrado os sentidos. Efetivamente abria os olhos, balbuciava, movia a cabeça como atordoada. Violante precipitou-se:
— Então, mamãe? Está melhor? Olhe o doutor. É melhor deitá-la, a senhor não acha?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.