Por Coelho Neto (1890)
— Estritamente: nem mais nem menos. Aí tem o senhor. Para o homem o que ali estava eram um metro e 75 de pano, nada mais. Quem vive de Arte? Dois ou três favorecidos e não os de mais talento. O Firmino Monteiro, que é um esforçado, não consegue colocar os seus quadros e é um artista de merecimento, talvez o mais consciencioso dos nossos pintores históricos. O seu Vercingetorix lá está enrolado, a um canto do atelier, porque não há um homem que tenha uma parede bem larga para a formosa tela. Estou certo de que se o meu amador a visse mandaria retirar uns quatro ou cinco legionários dos que acompanham, à presença de César, o Chefe dos cem vales, para encravar a tela entre outras, disparatadamente. As minhas frutas estão entre a cópia de uma batalha, de Detaille e uns touros, de um pintor inglês. Por cima uma marinha do De Martino e, por baixo, uma gouache: o Rialto. Não há gosto artístico — o quadro é uma ostentação. Não há quem diga: Tenho aqui um original de fulano. Dizem todos: Estão aqui tantos contos de réis. Infelizmente esta é a verdade. É possível que venhamos a ter um público que dê apreço à obra de Arte, por enquanto temos apenas vaidosos que entendem tanto de pintura como eu entendo o grego. Agora, já que ferimos este ponto, vamos à verdade: Também não temos Escola. Aquilo que há ali na travessa das Belas Artes é um Asilo de mentecaptos. O governo, querendo proteger uns tantos homens, nomeou-os para as diferentes cadeiras do ensino artístico e, sob a cúpula daquela casa silenciosa, durante os dias lentos do ano, uma turma de rapazes desenha academias. Raramente ali aparece um modelo. Não há quem se lembre de haver feito uma excursão ao campo, de sorte que os rapazes, habituados ao exercício passivo da cópia, naquela penumbra sonolenta das salas, quando chegam ao grande ar, em face da natureza forte, cercados da luz viva, ficam encandeados e são incapazes de transmitir à tela a menor impressão de água, de céus, de campos ou de arvoredo. Uma folha que se agite basta para os desnortear, os olheirões de água dão-lhes vertigens, os matizes de uma campina deixam-nos assombrados, e o governo continua a manter aquele mosteiro de Apolo de onde saem apenas copiadores. Se um rapaz tem decidida vocação para a Arte faz como o Castagnetto — rasga a matrícula, mete-se num bote e, águas em fora, com as suas telas e os seus pincéis, uma merenda frugal e a caixa das tintas, vai pintar ao sol, sobre as águas, trazendo-nos, ainda com o cheiro das brisas salitradas do mar largo, essas esplêndidas marinhas, ou faz como Parreiras que, de quando em quando, abala para a floresta de onde volta sobraçando uma porção de estudos do natural. Há verdadeiros talentos na Academia, mas murcham logo que se habituam àquele meio merencório e sombrio onde há apenas cabeças pagãs estampadas em papier maché e bustos de gesso, que são verdadeiras ignomínias. O público, que vai às exposições anuais daquela casa, porque entende que Arte é o que lá está, não pede senão coisas que se pareçam com aquilo. A Academia é a mais terrível inimiga do artista.
— E afinal, como vive?
— Eu? Assim. Aqui pinto, aqui durmo; saio apenas para comer, quando é possível. Agora, felizmente, tenho dois discípulos: um dá-me o jantar...
— E outro o almoço...?
— Não, o outro paga-me.
— Então não vive exclusivamente dos frutos do seu trabalho...
— Homem, dos frutos fica-me a casca, que é amarga.
— E esse novo quadro?
— Está vendido.
— Bem?
— Nem por isso: calculo em duzentos a duzentos e vinte mil réis.
— Como isso?
— Eu digo. Sabe que estive à morte, com uma congestão pulmonar..
— Quando?
— Há uns seis meses.
— Não sabia.
— Pois estive por um fio. Estava sem vintém; pedi a um amigo que me vendesse algumas telas pelo preço que encontrasse. Mas... que deu isso? Um quadro de um metro, falo agora como o amador, foi vendido por cento e cinqüenta mil réis e as receitas sucediam-se. Já não havia meio de aviá-las quando o meu companheiro lembrou-se de pedir um pequeno crédito ao farmacêutico, tomando a responsabilidade da dívida, caso eu falecesse. O homem é generoso, aceitou. Logo que me restabeleci fui entender-me com ele sobre as condições do pagamento: "Olhe, disse-me, faça-me uma coisinha para a minha sala de jantar e ficamos quites. Agora não vá fazer um quadrinho para crianças, mesmo porque eu sou curto de vista. Faça-me alguma coisa que se veja de longe." E... aí tem.
— Mas isso é uma infâmia! — bramiu Anselmo.
— Uma infâmia? Podia ter sido pior.
— Ah! Mas eu vou escrever um artigo! Arraso o boticário! — exclamou Anselmo tomando o chapéu e a bengala. Arraso o boticário...!
— Pelo amor de Deus! Não faça tal! Eu sou um homem doente!
— Mas é uma infâmia! É uma exploração!
— Que se há de fazer?!
— É verdade! E estamos numa cidade artística, capital de um império!
— É para ver.
— Bem, adeus, Estêvão!
— Adeus! E obrigado. E, indignado, Anselmo desceu as escadas lentamente, receoso de que aquela ruinaria desabasse.
CAPÍTULO XVII
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.