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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Preparava-se a solenidade da distribuição bienal dos prêmios. As benemerências andavam famintas de coroas. Suspenderam-se as aulas. Era preciso começar o preparativo com grande anterioridade, porque se projetava coisa nunca vista. Alguns discípulos tinham prevenido ao diretor, guardavam-lhe uma surpresa: a oferta de um busto de bronze! Aristarco predispunha-se para a surpresa com todas as veras da alma. Um basto! era a remuneração que chegava dos impagáveis esforços, a sonhada estátua. Vinha-lhe aos pedaços. Começavam pela cabeça; mais tarde, oferecer-lhe-iam o abdome, bela pança metálica e magnífico umbigo de bonzo gordo, saliente como um marro; depois, o prolongamento do corpo, aos roletes, gradualmente... Ah! quando lhe oferecessem as botas!... Depois, não seria preciso mais: o pedestal, ele mesmo oferecer-se-ia para adiantar. E parafusaria, acumuladas, as peças do seu orgulho, a pilha dos seus anelos, a estátua! surgida aos poucos da sinceridade vagarosa das oblações, como dificilmente a glória, do escrutínio demorado dos tempos.

Devia ser uma solenidade sem memória nos fastos da pedagogia triunfante, um obelisco de despesas, de luxo, de esplendor, a cuja ponta, como a erupção de uma cratera, saltasse a surpresa, galardão das altas qualidades e pirraça suprema à concorrência dos rivais.

Não havia sala no Ateneu que comportasse tão vasta festividade; nem o próprio lagar dos recreios abrigados. Resolveu-se cobrir de lona o pátio central, sobre grandes mastros plantados convenientemente. Uma barraca incalculável, a maior barraca que a imaginação humana tem concebido, que abrangesse na sombra quatro mil pessoas, com o pano emprestado aos toldos, ao velame de uma esquadra. Embaixo, as arquibancadas; reservando-se, no meio, espaçosa arena para a exibição dos laureados. Por intermédio do ajudante-general da Armada, que tinha dois filhos no estabelecimento, podia-se comodamente obter a lona.

Durante alguns dias chegaram ao Ateneu cargas imensas de pano. Espichavam-se os rolos no pátio, ao longo das paredes. Apareceram em seguida as madeiras e os carpinteiros, um povo de carpinteiros.

Em meio dos operários iam e vinham os estudantes, ajudando, atrapalhando, às carreiras, aos saltos, aos gritos, pressentindo a felicidade do dia solene. Aristarco aprovava o tumulto; queria vê-los alegres. A morte do Franco produzira uma penumbra de pânico; alguns rapazes tinham ido para casa, receosos da febre.

O alvoroço dos preparativos reanimava o Ateneu. Em poucos dias atravancou-se o pátio de postes e travessões, tábuas e pés de serra, como um desmedido estaleiro. Os martelos batiam por todos os cantos com a crepitação continua dos tiroteios. Desaparecia a terra sob a poeira dos paus cortados. Aristarco fiscalizava o serviço como mestre-de-obras, rondando calado, sério, sorvendo satisfeito as emanações da serragem fresca, cheiro de oficina, cheiro do trabalho, ouvindo atritar os serrotes com um rumor de fábrica, que lembrava os haustos de ofego do vapor ao vaivém poderoso dos êmbolos. Havia um prazer especial naquilo; crescer do chão em três dias por honra sua a floresta das vigas e barrotes, ao esforço de tantos homens ativos e azafamados; cantarem as tábuas sob os malhos, desdobrando-se escadas e bancadas como um desafio às exaltações, e prejulgar do efeito total, quando tudo fosse belbutina e paninho, e o concurso da população invadisse, e assomasse, de um terremoto de aclamações, o busto, altaneiro e luzente.

Certo não foi tão nobre o orgulho daqueles monarcas das pirâmides, idiotas macabros e colossais, arquitetos inúteis de sepulcros.

Partiram os carpinteiros, apresentaram-se os armadores. Estenderam-se sobre o vigamento os toldos, as velas, como um céu de lona. As janelas do pátio abriam-se para o anfiteatro como tribunas.

Os armadores comprometeram em sanefas todo o pundonor do talento. Tudo que pode produzir de aparatoso o bem combinado das cores vivas e os apanhados de cassa flutuante, e os lambrequins pintados do coreto, e as colunatas de papelão; tudo que pode a concordância assombrosa da cenografia e da ripa, armou-se no pátio profusamente.

Na arena central expandia-se um tapete pardo, de flores claras. Em parte da arquibancada, convenientemente disposta, alinhavam-se cadeiras. Os estudantes e os assistentes somenos sentar-se-iam na tábua dura. As abertas de construção que não podiam ficar assim em osso, foram empanadas de veludo com frisos de galão. Vermelho e ouro. Acima dos assentos havia uma linha de balaústres espiralados de fitas. Em cada balaústre um escudo com o nome de um pedagogo célebre. Por delicadeza incluíram o nome de Aristarco várias vezes. Aristarco não reparou.

(continua...)

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