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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

E continuava a fumar serenamente enquanto o cobrador descia cabisbaixo, mastigando juras. Não havia expediente de que não lançasse mão para conseguir dinheiro. Todos lhe serviam, desde os honestos até aos semi-honestos. Tinha para as suas transações caixeiros e escreventes. Laje da Silva era um deles. Na transação dos quadros que ficou célebre, outros entraram e ganharam uma boa fatia. Não sei se se lembram ainda do caso. Eu recordo. Certo dia, um jornal de Pernambuco noticiou que se havia descoberto numa cidade do interior duas grandes telas que bem podiam ser de célebres mestres holandeses ou flamengos. E lá vinha a historia do domínio batavo no Norte, de Maurício de Nassau, etc. Em breve, os tais quadros eram expostos no Rio de Janeiro e as competências começaram a falar, gabando a beleza extraordinária dos trabalhos. Não havia dia em que este ou aquele jornal, esta ou aquela revista não se referisse com grandes encômios aos quadros. Os competentes deram-nos como sendo de Rembrandt e J. Van Eyck. Na tela que se atribuía a este, havia mesmo uma certa beleza comunicativa, independente de qualquer exame ou cultura. Representava uma grande dama adorando um Menino Jesus e o fundo era uma paisagem de montanhas cobertas de neve, tratado com aquele desenho correto, firme e aquela sábia perspectiva aérea que tanto lhe gabam os críticos. Raul Gusmão escreveu um cintilante artigo; Veiga Filho desarrumou dicionários, escreveu um folhetim maciço. Os escritos choviam, mas o que causou surpresa foi também o assunto merecer da pena política de Aires d'Ávila um artigo entusiástico, confessando não entender de arte, mas louvando-se nas suas impressões e nas opiniões dos competentes. Terminava pedindo ao Governo que adquirisse as telas. A sua idéia foi logo bem aceita e os tambores jornalísticos começaram a rufar. O ministro do interior consultou a Escola de Belas Artes, que achou as telas obras-primas e dignas de serem adquiridas. O Congresso votou o crédito e as telas foram compradas por perto de mil contos. Não passaram, porém, três meses que um jornal de Paris as não denunciasse como falsificadas e apontasse o falsificador. Um outro jornal do Rio foi além: denunciou o sindicato que tudo preparara e fizera a campanha para que o Estado adquirisse os quadros. O jornal, entre outras pessoas, apontou Aires d'Ávila como tendo entrado no negócio e recebido trinta contos no Banco inglês, com o cheque n° 5327.

O esteta entusiástico deixou passar a tempestade e, serenada que ela foi, veio calmamente dizer que, de fato, recebera o dinheiro, mas tão somente como advogado, para fazer minutas de requerimentos, dar conselhos e outros pequenos serviços da profissão.

Quem ganhava tanto com minutas de requerimentos, não precisava sujeitar-se a um emprego.

Quase todos os seus artigos eram mais ou menos pagos, pelo diretor e pelos interessados; assim também procedia Veiga Filho. A sua literatura era a duas amarras. Escreveu, certa ocasião, um conto, de coluna e meia, passado em Teresópolis e gabando com insistência as comodidades de um hotel. O hoteleiro, no fim do mês, ao receber a conta dos anúncios, correu furioso ao escritório:

— Mas, já paguei!

— Como? fez admirado o gerente.

— Sim. Dei ao Senhor Veiga Filho duzentos mil-réis pelo conto.

— Mas quem lhe falou no conto, Senhor Lebrindo? Isso é lá entre os senhores... E quer

saber de uma coisa? Nós já o pagamos também.

Ninguém se surpreendeu no jornal. Todos andavam preocupados com a obtenção de posições e mesmo que não andassem, aquilo era quase admitido. Oliveira andava indignado com os colegas pelo sôfrego assalto aos lugares públicos, de que davam mostras.

— É isto, dizia ele; vocês não prezam a imprensa, fazem dela achego, gancho; não a dignificam, não a honram. Querem empregos públicos, como se um reles burocrata valesse mais do que um jornalista...

— Mas não é isso, objetava Leiva. É mais seguro...

— Qual seguro! Então você pensa que não se é também demitido... É preciso engrossar, bajular, fazer manifestações... Eu não quero. Da Imprensa, para a cova, e não acho profissão mais brilhante do que a nossa!

Ele nunca tinha engrossado e era um grande jornalista. Losque também não quis emprego; a sua pretensão era ser deputado. Os seus títulos consistiam em ser redator anônimo de um grande jornal. Nunca se fizera notar por coisa alguma, não tinha a menor influência, não se distinguia como portador de nenhuma idéia útil e fecunda; mas queria ser deputado, indicado por um presidente de Estado, como convinha a um dos auxiliares do doutor Ricardo Loberant, o moralizador da República.

No meio daquele fervilhar de ambições pequeninas, de intrigas, de hipocrisia, de ignorância e filáucia, todas as coisas majestosas, todas as grandes coisas que eu amara, vinham ficando diminuídas e desmoralizadas. Além do mecanismo jornalístico que tão de perto eu via funcionar, a política, as letras, as artes, o saber — tudo o que tinha suposto até aí grande e elevado, ficava apoucado e achincalhado.

(continua...)

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