Por Coelho Neto (1906)
Abraçou-a e saiu. Ela ficou encostada à mesa, pensando, a chorar; lentamente, dirigiu-se para o quarto, acendeu a lamparina diante dos santos, ajoelhou-se e, de mãos postas, balbuciou as primeiras palavras de uma oração, mas numa explosão de lágrimas, abateu no soalho e ali ficou, soluçando, com palavras de recriminação e palavras de carinho para a filha ingrata que, afinal, voltava, que ela ia, enfim, rever e beijar.
Nunca um dia lhe pareceu tão longo como esse. As horas arrastavam-se; por mais que buscasse afazeres para distrair-se, volta e meia lá estava na sala a olhar o relógio. Arranjava a casa para receber a filha, trazia vasos de plantas para a sala, sacudia os tapetes, mudava a roupa das camas, num afã satisfeito.
Não podia contar com Felícia, que resmungava enfezada, repelindo visões, bradando furiosamente a seres imaginários, ora na cozinha, ora no quintal, ao sol. A pobre debatia-se lutando com as trevas que se lhe iam adensando no espírito. Por vezes, num momento lúcido, ficava imóvel, pensando; logo, porém, o delírio a retomava e, trabalhando maquinalmente, sempre a murmurar, a esconjurar, sacudiase, esfregava os olhos irritada, aspergia os cantos, a mancheias d'água, sapateando frenética, grugrulhando em desespero crescente.
Atirava punhados de sal ao fogo e desvairada, excitada pela crepitação, bradava expulsando os espíritos, apanhava-os no ar, lançava-os pela porta, injuriando-os, soprando-os, como se fossem leves plumas e, d'olhos altos, acompanhava-os imaginariamente, esconjurando-os.
Dona Júlia começava a temê-la. Quando lhe ouvia os gritos, estrangulados como ganidos, afastava-se, ia para a sala da frente, receando alguma violência, mas a negra não se arredava da cozinha, onde rolava em crises furiosas, escabujando, lutando com as larvas que os seus olhos assombrados descobriam.
Quando Paulo entrou, ao cair da tarde, Dona Júlia insistiu na necessidade de despedir Felícia. Não era prudente tê-la em casa naquele estado. Estava ficando furiosa.
— Hoje não me lembrei do anúncio. Também, com o dia que tive... Amanhã.
— Tu compreendes... eu sozinha em casa com uma doida.
— Sim, tem razão. Fique tranqüila, amanhã arranjo uma criada.
Jantaram. Felícia servia carrancuda, resmungando. Ia até à porta, retrocedia olhando airadamente, murmurando, às vezes rindo.
— Vai, Felícia.
— Uê! Então vosmecê pensa? É assim mesmo. Eles derrubam tudo, derrubam, mas a minha casa é sagrada. Curvou-se, traçou uma cruz na soalho. — Eu não... aqui ninguém bole! Uê!
Lá ia, a dar de ombros, chuchando muxoxos. Rompia a cantar, sapateando diante da fogão. Era necessária chamá-la. Paulo repreendeu-a:
— Que é isto, Felícia? Tu estás doida!
— Doida! Vá falando, vá falando. Vosmecê nem sabe. Eu não... Meu filho é meu filho. Quem foi que me deu ele? Olhe... — mostrava o céu. — Está lá em cima, foi Nosso Senhor. Quem foi que tirou ele? — inclinava-se prestando atenção ao rumor das andas. — Vosmecê esta ouvindo? Não fala não, nhonhô, mar está aí perto, pertinho. O melhor é vosmecê ficar quieto.
À noite, a aflição de Dona Júlia aumentou. Estremecia ao mais leve rumor, o coração batia-lhe precipitado, sentia o sangue fugir-lhe. Quando Paulo bradou da sala: "Está aí Violante", ela quis precipitar-se, correr, mas faltaram-lhe as pernas; levou ambas as mãos ao peito contendo o coração que parecia querer rebentar e foi indo, arrastadamente, já com os olhos rasos de lágrimas.
A parta da rua abriu-se e ela viu aparecer a filha agasalhada em uma capa que lhe chegava aos pés, com um grande chapéu de plumas negras. Encostou-se ao umbral da porta da corredor, chorando, abalada, sem forças para seguir. Violante precipitou-se e, abraçando-a apertadamente, pôs-se a acariciá-la com palavras meigas, levando-a devagarinho para a sofá. Quando se sentaram ela ficou sucumbida, em atitude humilde, sem coragem de levantar as olhos para a filha que a amparava.
— Então, mamãe? Não quer olhar para mim?
Ela encarou-a, então, com as lágrimas correndo em fios e sorriu tristemente, contemplando-a com toda a ternura da sua imensa saudade. Achou-a linda, mais forte.
— Sou eu, Violante.
— Ah! sim... Violante... Olha para mim, vê como estou magra, cheia de cabelos brancos.
O pranto tomou-lhe, de novo, a voz.
— Tu não tens pena de mim?...
— Ora, mamãe, — interveio Paulo, — assim Violante fica com medo de voltar.
— Por quê? Que mal lhe estou eu fazendo?
— Vamos conversar.
— Foi uma maluquice, mamãe, — disse Violante, — mas não falemos nisso. — E não estás arrependida?
Ela meneou com a cabeça negativamente, sorrindo e, estouvada, tomando as mãos da velha, pôs-se a afagá-las às palmadinhas:
— Vamos falar de coisas alegres. Eu não vim aqui recordar tristezas. O que passou, passou. A senhora como vai? Tem tido saudades de mim? diga...
— Como vou...! esperando a morte. Não queres tirar a capa?
— Não, não posso demorar-me. — Onde vais?
Ela sorriu, titubeou:
— Tenho visitas, amigas. Descanse; muito breve venha passar um dia inteiro com a senhora.
— Se eu ainda for viva.
— Ora, mamãe.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.