Por Coelho Neto (1890)
— E agora? Como há de ser?
— Não pintes frutas: apodrecem depressa. E voltou-se para a parede.
— E como te arranjaste?
— Fui ao amador e pedi que me adiantasse alguma coisa para comprar outras frutas. Comprei e o Lins, logo que as viu, muito guloso, pediu-me que, ao terminar o trabalho, não me esquecesse de lhe dar os modelos. Terrível!
— E o caso do Madeira?
— Não conhece?
— Não.
— Esse é mais sério. Custou-lhe uma sova.
— A quem? Ao Madeira?
— Não, ao Lins.
— Como?!
— O Madeira é um velhote alegre que costuma festejar o S. João com fogueira e comeizana, no seu chalé da rua dos Coqueiros. Tem em sua companhia uma irmã solteira, dama quarentona, de muita virtude. Pelo que ela diz: está solteira, não por falta de noivo, mas porque fez voto de castidade: apareceram-lhe vários partidos, alguns vantajosos e ela sempre firme no seu voto. Vive com o irmão e com a cunhada. O Lins foi levado a uma das tais festas de S. João à casa do Madeira e portou-se galhardamente. Ali pelas tantas da noite, se o não agarrassem, teria saltado a fogueira, apesar da perna dura e da vinhaça: estava como louco.
Saíram todos os convidados, ele foi o último a despedir-se. Na ocasião de retirar-se, não conhecendo bem o chalé, em vez de tomar pela porta da rua, meteuse por outra. Fechada a casa, quando a irmã do Madeira, em camisa, recolheu-se ao leito, deitou-se em cima de um homem. Um grito de pavor e de pudor ofendido alarmou a casa — acudiram todos: o Madeira com uma bengala nodosa, a mulher com uma vela e a pequenada berrando. A pobre senhora, trêmula e pálida, olhava assombrada, encolhida, tiritando a um canto. Quando o Madeira entrou, o Lins estava sentado na cama, também assustado.
— Que é isto, senhor? — urrou o Madeira indignado. Pois eu recebo-o na minha intimidade, com toda a delicadeza, para o senhor ultrajar uma senhora respeitável, que podia ser sua mãe?
— Ultrajar?! Como? Eu ultrajei! Eu não ultrajei... não me lembro!
— Não se lembra?! Com que intuitos procurou o senhor este leito cândido?
— Eu não procurei nada, eu achei.
— E com que intenção se deitou?
— Eu? Sei lá!
— Ah! Não sabe? Pois sei eu. E o Madeira vibrou a bengala. O Lins, sentindo a bordoada, levantou-se de um salto:
— Espere! Não bata! Não bata! Espere, eu explico-me. Não bata assim, eu sou seu hóspede...
— Então explique-se.
— O senhor disse que eu ultrajei a senhora...?
— Sim, senhor!
— Pois não briguemos por isso: se eu ultrajei, caso. Disse-me o velho Madeira que custou a conter o riso, mas para manter a força moral, agarrou o Lins por um braço e levou-o até à porta da rua. A pobre senhora ficou de cama e mandou rezar uma missa em ação de graças por ter escapado com o seu voto incólume.
— É fantástico!
— Isso não é nada. O Lins tem casos interessantíssimos: é a vida mais cheia de peripécias cômicas que conheço. Sabe que ele anda agora apaixonado...?
— Por uma menina, uma vizinha.
— Sim, que tem a perna direita como ele tem a esquerda. Diz ele que vai casar para estabelecer o equilíbrio.
Riram, mas Anselmo levantando-se, lançou um olhar de inspeção às paredes do atelier e, plantando-se no meio da sala, perguntou:
— Então já se pode viver da pintura no Brasil?
O pintor encarou-o com espanto e baixando a cabeça, sorriu tristemente.
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— Não entremos nesse particular, meu amigo. Se alguém vive de quadros no Brasil não é propriamente o artista, é o dourador. Vou contar um fato significativo e perfeitamente característico. Um dos homens que, entre nós, passam por entendidos em Arte, encomendou-me um quadro para a sua galeria, mandando-me, num envelope, um barbante que era a medida da tela e explicava: "Faça-me o quadro pela medida que aí vai, nem mais, nem. menos, porque é o espaço que tenho na parede." Comecei o trabalho e confesso que não fui de todo infeliz... se as frutas não eram como as do Paraíso nem por isso mereciam ser atiradas ao lixo. Envernizada a tela, mandei um aviso ao homem que, três dias depois, apareceu aqui. Mostrei-lhe o trabalho. Ele, com um ar entediado, pôs o pince-nez e, sem dar atenção à tela, fitou-me o olhar sobrecenho:
— Mas não está pronto.
— Sim, senhor.
— Como! E a moldura?
— Ah! O senhor queria que eu pintasse a moldura?
— Não que a pintasse, queria uma moldura dourada de um palmo. Não veio a medida?
— Não, senhor, talvez tenha ido para a casa do Vieitas.
— Ah! Bem... E, sem mais preocupar-se com o trabalho, contando as notas, insistiu: E o senhor cingiu-se à medida?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.