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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Durante a conferência pensei no Franco. Cada uma das opiniões do professor, eu aplicava onerosamente ao pobre eleito da desdita, pagando por trimestre o seu abandono naquela casa, alaguei do desprezo. Lembrava-me do desembargador em Mato Grosso e da carta que eu lera e da irmã raptada, da vingança extravagante dos cacos, da timidez baixa das maneiras, da concentração muda de ódios, dos movimentos incompletos de revolta, da submissão final de escorraçado que se resigna. Tive pena.

Depois da conferência fui visitá-lo.

Estava de cama no salão verde, à direita, perto das janelas. Andava adoentado desde a última vez que fora à prisão.

Embaixo da casa. Fazia-se entrada pelo saguão cimentado dos lavatórios; sentia-se uma impressão de escuro absoluto; para os lados, a distancia, brilhavam vivamente, como olhos brancos, alguns respiradouros gradeados daquela espécie de imensa adega. O chão era de terra batida, mal enxuta. Impressionava logo um cheiro úmido de cogumelos pisados. Com a meia claridade dos respiradouros, habituando-se a vista, distinguia-se no meio uma espécie de gaiola ou capoeira de travessões fortes de pinho. Dentro da gaiola um banco e uma tábua pregada, por mesa. Sobre a mesa um tinteiro de barro. Era a cafua.

Engaiolava-se o condenado na amável companhia dos remorsos e da execração; ainda em cima, uma tarefa de páginas para a qual o mais difícil era arranjar luz bastante. De espaço a espaço, galopava um rato no invisível; às vezes vinham subir às pernas do condenado os animaizinhos repugnantes dos lugares lôbregos. À soltura surgia o preso, pálido como um redivivo, espantado do ar claro como de uma coisa incrível. Alguns achavam meio de voltar verdadeiramente abatidos.

Franco saiu doente.

Alguns colegas mostravam interesse por ele. Franco respondia com aspereza; não tinha nada! Eram todos culpados; havia de adoecer, havia de adoecer gravemente para que tivessem remorsos, eles mesmos, o Silvino, Aristarco, todos os seus algozes! Raciocinava como as vitimas da antiga escola, que se deixavam morrer fiadas no espectro. E ocultou que sofria.

Devorou-o por semanas uma febre ligeira, mas impertinente. Expunha-se à soalheira, ao sereno, de propósito.

Um dia não pôde levantar-se.

Dorzinha de cabeça, explicava. Vinham-lhe náuseas, ele corria à janela. Embaixo havia um pé de magnólias, copado como um bosque; ele no intervalo dos arrancos entretinha-se em aprumar o fio visguento do vômito contra as amplas flores alvas.

Encontrei-o mal.

Com a cabeça afundada no travesseiro, sumido sob a porção de cobertores que os vizinhos haviam cedido, afetava o descuido infantil, na fisionomia, a indiferença horripilante, suprema dos que não vão longe. Fiquei surpreendido e aterrado.

O médico, a chamado de Aristarco, viera duas vezes. Condenou a idéia de remover-se o doente; recomendou cuidado com as vidraças; diagnosticou uma febre qualquer, redigindo o récipe, partindo ambas as vezes com a discrição hermética que faz a importância da classe.

Perguntei ao Franco como passava. Ele agitou devagar as pálpebras e sorriu-se. Nunca lhe conheci tão belo sorriso, sorriso de criança à morte. Oito horas da noite. O gás atenuado produzia eflúvios contristadores de claridade. Retirei-me sem aprofundar a vista pelos outros dormitórios, em cujas vidraças espelhantes devia passar sucessivamente a minha sombra. Procurei o diretor e comuniquei-lhe os meus terrores.

No dia seguinte, um domingo alegre, Franco estava morto.

O correspondente compareceu em pessoa para as indispensáveis

providências. Transferiu-se o corpo para a capela, onde se erigia a essa. Aristarco chorou; mas o saimento foi modesto; não convinha ao colégio o aparato de um grande enterro, pregão talvez de insalubridade.

Eu nada vi; quando subi ao salão verde novamente, estava tudo acabado. Alguns rapazes revolviam curiosos na gaveta do Franco o espólio da morte, uma escova de dentes esfiapada, tingida do carmim de um pó chinês, uma velha correia sem fivela, uma fotografia gorda de mulher despindo os seios, cartas à-toa e um maço considerável de boas notas, arranjadas ninguém sabe como, com assinaturas falsas de professores, e o nome de Franco, fraude de sucesso com que o pobre pretendia maravilhar o magistrado de Cuiabá.

Desmanchando-se a cama, caiu dos lençóis um cartão; uma gravara, Santa Rosália! a minha padroeira desaparecida. Morrera talvez beijando-a, o pária.

Pouco tempo depois, o Ateneu em festa.

(continua...)

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