Por Camilo Castelo Branco (1882)
– É de co espirituo – respondeu o Simeão, que sabia ajudar à missa.
Seguiram-se vários Oremus e deprecações, e a Ladainha de Nossa Senhora; mais outros Oremus, e a detestação da energúmena, uma estirada que principiava: E tu, Demónio maldito, com que autoridade intentas possuir jamais meu corpo ou molestarme por modo algum? Marta rejeitou o livro, e disse que não podia ler nem estar de joelhos; que tinha vágados e que se queria ir deitar. Mas o exorcista, severo e formidável no seu ministério – que não, que não se ia deitar, que não lhe fugia, que se pusesse de joelhos a seus pés! Ele então, segundo a rubrica do livro director, sentou-se, cobriu-se, voz grave e horrível, virado contra o Demónio, como juiz para tal réu já convencido, aspergiu a possessa de água benta, ululando: Asperge me, Domine... e recomendou aos circunstantes que apagassem duas velas, e não dessem palavra. Profundo silêncio. Ouvia-se apenas o zumbido das moscas que se esvoaçavam do tecto atraídas pelo calor da luz única, e pousavam na fronte chagada do Cristo. O recinto era espaçoso e quase em trevas. A vela, encoberta pelas curvas laterais do oratório, não alumiava senão o curto espaço da projecção em que Marta, retraída num terror, tinha os dedos das mãos postas, chegadas aos lábios, como se quisesse abafar os suspiros.
Passados minutos, o exorcista começou a conjurar e ligar o Demónio em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo, tratando-o de imundo, afrontando-o bravamente com epítetos que deviam ofender o mais desbragado patife. Marta fez um movimento de aflitivo desabrimento; parecia querer fugir; mas o padre prendeu-a com a estola, em harmonia com o Brognolo: Se não estiver quieta, pode-a prender com uma estola. Feitas novas e mais terríveis conjurações, o exorcista levantou-se com pavorosa solenidade, e exclamou: Exurge, Christe! adjuva nos! Levantate, Cristo, e auxilia-nos!
O egresso continuava as evocações ao Cristo, quando Marta caiu sem acordo.
– Vitória! – exclamou o exorcista – vitória!
E, mostrando ao brasileiro una página do livro: ouça lá, Sr. Feliciano: O sinal mais certo de que o Demónio obedeceu e se retirou de todo é o que a sagrada Escritura nos expõe no capitulo IX de S. Marcos: – Deixar a criatura por terra algum tempo como morta. Isto se viu no endemoninhado surdo e mudo que Cristo nosso bem curou, e do qual diz o texto: Et jactus est sicut mortuus. Depois, com júbilo, limpando o suor:
– Podem levá-la, deitem-na, ponham-lhe as relíquias todas debaixo do travesseiro.
Os dois não podiam facilmente levantá-la; na rigidez, como empedernida do corno, parecia colada ao pavimento. O brasileiro pedia ao exorcista que a amparasse por um dos braços; mas o frade, artista austero, respondeu que lhe era defeso pôr as mãos nas possessas. E, de feito, Carlos Baucio, na Arte do Exorcista, legisla: que os exorcistas não ponham as mãos fisicamente sobre a criatura principalmente sendo mulher (propter periculum), pois que as mulheres nem com o sinal-da-cruz se devem tocar – Mulieres nec signo crucis sunt tangendae.
Marta passara a noite muito agitada, febril, com delírio; dava risadinhas muito argentinas, falava no José Alves; sacudia a roupa com frenesi, e, quando emergia do torpor, sentava-se no leito a olhar para o tio, com uma fixidez repelente. Feliciano não se deitara, e de madrugada disse ao irmão que fosse chamar o médico, que a Marta estava com um febrão; e que levasse o Diabo o frade para as profundezas do Inferno e mais os exorcismos. Já quando era dia, o brasileiro foi descansar um pouco na cama de D. Teresa, porque receava que se lhe pegasse a febre da mulher. Às nove horas, a governanta foi acordá-lo, muito alvoraçada, para lhe dizer que a Srª D. Marta tinha saído sozinha ao nascer do Sol e que uma mulher a encontrara já perto da casa do vigário de Caldelas, a correr, que parecia uma doidinha. Frei João recebeu também a nova da fuga, quando acabava de dizer missa em acção de graças pelo triunfo obtido sobre o Demónio. O médico chegava ao mesmo tempo, e informado das cenas dos exorcismos, disse ao varatojano injúrias que o frade não tinha dito ao Diabo; chamou ao brasileiro e ao irmão corja de estúpidos, e partiu para Caldelas com o Feliciano. O frade, insultado pelo médico, e pelos modos bruscos e desabridos do brasileiro, citou urnas palavras de Jesus que manda sacudir o pó das sandálias no limiar da casa dos ímpios, e foi-se embora. Seguiram-no algumas beatas num alto choro por longo espaço; e, quando ele desapareceu no cotovelo da estrada, houve delas que arrancavam cabelos, cheios de lêndeas; outras davam-se bofetadas, e as mais histéricas guinchavam uivos estridentes.
O Melro, o taverneiro, o compadre do Feliciano, quando elas lhe passaram à porta a chorar, atrás do missionário, saiu fora, e disse-lhes com um racionalismo brutal:
– Ah grandes coiras!
CONCLUSÃO
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.