Por Lima Barreto (1909)
Floc sofria alguma coisa; havia momentos em que se sentia patente a lata intima que se travava nele. Ficava minutos inteiros calado, imóvel, a olhar perdidamente as coisas... Nada quisera, pois estava à espera de uma reorganização na diplomacia para obter o lugar de primeiro secretário. Era o seu sonho a diplomacia, o paraíso a sua felicidade. A todo o momento falava-lhe nos hábitos, nos costumes, na maneira de redigir notas. Uma vez, contava ele aos colegas, na recepção do ministro da Alemanha, a filha do ministro da Guerra... Isto fora em Quito e enchia de pasmo ver de que maneira, nos lábios de Floc, a vida de Quito era elegante e soberba. E ele rematava a narração liricamente:
— Oh! A diplomacia! Vocês não imaginam o que é! É a mais deliciosa vida que há... Entra-se em toda a parte, têm-se os melhores lugares; é-se cercado, amimado... Uma delícia! Pode-se ser burro ou inteligente que é o mesmo! O secretário da Inglaterra, M. Lodge, era uma besta, mas uma besta perfeita... Alto, vermelho que nem um tomate, desengonçado, incapaz de dar um passo de valsa ou marcar um cotillon; entretanto, parecia um rei nas salas... Mas era a Inglaterra, rica e opulenta, que estava atrás dele, e era também o prestigio da profissão que o aureolava...
E o Rolim ouvia tudo aquilo com os lábios entreabertos, a fisionomia parada e uma grande expressão de pasmo e assombro em toda ela. Quando Floc acabava, ele indagava:
— E mulheres, hein?
— Ora! Às dúzias... Uma vez, no baile do ministro dos Estrangeiros, no palácio da Plaza de la Concepción...
E Rolim voltava a sonhar aquele paraíso diplomático, cheio de mesuras e cumprimentos, de etiquetas complicadas, mas cheio também de huris de luxo e tratamento.
Em começo, logo após a mutação do jornal, o lindo repórter pedira um lugar na diplomacia ou no corpo consular; mas o ministro convencera o diretor que era desmarcado o pedido. Prometera-lhe o ministro um lugar de amanuense na Secretaria do Estado, para o seu repórter; e depois, com o tempo, talvez fosse possível transferi-lo para o corpo consular. Rolim não quisera. Temia que a sua ignorância fosse posta a claro na redação dos ofícios. Para ele, só serviam os lugares de chefe, de diretor, em que só se tem que ter presença e assinar papéis. Foi então que vagou o cargo de subdiretor da Repartição Cartográfica e foi nomeado, para superintender os respectivos trabalhos geodésicos, que de há muito estavam em começo.
Meneses, tímido sempre, não se animava a pedir coisa alguma. Continuava obscuramente, pacientemente, a estudar, a ler, e a contribuir para a glória e para a fortuna do doutor Loberant. Surdo, falando com dificuldade, muito feio, pouco conversava na redação; mas eram constantes as perguntas de uns e de outros sobre isso e sobre aquilo. Ele respondia com a sua voz fanhosa e retomava o serviço com resignação, automaticamente, e assim enchia os dias e os anos.
Aires d'Ávila e Oliveira não tinham querido emprego. Ao primeiro, a não ser de presidente da República ou diretor do Banco do Brasil, não havia colocação que pudesse custear os seus gastos. O que ganhava no jornal era insuficiente para as passagens e os charutos; o resto ele arranjava. Devia a todo o mundo e os credores quase formavam cauda na redação. Era uma mania. A uns dizia: “Procure-me em casa”; a outros ralhava: “Aqui não lhe posso atender, estou escrevendo... Procure-me no escritório”. Ao que o cobrador retrucava: “Mas Vossa Excelência já me disse que só aqui”. — “É — respondia — Mas... Bem... É melhor você vir para a semana”...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.