Por Coelho Neto (1906)
— Pois sim. Mas não faltes.
— Não falto.
— Então até logo. — Até logo.
Acompanhou-o à escada. Ainda de baixo ele insistiu:
— Olha lá!
— Não falto.
CAPÍTULO XVII
Na rua, Paulo respirou desafogadamente como se houvesse escapado a um perigo e, cheio ainda da volúpia que lhe inoculara aquele ambiente, deteve-se na calçada sem ânimo de partir, como se uma força misteriosa o prendesse, o atraísse, o arrastasse, solicitando-o para o amor.
Por que teria ela insistido em mostrar-lhe o quarto com tanto despudor? por simples vaidade ostentosa ou para martirizá-lo vingando-se, com uma tortura sensual, de tudo quando ele lhe fizera: das pirraças, das violências, das grosserias, de todas as afrontas? Não compreendia aquela visita ao aposento íntimo senão como uma premeditada provocação, ainda agravada com aquela roupagem leve que mal pousava sobre as carnes, deixando visíveis todas os contornos, realçando todos os relevos, numa excitante exposição, apenas velada pela discrição de um leve tecido, de umas rendas soltas.
Teve um vivo movimento de revolta; logo, porém, lembrando-se do envelope que recebera, abriu-o e desdobrou uma nota de duzentos mil-réis. Guardou-a de novo. Passava um bonde, tomou-o, saltando à porta de casa. Dona Júlia recebeu-o com recriminações carinhosas.
— Tu estás doido, meu filho!? Para que tudo isto? Nem eu tenho lugar para meter tanta coisa. Isto vai estragar-se. Imagina o dinheirão que está aqui.
A mesa estava abarrotada de latas, frascos, embrulhos, pacotes; grandes sacos de papel espocavam repletos. Pelo chão, junto à parede, havia caixotes, gordos sacos acaçapavam-se, empilhavam-se latas. Paulo, de mãos nos bolsos, sorria superiormente.
— Estamos livres dos caixeiros, pelo menos durante dois meses.
— Tu não podes ter dinheiro na mão. E como foi? Tiraste alguma sorte?
— Ganhei.
— Onde? — Por aí.
— Olha lá, Paulo...
Ele voltou-se arrebatadamente:
— Olha lá o quê, mamãe? Quem sabe se a senhora pensa que roubei?
— Não diga isto... Mas não quero que te sacrifiques por minha causa.
— Qual sacrifício! Fiz um bom negócio. Quando eu digo que a senhora não tem confiança em mim. Eu trabalho, mamãe, — afirmou com empáfia. — Entramos nos dias prósperos. Quer ver? Prepare-se para um choque. — E, tirando o envelope da bolsa, entregou-o. — Veja.
— Que é?
— Veja, insistiu.
Ela abriu, tirou a nota e, tomando-a em dois dedos, ficou a mirá-la.
— Duzentos mil-réis.
— Sim, senhora. Mas dou-lhe um doce se adivinhar de que mãos vem esse dinheiro.
— Do compadre. — Pois sim.
Pôs-se a passear pela sala fumando.
— Adivinhe.
— Eu posso lá adivinhar. — De Violante.
Ela estremeceu e, boquiaberta, os olhos escancelados, pálida, não teve uma palavra, não se arredou de junto da mesa, amparando-se, sentindo as pernas vergarem. Oscilava arquejando como se lhe faltassem o solo, o ar, a luz. Paulo precipitou-se, amparou-a:
— Então, que é isto, mamãe? Sente-se.
Foram-se-lhe os olhos enchendo d'água. De repente, dobrando-se sobre a mesa, rompeu a chorar, soluçando.
— Ora aí está! Trago uma notícia alegre e a senhora recebe-a assim.
Felícia apareceu à porta da sala atarantada, com a trunfa desfeita, olhando e sorrindo idiotamente. Contemplou um momento o grupo e, com um muxoxo, tornou para a cozinha. Dona Júlia levantou a cabeça e, fitando os olhos no filho, que a afagava, perguntou:
— Onde está ela?
— Em Botafogo.
— Boa?
— Forte e bonita como nunca!
— Como conseguiste descobri-la? — Encontrei-a ontem no teatro.
E referiu toda a cena da Recreio; depois a visita que fizera à casa Botafogo, descrevendo tudo com entusiasmo, muito parcial da irmã, louvando-a, defendendoa. "Fez muito bem. É feliz." Dona Júlia ouvia sem dizer palavra, cabisbaixa, e as lágrimas caiam-lhe dos olhos em grossas bagas. Quando ele anunciou a visita prometida para a noite, a velha levantou a cabeça e cravou nele os olhos, muda e comovida, com espanto.
— Ela vem cá?
— Prometeu. Vem, com certeza; afirmou.
— Eu não devia recebê-la, — disse, ressentida. — Depois do que fez...
— Ora, mamãe.
— Eu é que sei o que tenho sofrido, as lágrimas amargas que tenho chorado. Outra não a recebia. — Levantou-se, ficou um momento parada, indecisa, o olhar perdido e lacrimoso, e repetiu por entre soluços: — Não devia recebê-la.
— Pois é contar com ela logo à noite; e fazer o que eu fiz, se não quer que ela nos deixe de visitar.
— Que é?
— Nada de recriminações. Agora é tarde, o mal está feito e não há remédio.
Estive com ela. Conversamos, mas não lhe fiz a menor censura.
— Violante! — murmurou a velha, como se falasse ao coração. — Enfim...
— Eu volto à cidade, tenho ainda que fazer. Venho jantar. E tenha calma. Hoje a nossa casa deve enfeitar-se como a do velho da parábola no dia do regresso da filha pródiga. Até logo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.