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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Qual artigo de apresentação: digo duas coisas: os intuitos literários do jornal e nada mais.

— Pois é isso.

— E tu?

— Eu dou a crônica, um soneto...

— Podias dar um trecho da tua revista.

— Como? Pois não te cansas de dizer que devo abandonar esse gênero e queres dar, no primeiro número do jornal, um trecho da ignomínia?

— Perdão, eu digo mal das revistas, mas elogio incondicionalmente o teu verso. Aquele monólogo do Prólogo é um primor. Não concordo com as cantorias, isso não, mas dou o justo valor à obra da Arte.

— Bom, estamos combinados. — Perfeitamente.

Artur voltou-se para Anselmo:

— Em que jornal está escrevendo?

— Na Gazeta da Tarde.

— Faz uns folhetins aos sábados. Tem talento, mas abusa muito do adjetivo e tem a mania do Oriente.

— É a coqueluche literária.

— Mas vicia.

— Não, é um meio fácil de fazer vocabulário: ensaio-me no descritivo para ganhar vigor, colorido e ductilidade.

— Não, você é exuberante, é excessivo. Senhor, o ideal do artista deve ser a simplicidade. Há a simplicidade-pobreza, que facilmente se reconhece e há a

simplicidade-distinção; e é mais fácil ser sóbrio do que ser abundante. A idéia só se manifesta num termo, o resto, versas. Mas vocês não entendem assim: para exprimirem a coisa mais comezinha deste mundo deitam abaixo dicionários, é uma mania. O Artur levantou-se: Já vais?

— Já, tenho ainda a minha seção.

— Então não queres romper?

— Não, não vejo motivo.

— Ah! Não vês?

— Não vejo. E uma agressão injustificável. — Pois sim.

O Artur levantou-se, ofereceu a casa a Anselmo e, despedindo-se do Moraes, disse sorrindo:

— Então estás decidido a demolir? — A arrasar!

Ainda o Artur não havia desaparecido, quando Anselmo se pôs de pé, resolutamente:

— Adeus! Não me posso demorar mais. Tenho um amigo à minha espera.

— Quem é?

— O Estêvão.

— Que Estêvão?

— O pintor.

— Ora! Deixa o pintor, vamos conversar.

— Não posso; e já vou tarde.

— Que horas são?

— Três e meia.

— Chii! Adeus! Até amanhã. Olha os contos. — Não esqueço.

Saiu apressado porque, efetivamente, prometera estar às três horas com o pintor para ver a sua última composição.

CAPÍTULO XVI

O atelier era na rua General Câmara, um pardieiro sombrio e lôbrego. Subiase por uma velhíssima e desconjuntada escada que rangia e estalava, ameaçando ruir. Ao alto tomava-se um corredor onde nunca havia entrado raio de sol, direito aos aposentos do artista negro.

Na sala, iluminada por duas janelas, tinha ele o cavalete e o banco. As paredes estavam literalmente cobertas de trabalhos: eram telas de gênero, algumas em moldura, esboços a carvão, manchas, desenhos, caricaturas, vários estudos do natural, entre os quais uma expressiva cabeça de lazarone. Mas o que atraía os olhares era a grande quantidade de frutas: abacaxis, mangas, algumas descascadas mostrando a polpa dourada, racimos de uvas, pencas de bananas, cachos de ameixas, corbelhas de morangos, cajus, melões, melancias, todos os dons de Pomona ali estavam esplendidamente copiados. O Lins costumava dizer, quando ia ao atelier do artista: "Vou hoje à quitanda."

Quando Anselmo entrou, o pintor, de pé no meio da sala, cujo soalho desaparecia entulhado de papéis, contemplava o quadro que terminara.

— Cá estou.

O pintor voltou-se surpreendido e, dando com o rapaz, avançou sorrindo, de mãos estendidas. Estava em mangas de camisa, descalço.

— Oh!

— Já não contava comigo? — Não, contava.

A sala tresandava a terebintina. Um gato gordo, deitado sobre larga pasta atochada, lambia as patas preguiçosamente.

— Está aqui a obra, disse o pintor timidamente. Era uma grande tela de um metro: frutas — enorme cesto transbordante: mangas, abacaxis, laranjas, uvas, pitangas. As cores eram admiráveis e sentia-se a pubescência dos pêssegos, as pitangas eram como grossas gotas de sangue — uma maravilha! Anselmo teceu os mais vivos elogios ao artista.

— Magnífico! O Lins já me havia falado.

— Ah! O Lins é muito meu amigo. Anselmo sentou-se no tamborete diante da tela e o artista continuou, sorrindo: O Lins, grande pândego! Já me pregou uma peça...

— Que foi?

— Ora! Troça. Encomendaram-me um quadro — o Lias estava passando uns dias comigo, depois da cena em casa do Madeira. Tratei de escolher as frutas. Como o amador era inteligente e rico escolhi o que havia de melhor: pêras, uvas, mangas, marmelos, metade de um melão que arranjei, por muito favor, num hotel conhecido, figos e por aí... Fiz um embrulho cuidadoso e trouxe tudo para a casa. Como era tarde não quis começar o trabalho e saí para jantar. Levaram-me ao teatro, andei em pagode até às tantas! Quando cheguei à casa já o Lins dormia profundamente. Acordando, tratei de ver se as frutas haviam sido tocadas pelos ratos e achei apenas os marmelos e duas talhadas de melão. Eu não tinha mais vintém... Imagine! Fiquei desesperado. Despertei o Lins.

— Foste tu que comeste as minhas frutas?

— Hein?

— As frutas.

— Comi ontem.

— Ora, Lins... Eram os modelos.

— Que modelos, homem?

— Para o meu quadro.

— Eu logo vi que eram frutas de quadro porque as mangas sabiam horrivelmente à tinta a óleo.

(continua...)

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