Por Padre Antônio Vieira (1670)
102. Os filósofos distinguem dois gêneros de negações: umas que se chamam puras negações, e outras a que deram nome de privações. A pura negação nega o ato, e mais a aptidão; a privação supõe a aptidão, e nega o ato. O silêncio é negação de falar, mas com grande diferença no homem e na estátua, porque a estátua não fala, nem é apta para falar, senão inepta: porém no homem é negação e privação, porque, ainda que o homem não fale, é apto e capaz de falar. Daqui se segue que, assim como o silêncio na estátua é incapacidade, e no homem virtude, assim o que se nega ao indigno é pura negação, a qual o afronta, e o que se nega ao digno é privação que o honra e acredita, e tanto mais quanto for mais digno. Tais são as negações que os príncipes fizeram e devem fazer aos seus validos. São privações com que não só se acredita a si, senão também a eles, porque o maior crédito do valido é que a sua privança seja privação. Por isso os validos, com mais nobre e heróica etimologia, se chamam privados. E quando eles folgarem de o ser, ou o príncipe fizer que o sejam, ainda que não folguem, as privações dos privados farão mais toleráveis as negações dos que o não são. E desenganados os demais com este exemplo, nem eles se atreverão a pedir o que se lhes deve negar, nem o príncipe será forçado a negar o que lhe pedirem, ficando livre por este meio de muitas e molestas ocasiões em que, contra o decoro e agrado da majestade, seja obrigado a dizer não.
§IV
Segundo meio de atalhar o não. a justiça e inteireza do príncipe em seus despachos. A inteireza de Catão. Resposta de el-rei Acab a Isaías. Salomão e o castigo de Adonias. Razão da negativa de Cristo. O dar por justiça e o dar por graça. Não cuidem os príncipes que podem tudo porque podem tudo.
103.O segundo meio ou indústria de prevenir e atalhar o não e as ocasiões de o dizer é que o príncipe em todos seus despachos e resoluções seja inteiro, justo e reto, e conhecido por tal. Desta justiça e inteireza – que por outra parte é a sua primeira obrigação – se seguirão dois efeitos notáveis. O primeiro, que ninguém se atreverá a pedir senão o que for justo; o segundo que, pedindo todos somente o justo, a todos concederá o príncipe o que pedirem, e nunca dirá não.
104.O mais justo, reto, inteiro e constante homem que houve entre os romanos foi Marco Pórcio Catão. E que conseguiu com esta inteireza e constância de sua justiça inflexível? Conseguiu, como refere Plínio, que ninguém no seu consulado se atreveu a lhe pedir coisa que não fosse justa. Assim lho disse com admiração a eloqüência de Túlio: O te felicem, Marce Porce, a quo rem improbam petere nemo audet! Tal será a reverência do governo e tal a felicidade do rei que em todas suas resoluções e despachos observar constantemente a justiça. A justiça, como a definem os teólogos e juristas, não é outra coisa que uma perpétua e constante vontade de dar a cada um o que merece. Se esta vontade – que ordinariarnente é tão mudável nos afetos humanos – for constante e perpétua no príncipe, todos se desenganarão que não hão de alcançar dele senão o que for devido a seus serviços e proporcionado a seus merecimentos. E, por meio deste desengano, conseguirá a felicidade de que ninguém se atreva a lhe pedir senão o que for justo. O te felicem, a quo rem improbam petere nemo audet! Feliz, porque, não se atrevendo ninguém a pedir senão o justo, serão muito menos as petições e requerimentos; feliz, porque, não pedindo ninguém senão o que lhe é devido, haverá com que satisfazer a todos; feliz, porque, sendo as petições e requerimentos justificados, sempre o príncipe concederá o que se lhe pedir, e nunca dirá não. Não é melhor e mais decente, e mais breve, e mais útil, que o não o digam a si mesmos aqueles que haviam de pedir, do que dizer-lho a eles o príncipe depois de pedirem? Pois isso é o que sucederá, se ninguém se atrever a pedir senão o que merecer.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.