Por Padre Antônio Vieira (1674)
17. Et datae sunt mulieri alae duae aquilue magnae, ut volaret (Apc. 12,14): E a esta mulher – diz S. João – foram-lhe dadas duas asas da águia grande, para que voasse com elas. – A águia é a rainha das aves; e mulher com asas de águia é mulher com prerrogativas reais, é mulher com circunstâncias de rainha. Mas notai que não só diz que se deram à mulher duas asas de águia, senão duas asas de águia grande: Datae sunt mulieri alae duae aguilae magnae. Agora pergunto: Qual é neste mundo a águia grande, e quais são as duas asas desta águia? A águia grande não há dúvida que é Espanha, a mais dilatada monarquia de todo o universo, águia real, coroada de tantas coroas. As duas asas desta águia também não há dúvida que são o Reino de Aragão de uma parte, o Reino de Portugal de outra. Não é divisão ou distinção minha, senão de todos os cosmógrafos, os quais dividem a Espanha em três partes, ou três Espanhas: Hispania Betica, Hispania Tarraconensis, Hispania Lusitanica. O corpo e a cabeça desta grande águia é a Espanha Bética, que compreende as duas Castelas. Uma das asas é a Espanha Tarraconense, isto é, Aragão, que de Tarragona se disse Aragona; a outra asa é a Espanha Lusitânica, isto é Portugal, que de Luso se disse Lusitânia. Ao ponto agora. Tendo o céu engrandecido tanto a Isabel, tendo-a sublimado a um lugar tão alto de perfeição, tendo depositado nela tudo o precioso e lustroso de seus tesouros e graças, que fez Deus? Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae: ajuntou e acrescentou a esta prodigiosa mulher as duas asas reais da grande águia de Espanha: por nascimento, a de Aragão, e por casamento, a de Portugal. E para quê? Ut volaret: para que, levantada sobre estas duas asas a santidade de Isabel, o grande dela crescesse à maior grandeza, o alto subisse à maior altura, o luminoso à maior luz, o celeste à mais celeste, e à mesma santidade a mais santa. Santa Isabel, porque santa, e maior santa, porque rainha. Santa, porque santa: por isso colocada no céu: Signum magnum apparuit in caelo; e maior santa, porque rainha: por isso, depois de colocada no céu, acrescentada com asas de águia e com circunstâncias reais: Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae.
18. E se não, voemos nós também com as mesmas asas, e subamos do céu estrelado, onde a viu S. João, ao céu empíreo, onde a viu Davi: Astitit regina a dextris tuis in vestitu deaurato, circumdata varietate (Sl. 44, 10): Vi – diz Davi – uma rainha colocada à destra de Deus, a qual estava vestida com duas galas diferentes: por dentro, com uma roupa bordada de ouro: In vestitu deaurato; por fora, com outra roupa de cor vária: Cincumamicta varietate. – Eis aqui como está a nossa rainha santa no céu, vestida e adornada com duas galas: uma por baixo, e por dentro, que é o vestido de rainha que vestiu primeiro, e por isso bordado de ouro: In vestitu deaurato; outra por cima e por fora, que é o hábito de Santa Clara, que vestiu depois, e por isso de cor vária – pardo e branco: circumamicta varietate. E qual destas duas galas a faz mais majestosa e mais gloriosa no céu: a de dentro, ou a de fora, a de brocado ou a de burel, a de rainha, ou a de religiosa? Digo que ambas, mas porque uma assentou sobre a outra. Porque o hábito de religiosa assentou sobre o de rainha, porque o burel assentou sobre o brocado, porque o vestido de fora assentou sobre o de dentro; daí é que lhe vem toda a graça e toda a formosura. O mesmo Davi o disse: Omnis gloria ejus ab intus; in fimbriis aureis, circumamicta vatietate:19 a graça e a formosura ao vestido de fora toda lhe vem do vestido de dentro. O hábito de S. Francisco e de Santa Clara é uma das mais vistosas e mais bizarras galas que se trajam no céu. Mas esta mesma gala em Isabel, assentada sobre vestiduras reais, é muito mais vistosa, muito mais bizarra e muito mais formosa, porque toda a graça e formosura lhe vem das guarnições e bordaduras de ouro, que por baixo da orla estão reluzindo: Omnis gloria ejus ab intus, in fimbriis aureis.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.