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#Sermões#Retórica

Sermão da Bula da S. Cruzada

Por Padre Antônio Vieira (1647)

O sangue de Cristo foi o preço de nossa redenção, e como este preço era infinito, porque uma só gota bastava para remir mil mundos, tão infinito foi o que sobejou depois de remido, como era infinito o que se despendeu para o remir. E que se fez deste preço que sobejou? Assim como do que se despendeu se pagou o resgate, assim do que sobejou se fez um depósito. E este depósito de preço e valor infinito são os tesouros da Igreja, que misteriosamente estavam encerrados no lado de Cristo. Daqui se entenderá a razão porque, tendo o Senhor derramado tanto sangue até a morte, ainda reservou no lado mais sangue para o derramar depois de morto. E porque, se no ponto da morte de Cristo ficou o mundo remido? Porque o sangue derramado até a morte significava o preço necessário à redenção, que se despendeu, e o sangue que se derramou depois da morte, significava o preço superabundante, que sobejou. Do que se despendeu na paixão, como de resgate, se remiu o mundo; do que sobejou no lado, como de depósito, se formou e enriqueceu a Igreja. Dormiente Adam, fit Heva de latere: mortua Christo, peforatur latus, ut supereffluant sacramenta, unde formetur Ecclesia:12 Assim como do lado de Adão, diz Santo Agostinho, se formou Eva, assim do lado de Cristo saíram os sacramentos, para que deles, como de matéria superabundante, se formasse a Igreja. Isso quer dizer a palavra supereffluant, que significa sair como coisa superabundante, supérflua, e que sobeja. Falou Agostinho com tão grande lume da teologia, porque estes são os próprios termos de que usam os teólogos quando falam do tesouro da Igreja, que se compõe principalmente da satisfação infinita do sangue de Cristo, que superabundou e sobejou do preço da redenção. Thesaurus satisfactionum Christi supereffluentium;13 diz com todos os doutores ortodoxos o Cardeal Belarmino. E este é o tesouro donde a Igreja tira as graças e indulgências que concede e aplica aos fiéis para que satisfaçam à justiça divina pelas culpas ou penas de que lhe são devedores.

E se alguém desejar, na semelhança de Santo Agostinho, que também é de S. Paulo (Ef. 5,32), a perfeita proporção da figura com o figurado, e me perguntar como se verifica, ou pode verificar do lado de Adão ser formada Eva, não da porte, ou matéria necessária, senão da superabundante e supérflua, eu o direi, satisfazendo a esta e a outra grande dúvida. Diz o texto sagrado, que tirou Deus uma costa do lado de Adão, e que desta costa formou a Eva; mas duvidam, e com muito fundamento os teólogos, que costa de Adão foi esta, porque se era uma das costas de que naturalmente se compõe o corpo humano, segue-se que o corpo de Adão ficou defeituoso e imperfeito, o que se não deve admitir, sendo Adão o primeiro homem, e o modelo original de todos os homens que dele haviam de nascer. E se o corpo de Adão ficou perfeito, antes perfeitíssimo (como era bem que fosse), que costa foi esta sua, de que Eva se formou? Responde Santo Tomás que o corpo de Adão, quando ao princípio foi criado, tinha uma costa demais em um dos lados, e que deste lado e desta costa, que nele sobejava, foi formada Eva.14 Pois, assim como no lado de Adão criou Deus uma porte superabundante e supérflua de que tirou a matéria necessária à formação de Eva, assim no lado de Cristo depositou outra parte também superabundante e supérflua, necessária à formação e reformação da Igreja, que foi o que sobejou do preço infinito da redenção. E estes são os tesouros das graças que hoje se nos concedem, tirados do depósito infinito e inexausto do lado de Cristo aberto: Latus ejus aperuit.

§VI

Aperuit: Abriu-se o lado de Cristo. O livro fechado do Apocalipse, excelente representação da Bula da Santa Cruzada. Os sete selos do livro, e os sete impedimentos à sua abertura: pecados reservados, excomunhões, interditos, votos, enfermidades, dívidas temporais aos homens e espirituais a Deus. Universalidade das graças do lado de Cristo.

(continua...)

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