Por Padre Antônio Vieira (1670)
E se não, perguntemos ao mesmo evangelista nestas suas reflexões tão ponderosas do amor de Cristo, por que não fez menção, nem memória alguma da instituição do Sacramento? Não fundo o reporo na relação tão copiosa que de todos os outros evangelistas fizeram deste sagrado mistério, mas na que S. João não quis fazer. E vede se se argüi bem do seu mesmo texto: In finem dilexit eos; et caena facta.16 Ponderou o extremo do amor com que nos amou Cristo no fim: In finem dilexit eos; fez menção da ceia: Et coena facta; porém do Sacramento instituído na mesma ceia, nem palavra falou. Pois se pondera o extremo do amor, e faz menção da ceia imediatamente depois, por que passa totalmente em silêncio a instituição de um mistério tão soberano, tão admirável, tão amoroso? Porque falou e calou como divino retórico que era. Disse o que fazia ao seu intento, e calou o que não servia. O intento de S. João neste Evangelho não era só provar o amor de Cristo, senão realçar a fineza do mesmo amor: Cum dilexisset, infinem dilexit. E a instituição do Sacramento, ainda que foi amor, e grande amor, em rigor não era fineza. Por isso não diz que se sacramentou, senão que se ausentou; por isso não diz que se deixou conosco, senão que se aportou de nós; por isso não diz que ficou no mundo, senão que se foi do mundo: Ut transeat ex hoc mundo; logo concluiu: In finem dilexil eos, porque ainda que o sacramento foi amor, o ausentar-se foi fineza; ainda que o deixar-se foi amor, o deixar-nos foi o extremo; ainda que o ficar conosco foi amor, o aportar-se de nós foi amor sobre amor: Cum dilexisset, dilexit.
V
Foi maior fineza de Cristo aportar-se de nós que morrer por nós. A despedida de Cristo no Horto, mais violenta que sua própria morte. Os dois cálices da paixão de Cristo: o do Horto e o do Calvário. O cálix da morte e o da ausência.
Temos rendido o braço do escudo; só nos resta o da espada, que é a morte. Muito confia nesta espada o amor, porque traz escrito e gravado nela: Majore charitatem nemo habet, ut animam suam ponat quis pro amicis suis.17 Mas saiba a morte e o amor, se o não sabem, que o nemo não compreende a Cristo. Nemo te condemnavit, mulier; neque ego.18 O ego singular de Cristo, não se compreende debaixo do universal de nemo. O nemo, em respeito do Filho, é como o omnes em respeito da Mãe. Nem o omnes faz argumento contra a pureza da Mãe, nem o nemo contra a caridade do Filho. E para que julgue a mesma vista dos olhos, de que carece a morte e o amor, quanto maior fineza foi no amor de Cristo o aportar-se de nós que o morrer por nós, ponhamos o Horto defronte do Cal vário, e ajuntemos o teatro da despedida com o teatro da morte.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.