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#Sermões#Retórica

Sermão das Lágrimas de São Pedro

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Notável filosofia é a dos nossos olhos no chorar e não chorar. Se choramos, o nosso ver foi a causa, e se não choramos, o nosso ver é o impedimento. Como estes nossos olhos são as portas do ver e do chorar, encontram-se nestas portas as lágrimas com as vistas: as vistas para entrar, as lágrimas para sair. E porque as lágrimas são mais grossas, e as vistas mais sutis, entram de tropel as vistas, e não podem sair as lágrimas. Vistes já nas barras do mar encontrar-se a força da maré com as correntes dos rios? E porque o peso do mar é mais poderoso, vistes como as ondas entram e os rios param? Pois o mesmo passa nos nossos olhos. Todos os objetos deste mar imenso do mundo, e mais os que mais amamos, são as ondas, que umas sobre as outras entram pelos nossos olhos, e ainda que as lágrimas dos mesmos olhos tenham tantas causas para sair, como o sentido do ver pode mais que o sentimento do chorar, vemos quando havíamos de chorar, e não choramos, porque não cessamos de ver. Vejamos tudo nos olhos de Davi, que do ver nos deixou tantos desenganos, e do chorar tantos exemplos.

Morto lastimosamente o príncipe Abner, mandou Davi que todo o exército vestido de luto e arrastando as armas, o acompanhasse até a sepultura, e o mesmo rei o acompanhou também: Porro David sequebatur feretrum (2 Rs. 3, 31). Desta maneira foi marchando e continuando o enterro até o lugar do sepulcro, mas ninguém chorava. Tiram o corpo do esquife, e ainda aqui se não viram nem ouviram lágrimas; metem finalmente o cadáver na sepultura, cerram a porta, eis que começa Davi a rebentar em lágrimas, e todos como ele em pranto desfeito: Cumque sepellissent Abner levavit David vocem suam, et flevit super tumulum: fievit autem et omnis populus (2 Rs. 3,32). Pois se no enterro, e antes de enterrado Abner, nem Davi, nem o exército chora, por que chora tanto Davi, e choram todos com ele no mesmo ponto em que foi metido na sepultura? Porque no enterro, e antes de enterrado, viam a Abner; depois de enterrado, já o não viam. Como a ação de chorar se impede pela resistência do ver, enquanto os olhos viram, estiveram represadas as lágrimas; tanto que não tiveram que ver, começaram as lágrimas a sair. Não puderam chorar os olhos enquanto viram; tanto que não viram, choraram. Sirvam as letras humanas às divinas, e ouçamos aquele engenho, que melhor que todos soube exprimir os afetos da dor e da natureza: Iamque oculis ereptus eras, tum deni que flevi.40 A história pode ser fabulosa, mas a filosofia é verdadeira. Enquanto Ariadne pôde seguir com os olhos a Teseu, estiveram as lágrimas suspensas, embargadas pela vista; mas tanto que já o não pôde ver: Iamque oculis ereptus eras, tirado o impedimento da vista, começaram as lágrimas a correr: Tum denique flevi.

Esta foi a razão ainda natural por que Pedro saiu do lugar onde via, e onde entrara para ver. Saiu para que as suas lágrimas saíssem: Et egressus foras, flevit amare. Entrou para ver, saiu para chorar, porque enquanto a vista tinha entrada, não podiam as lágrimas ter saída. E para que o mesmo S. Pedro nos prove a verdade desta filosofia, diz S. Marcos no texto grego, conforme a interpretação de Teofilato, que saindo S. Pedro do átrio, lançou a capa sobre o rosto, e então começou a chorar: Cum caput obvelasset, flevit (Mc. 14,30). Para Pedro poder chorar, cobriu primeiro os olhos para não ver. Saiu para não ver o que via, e cobriu os olhos para que nenhuma coisa vissem, e quando não viu, nem pôde ver, então pôde chorar, e chorou: Flevit. O pranto mais público que se viu na nação portuguesa, foi quando chegaram à Índia as novas da morte de el-rei Dom Manoel, primeiro e verdadeiro pai daquela monarquia. Estava o vice-rei na Sé, como nós agora, ouvindo sermão, e tanto que lhe deram a triste nova, diz a história que lançou a capa sobre o rosto, e que fazendo todo o auditório o mesmo, começaram a chorar em grito, e se levantou o maior, e mais lastimoso pranto que jamais se vira. Este era o uso dos capuzes portugueses, quando também se usava o chorar. Metiam os capuzes na cabeça até o peito, cobriam e escureciam os olhos, e assim choravam e lamentavam o defunto. Depois que as mortes se não choram, trazem-se os capuzes por detrás das costas, para que nem os olhos os vejam. Não foi assim o luto que Pedro fez pela morte da sua alma; mas porque a quis logo chorar, cobriu os olhos para não ver: Cum caput obvelasset, flevit.

§VI

Para onde se retirou S. Pedro depois da negação? Davi, o Pedro da lei escrita; Pedro, o Davi da lei da graça. As lágrimas de Pedro e o desejo de Jeremias.

(continua...)

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