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#Sermões#Retórica

Sermão do Santíssimo Sacramento

Por Padre Antônio Vieira (1674)

Naquela palavra mare temos todo o quid est, ou todo o porquê da admiração do profeta, e isso mesmo tanto para admirar e estranhar, que apenas se pode dizer sem indecência. Mas não é muito que se diga, pois se vê. Aquele mar, aonde foi parar a parte do Jordão que não parou, é o que nós hoje chamamos Mar Morto, e naquele tempo se chamava Vallis Salinarum, porque sendo estéril de pescado e de toda a coisa vivente, só se tirava dele sal. Pois para correr ao Vale do Sal, se há de deixar a presença e reverência da Arca? Para correr ao Vale do Sal se há de fugir de Deus? Assim é. Para correr ao Vale do Sal, e do sal que algumas vezes é assaz mordaz e picante. Tudo o que vai ver e ouvir a passatempo e gosto vão destes dias, que outras coisas são senão aquelas que a antiga Roma chamava sales, e a moderna sali. Graças, chistes, motes, facécias, bufonarias, metamorfoses de trajos, equívocos de pessoas, transfigurações dos sexos e da espécie, máquinas jocosas, invenções ridículas, enfim quanto sabe excogitar o engenho, a sutileza e a ociosidade para mover a riso. Que diria a severidade do vosso Catão se tal visse? Para isto se vêem cheias as praças, as ruas, os balcões, os teatros; todos a rir, e tudo para rir. E que sendo em suma tão leve e tão ridícula a tentação, triunfe contudo o mundo de nós, e pareça que triunfa do mesmo Deus! Senhor, Senhor, quase estava para vos representar a minha dor, que seria maior decência de vossa divina autoridade retirar-vos ao Sancta Sanctorum de vossos sacrários, que aparecer em público nestes dias. Seja riso aquele riso, mas não seja irrisão vossa. Riam-se os homens do que vêem e do que fazem, mas não pareça que se riem de vós, pois fazem tão pouca conta de vossa presença. Saibam porém os que assim deixam a Deus e o trocam ou vendem por tão vil preço, que Deus, como pregou S. Paulo, non irridetur23 e que lá está guardado um Vae da divina justiça para este riso: Vae vobis qui ridetis, quia plorabitis!24

Esta é, senhores, a representação que vos prometi do vosso problema: Utrum diligatis eum, an non, disputado na história do Jordão, e resoluto diversamente por ambas as partes: uma que parou reverente à presença da Arca; outra que voltou as costas e correu ao mar. Veja agora cada um qual destas partes ou partidos se resolve a seguir. E porque toda a tentação de amar ou não amar a Deus nestes dias se vem a resumir no que se resume a religião ou vaidades deles, que é sacrificar ou não sacrificar o riso, disponhamo-nos animosamente para o sacrifício, e tomemos por exemplar dele um vencedor famoso de semelhante tentação, e tentação também de Deus, como a nossa.

Tentou Deus a Abraão para provar seu amor. São os termos com que fala a Escritura: Tentavit Deus Abraham (Gên. 22, 1). A tentação foi que lhe sacrificasse Isac, o seu amado. E diz S. Paulo que esta tentação de Abraão e sacrifício de Isac foi parábola de Deus: Unde eum in parabolam accepit. Mas como foi parábola, se é história verdadeira? Não quer dizer o apóstolo que não fosse verdadeira história. Quer dizer que foi história e parábola juntamente: história pelo que era, parábola pelo que significava. Saibamos agora. E que significa Isac e o seu sacrifício? Isac significa riso. E ainda que pareça matéria de riso, este riso, na significação de Deus, é a matéria de toda a tentação, e este riso é o que Deus nos manda sacrificar. S. Bernardo: Dicitur tibi, ut immoles Isaac tuum, Isaac enim interpretatur risus: Sabeis, diz Bernardo, o que Deus manda que lhe sacrifiquemos quando manda sacrificar Isac? Manda que lhe sacrifiquemos o riso. Quando mandou a Abraão que sacrificasse o seu Isac, mandou-lhe que sacrificasse o seu filho, e esta foi a história. Quando nos manda que sacrifiquemos o nosso Isac, manda-nos que sacrifiquemos o nosso riso, e esta foi a parábola: Eum in parabolam accepit.

(continua...)

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