Por Padre Antônio Vieira (1655)
Em semelhantes obrigações se viu metida uma hora a Alma Santa, mas vede como ela confessou a sua insuficiência, e depôs o seu escrúpulo: Posuerunt me custodem in vineis; vineam ineam non custodivi: Puseram-me por guarda das vinhas, e eu não guardei a minha vinha (Cânt. 1,6). Pois ao menos, Alma Santa, a vossa vinha, por vossa, por que a não guardaste? Porque a quem entregam muitas vinhas não pode guardar nenhuma. Assim o confessa uma alma que se quer salvar. Confessou a sua insuficiência, e confessa a sua culpa. Se alguém parece que pudera ter desculpa em tal caso, era essa alma, pelo que ela mesma diz: Posuerunt me: Puseram-me. Ainda quando vos pusessem nesses ofícios, tínheis obrigação de depor os ofícios e confessar os erros. E que será quando vós sois o que vos pusestes neles, o que pretendestes, o que buscastes, o que os subornastes, e o que porventura os tirastes a outrem para os pôr em vós? Moisés, aquele grão-ministro de Deus e da sua república, metendo-lhe o mesmo Deus na mão a vara, e mandando-o que fosse libertar o povo, respondeu: Quis ego sum, ut vadam ad pharaonem (Ex. 3,11): E quem sou eu, Senhor, ou que capacidade há em mim para esta comissão? Mitte quem missurus es (Êx. 4,14): Mandai a quem vos possa servir como convém. Oh! ministro verdadeiramente de Deus! Antes de aceitar o cargo, representou a insuficiência, e para que se visse que esta representação era consciência e não cortesia, repugnou uma e outra vez, e não aceitou senão depois que Deus lhe deu Arão por adjunto. Tinha já Moisés muitos anos de governo do povo, muitas cãs e muita experiência; tornou a fazer outra proposta a Deus, e quero referir os termos do memorial, para que se veja quão apertados foram: Non possum solus sustinere omnem hunc populum (Núm. 11,14): Eu, Senhor, não posso só com o peso do governo deste povo. Sin aliter tibi videtui; obsecro, ut inteficias me, et inveniam gratiam in oculis tuis: E quando vossa divina majestade não for servido de me aliviar, peço e protesto a vossa divina majestade, me tire a vida, e receberei nisto muito grande mercê. Não pediu o oficio para toda a vida, nem para muitas vidas, senão que lhe tirasse a vida só para não ter o ofício, e com muita razão, porque melhor é perder o ofício e a vida, que reter o oficio e perder a consciência. E que fez Deus neste caso? Mandou a Moisés que escolhesse setenta anciãos dos mais prudentes e autorizados do povo, e diz o texto que tirou Deus do espírito de Moisés, e repartiu dele por todos os setenta: Auferens de spiritu, qui erat in Moyse, et dans septuaginta viris (Núm. 11,25). Eis aqui quem era aquele homem que se escusou do oficio. De maneira que um homem que vale por setenta homens, não se atreve a servir um só ofício? E vós, que vos fará Deus muita mercê que sejais um homem, atreveis-vos a servir setenta ofícios? Não louvo, nem condeno: admiro-me com as turbas: Et admiratae sunt turbae.
§IV
Quid? O quê? O que faz? Que eleições? O escrúpulo das eleições. A predestinação e a parábola do profeta Isaías. A confissão de Arão e as conseqüências desastrosas do seu pecado.
Quid? Quê? Depois de o ministro examinar que ministro ou que ministros é, segue-se ver o que faz. Um dia do juízo inteiro era necessário para este exame. Quid? Que sentenças? Que despachos? Que votos? Que consultas? Que eleições? Mas paremos nesta última palavra, que é a de maiores escrúpulos e que envolve comumente todo o quid?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.