Por Padre Antônio Vieira (1669)
Petite, et dabitur vobis: Pedi e recebereis, diz Cristo (Lc. 11,9). E para maior confirmação desta promessa, acrescenta: Omnis qui petit accipit: Porque todo o que pede recebe. A proposição não pode ser mais universal nem mais clara, mas tem a réplica e a instância muito à flor da terra, e apenas haverá neste mesmo auditório quem não possa testemunhar nela com a própria experiência. Quantos senhores de ricas e grandes casas pediram a Deus um herdeiro, e não o alcançaram? Quantos pobres carregados de filhos pediram para eles o sustento, e não têm com que lhes matar a fome? Quantos na enfermidade fizeram votos pela saúde, e morreram sem remédio?
Quantos na tempestade, bradando ao céu, foram comidos das ondas? Quantos no cativeiro, orando continuamente pela liberdade, acabaram a miserável vida nos ferros e nas masmorras? E para que não vamos mais longe, no mesmo caso do nosso texto temos a mãe dos filhos de Zebedeu pedindo, e pedindo de joelhos: Adorans, et petens aliquid ab eo. E a resposta da sua petição, sendo o mesmo Cristo a quem pediam, foi um não muito desenganado e muito liso: Non est meum dare vobis. Pois se é verdade certa e evangélica, experimentada, ordinária e manifesta que muitos pedem a Deus e não alcançam o que pedem, como diz Cristo: Pedi e recebereis? E como afirma absoluta e universalmente que todos os que pedem recebem? A dúvida não pode ser mais apertada, mas é da casta daquelas que se fundam na falta de inteligência, ou errada apreensão do texto. Ponderai e reparai bem no que dizem as palavras, e no que não dizem: Petite et accipietis: Omnis enim Qui petit accipit. Não diz Cristo: Pedi e recebereis o que pedi, senão: Pedi e recebereis. Nem diz: Todo o que pede recebe o que pede, senão: Todo o que pede recebe. E que é o que recebe? O que Deus sabe que lhe está melhor. Se pedis o que vos convém, recebeis o que pedis, mas se pedis o que vos não convém, recebeis o não se vos dar o que pedíeis. Deste modo, todo o que pede recebe: Omnis qui petit, accipit, porque, ou recebe o que pede, ou recebe o que havia de pedir, se soubera o que pedia. Quando um homem pede o que lhe não convém, se soubera o que pedia, havia de pedir que lho negassem, e porque só Deus sabe o que nos convém, supre com a sua ciência a nossa ignorância, e por isso nos responde, como aos Zebedeus, com um não, e nos nega o que pedimos.
O mesmo Cristo declarou a sua proposição e a fez evidente com três exemplos familiares e caseiros, que se eu os trouxera havíeis de dizer que eram baixos, tão altiva é a nossa rudeza, e tão humana a sabedoria divina: Quis outem ex vobis patrem petit panem, nunquíd lapidem dabit illi? Aut piscem, nunquid pro pisce serpentem dabit illi? Aut si petierit ovum, nunquid porriget illi scorpionem? Se um filho, diz Cristo, pedir pão a seu pai, dar-lhe-á uma pedra? Se lhe pedir peixe, dar-lhe-á uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo, darlhe-á um escorpião? Pois esta é a razão por que Deus, que nos trata como filhos, nos diz muitas vezes de não e nos nega o que pedimos, porque pedimos pedras, porque pedimos serpentes, porque pedimos escorpiões. Cuidamos que pedimos o necessário, e pedimos o inútil; cuidamos que pedimos o proveitoso, e pedimos o nocivo: isto é pedir pedras. Cuidamos que pedimos sustento, e pedimos veneno; cuidamos que pedimos o que havemos de comer, e pedimos o que nos há de comer; cuidamos que pedimos com que viver, e pedimos o que nos há de matar: e isto é pedir serpentes e escorpiões. Quando somos tão néscios ou tão meninos que não distinguimos o escorpião do ovo, nem a serpente do peixe, nem o pão da pedra, Deus que é pai, e tão bom pai, por que nos não há de negar o que tão ignorante e tão perigosamente pedimos? Oh! ditosos aqueles a quem Deus assim despacha, porque sabe que não sabem o que pedem: Nescitis quid petatis!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.