Por Camilo Castelo Branco (1862)
No mês de fevereiro de 1803 recebeu Simão Botelho uma carta de Tereza. No seguinte capítulo se diz minuciosamente a peripécia que forçara a filha de Tadeu de Albuquerque a escrever aquela carta de pungentíssima surpresa para o acadêmico, convertido aos deveres, à honra, à sociedade e a Deus pelo amor.
CAPÍTULO III
O pai de Teresa não embicaria na impureza do sangue do corregedor, se o ajustarem-se os dois filhos em casamento se compadecesse com o ódio de um e o desprezo do outro. O magistrado mofava do rancor do seu vizinho, e o vizinho malsinava de venalidade a reputação do magistrado. Este sabia da injuriosa vingança em que o outro se ia despicando; fingia-se invulnerável à detração; mas de dia para dia se lhe azedava a bílis; e é de crer que, se o não contivessem considerações da família, sofreria menos, desabafando pela boca dum bacamarte, arma da predileção dos Botelhos Correais de Mesquita. Seria impossível o reconciliarem-se.
Rita, a filha mais nova, estava um dia na janela do quarto de Simão, e viu a vizinha rente com os vidros e a testa apoiada nas mãos. Sabia Teresa que era aquela menina a mais querida irmã de Simão, e a que mais semelhança de parecer tinha com ele. Saiu da sua artificial indiferença, e respondeu ao reparo de Rita, fazendo-lhe com a mão um gesto e sorrindo. A filha do corregedor sorriu também, mas fugiu logo da janela, porque sua mãe tinha proibido às filhas de trocarem vistas com pessoa daquele casa.
No dia seguinte, à mesma hora, levada da simpatia que lhe causara aquele gesto de amizade, tornou Rita à janela, e lá viu Teresa com os olhos fitos na sua, como se a estivesse esperando. Sorriram-se com resguardo, afastando-se a um pouco do peitoril das janelas; e assim, ambas de pé, no interior dos quartos, se estavam contemplando. Como a rua era estreita, podiam ouvir-se, falando baixo. Tereza, mais pelo movimento dos lábios que por palavras, perguntou a Rita se era sua amiga. A menina respondeu com um gesto afirmativo, e fugiu, acenando-lhe um adeus. Estes rápidos instantes de se verem repetiram-se sucessivos dias, até que, perdido o maior medo de ambas, ousaram demorar-se em palestras a meia voz. Tereza falava de Simão, contava à menina de onze anos o segredo do seu amor, e dizia-lhe que ela havia de ser nada sua irmã, recomendando-lhe muito que não dissesse nada à sua família.
Numa dessas conversações, Rita descuidara-se, e levantou de modo a voz que foi ouvida de uma irmã, que a foi logo acusar ao pai. O corregedor chamou Rita, e forçou-a pelo terror a contar tudo que ouvira à vizinha. Tanta foi sua cólera, que, sem atender às razões da esposa, que viera espavorida dos gritos, correu ao quarto de Simão, e viu ainda Teresa à janela.
— Olé! — disse ele à pálida menina — Não tenha a confiança de pôr olhos em pessoa de minha casa, Se quer casar, case com um sapateiro, que é um digno genro de seu pai.
Tereza não ouviu o remate da brutal apóstrofe: tinha fugido aturdida e envergonhada. Porém, como o desabrido ministro ficasse bramindo no quarto, e Tadeu de Albuquerque saísse a uma janela, a cólera do doutor redobrou, e a torrente das injúrias, longo tempo represada, bateu no rosto do vizinho, que não ousou replicar-lhe.
Tadeu interrogou sua filha, e acreditou que foi causa à sanha de Domingos Botelho estarem as duas meninas praticando inocentemente, por trejeitos, em coisas de sua idade. Desculpou o velho a criancice de Teresa, admoestando-a que não voltasse àquela janela.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.