Por Coelho Neto (1898)
A todo instante os mestres açodados acudiam com vozes, ordenando que achicassem e eram homens ás bombas, outros aos gamotes, exgottando a nau que o mar invadia. O Gama não, se furtava á acção e apparecia onde maior era o perigo e maior o trabalho.
Para que os seus não ficassem em pusilanime abandono quiz que os clerigos descessem, entendendo que, fallando a Deus em soledade, mais se fariam ouvir, mas, em verdade, assim procedia porque notava que, andando elles entre a maruja attonita não só a distrahiam como ainda a tiravam do serviço porque, na incerteza de salvamento, queriam os homens buscar a graça para as almas e deixavam de mão o que faziam, acudindo religiosamente ás bençãos absolvedoras.
Ora uma rajada impetuosa arrancava, como um trapo pôdre, a vela da verga fendida, ora era um batei que se ia ao mar, com a sua palamenta, arrebatado pela agua furente. O breu dos calafetos despegava-se e as naus, com o seu arvoredo secco, corriam doidamente sem rumo, aos rebolos, com o gemer allucinado da gente que se tinha por perdida naquelles mares desconhecidos.
O capitão, fazendo face á tormenta, buscava alentar a companha que esfriava, mas tudo era baldado porque, a uma sua palavra de esperança, respondia o vento com ululos, respondia o mar com o vaga-lhão. Fez-se maior o atropello quando os retabulos, com imagens de santos, que iam elevados no castello da popa, vieram abaixo, com as vagas. Encheram-se os homens de um terror sagrado tomando presagamente aquclle facto como um aviso funesto de que a Providencia os abandonara.
Já os lemes sentiam-se governando o mal e os tendaes rotos espanadavam juntamente com as velas rebentadas. Queria um homem fazer-se forte respondendo ao appello do commando mas, de passagem, topava com um companheiro que escabujava enjoado e dolorido pedindo a Patria; outro bramia contra a temeridade de affrontarem aquelles extremos de tanta aspereza e reclamava, com ameaças, que se fizessem de volta; grumetes, que, pela primeira vez se viam em taes tormentos, mal escondiam as lagrimas do medo e a esses outros se foram ajuntando e mais e mais, tantos, por fim, e tão ameaçadores que os mestres desesperaram de os conter porque avançavam arrogantes, com armas, vacillando aos boléos da nau, uma das mãos n'um cabo a outra empunhando um ferro com que exigiam o regresso.
Mas veio-lhes á frente o Gama e molhado e ferido, mas sobranceiro e altivo, poz-lhes defronte a vergonha de uma arribada covarde á Patria quando d'ella haviam saido com tão nobre mensagem. Fez-lhes ver a humilhação da entrada quando, ao surgirem no rio patrio, o povo acudisse ás praias pressuroso e soubesse que retrocediam
miseraveis porque, partindo com honra, tornavam sem ella tendo-a deixado nos mares como deixavam as cargas que alijavam e os farrapos das velas que os ventos repartiam.
Afortunadamente foram-se os ventos amainando e, depois de tantos insultos do mar, luzio um sol de bonança e remittiram-se as vagas procellosas. Por maior fortuna parecendo ao Gama que já deviam andar na altura do Cabo poz-se na volta da terra sentindo que, em breve, teriam á vista apoiando todos em terreno firme.
E assim, velejando, na manhã gloriosa de um sabbado de novembro, quatro mezes depois de haverem deixado a Patria, o gageiro, com alvoroço, bradou annunciando terra e os de bordo, com os olhos marejados, avistaram arvoredo.
Correram todas as naus á capitanea e, de alegria, posto que em terra vissem apenas arvores, como se á mesma natureza cega quizessem apparecer garbosos, vestiram-se os officiaes com louçainhas, paramentaram-se os clerigos, os mesmos marurujos escolheram o melhor fato e as naus foram adornadas içando -se em todas as driças bandeiras e galhardetes, estourando festivamente berços e bombardas com que a companha arrependida procurava, saudando-o, rehaver a confiança do seu commandante.
Achando o piloto Pero de Alemquer boa tença alli fizeram ancoradouro dando ao seguro abrigo o nome de Angra de Santa Helena. Como as naus flagelladas necessitavam de fabrico emquanto uns baldeavam lavando-as, e outros, assentados em balsos, iam trabalhando no costado descosido ou, recorrendo á andaina de sobresalente outros substituiam vergas e mastaréus, velas e cabos, arriando a guindola com que, no momento afflicto, se haviam conduzido, o Gama, que buscava um leve repouso e alguem que lhe desse informações sobre o roteiro, mandou reconhecer a angra a ver se algum rio alli descia onde pudessem abastecer os toneis escassos. Foi-se a percorrer o sitio Nicoláo Coelho, n'um batel, com armas, e, quatro leguas acima deparouse-lhe o que tanto desejavam — aguas limpidas d'um rio que foi chamado de Santiago.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.